Obra de Pastro é patrimônio que deve ser conhecido e preservado

Interior do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, uma das maiores obras feitas por Cláudio Pastro (foto: Lucinay Martins/O SÃO PAULO)

Por seu trabalho no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o artista sacro Cláudio Pastro chegou a ser considerado um “Michelangelo” brasileiro.

“A comparação tem muitas razões de ser. A basílica é um dos maiores templos religiosos do mundo, situada no maior país católico da atualidade, e sintetiza a tradição cristã dos primeiros séculos, muito valorizada após o Concílio Vaticano II, com a arte latino-americana contemporânea. Ela não é apenas grandiosa, mas também o fruto emblemático da arte católica de nosso tempo. Um significado semelhante ao que a Capela Sistina e Michelangelo têm para a relação entre Renascimento e arte cristã do século XV”, afirmou o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Borba, como é mais conhecido, ressaltou, ainda, que a produção artística de Cláudio Pastro bebia nas fontes cristãs da Patrística, no rico e complexo simbolismo do mundo oriental, mas também refletia a alma popular latino-americana e as tendências primitivistas da arte moderna do século XX. “Muitos consideram suas obras muito simbólicas e cerebrais, mas o povo simples sempre aderiu com facilidade à beleza e às cores vibrantes de sua arte… Com o tempo, suas obras foram se tornando mais delicadas e os traços mais essenciais. A síntese entre Oriente e Ocidente se consumava cada vez mais, e o mistério parecia se apoderar sempre mais de sua criatividade”, completou.

O sociólogo enfatizou, também, que os especialistas de patrimônio cultural consideram os templos religiosos como obras físicas “mortas”, a serem preservadas para retratar um período histórico. Cláudio Pastro, no entanto, as analisava como obras vivas, fruto da interação permanente da comunidade de fiéis com as estruturas materiais. “Por isso, afora casos específicos de alto valor histórico, considerava que o templo tinha que passar sempre por um processo de renovação que mantivesse suas raízes, mas também acompanhasse a evolução da comunidade”, frisou.

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‘Herança’

Antes de morrer, Cláudio Pastro confiou ao Mosteiro Nossa Senhora da Paz o cuidado do legado de suas obras e da sua memória artística, assim como seu acervo pessoal, que inclui desenhos, projetos inacabados e estudos.

Estima-se que haja cerca de 300 igrejas espalhadas pelo mundo e um número incontável de quadros, esculturas e objetos litúrgicos idealizados por ele. É preciso, porém, fazer o levantamento e a catalogação de todas as suas obras para serem conhecidas e devidamente preservadas, uma vez que as obras de arte também possuem uma propriedade intelectual que deve ser respeitada.

Madre Martha compartilhou o desejo de tornar acessível ao público também as obras do acervo pessoal do artista. Existe, inclusive, o projeto de tornar a casa onde viveu, ao lado do mosteiro, um memorial a ele dedicado. Ao mesmo tempo, a Abadessa ressaltou que a pandemia ajudou a refletir sobre a possibilidade de o acesso a esse material não ser somente presencial, mas também disponível para a apreciação virtual.

É sobre esse acervo que Hilda Souto dedica sua pesquisa de doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com o foco em uma “crítica genética” do artista a partir das suas obras.

Conservação

Justamente pelo valor não só artístico e histórico, mas eclesial e espiritual das obras de Cláudio Pastro, que há uma preocupação daqueles que cuidam de seu legado para que esse patrimônio seja preservado.

Madre Martha alertou para o cuidado com certas intervenções, modificações e até reproduções que comprometem o projeto original do artista. A religiosa enfatizou que esse cuidado não se deve apenas ao fato de ser uma arte assinada por Pastro, mas também porque cada obra é fruto de uma experiência vivida por toda uma comunidade que participou ativamente do processo de criação e inspirou determinado projeto, sendo, portanto, parte integrante de sua história.

Nesse sentido, a Abadessa fez um apelo para que as pessoas que tenham conhecimento de obras do artista em suas paróquias e comunidades, que a informem a respeito. O contato pode ser feito pelo e-mail: hildasouto.arte@gmail.com.

Antiga casa de Pastro, onde é prevista a criação de um memorial para preservar algumas e suas obras e projetos (foto: Lucinay Martins/O SÃO PAULO)

Valorização da arte

Para Hilda Souto, Cláudio Pastro deixou um legado não só para a Arte como também para a própria compreensão da Igreja sobre a missão dos artistas sacros. “Não podemos negar que o Cláudio foi uma pessoa responsável por um grande movimento que aconteceu no Brasil… Se a Igreja agora valoriza os artistas como participantes da sua missão, devemos isso ao pioneirismo dele.”

Em seu livro “O Deus da beleza”, o próprio artista escreve: “A arte realiza em nós uma lenta, silenciosa, mas profunda educação, autodomínio e conhecimento, disciplina e respeito. Pouco a pouco, observador e arte se fundem. Dá-se uma catarse. A arte é a vida em harmonia… A preocupação com a beleza, a harmonia, desenvolve uma personalidade aberta, universal, que não se prende a querelas banais do momento, pois a arte os conduz muito além… A arte nos une ao invisível”.

Conforme um desejo manifesto pelo próprio Cláudio Pastro, seus restos mortais foram sepultados em um túmulo atrás da igreja abacial do Mosteiro Nossa Senhora da Paz, embaixo de uma cerejeira de que ele gostava muito. Na lápide de seu túmulo foi eternizada a frase que sintetiza o ápice da sua vocação: “O artífice do belo foi encontrar-se com a eterna Beleza”.

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