Pela trilha do esporte, a inclusão e o recomeço

Histórias de vida dos medalhistas paralímpicos do Brasil reforçam que o esporte pode ser, na sociedade, via de acessibilidade, acolhida e inclusão das pessoas com deficiência

A primeira semana dos Jogos Paralímpicos de Tóquio foi repleta de exemplos de que o esporte “cria empatia e congrega pessoas provenientes de qualquer percurso de vida, gerando uma cultura do encontro. Ele deve fugir da ‘cultura do descartável’ e ser acessível, acolhedor e inclusivo”, como aponta o documento “Dar o melhor de si”, publicado em 2018 pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

A cada uma das mais de 40 medalhas conquistadas pelos esportistas brasileiros até a tarde da terça-feira, 31 de agosto, tornaram-se mais conhecidos os itinerários de intensa preparação desses atletas e, especialmente, suas biografias, reforçando que “cada vida é preciosa, cada pessoa é um dom e a inclusão enriquece todas as comunidades e sociedades”, como disse o Papa Francisco, em fevereiro de 2017, a um grupo de paradesportistas.

Inclusão e nova perspectiva de vida foi o que o esporte proporcionou a muitos destes medalhistas, entre os quais Daniel Dias, multicampeão da natação; Jovane Guissone, único brasileiro da história a ir ao pódio na esgrima em cadeira de rodas; e Silvânia Costa, bicampeã paralímpica do salto em distância do atletismo.

‘O que define quem somos é o que está dentro de nós’

Foto: Ale Cabral/CPB

Aos 33 anos, Daniel Dias participou em Tóquio da última paralimpíada da carreira. Ele chegou aos Jogos com 24 medalhas conquistadas na história das paralimpíadas, e obteve mais três de bronze em disputas dos 100 e 200 metros livre da classe S5 e no revezamento 4×50 metros livre misto.

Daniel nasceu com má-formação congênita nos membros superiores e na perna direita, algo que só foi descoberto por seus pais, Paulo e Rosana, quando a mãe deu à luz. “O acesso a exames como ultrassom não era simples como é hoje. Então, ela [a mãe] só soube da minha deficiência pelos médicos quando nasci e me viu na incubadora, pois fui um bebê prematuro. Ela lembra que, no momento em que me viu, disse: ‘Estou aqui’. E eu sorri”, relembrou Daniel Dias, em uma palestra a empresários em 2019.

Nesse mesmo evento, o atleta recordou situações de preconceito pelas quais passou na infância e na adolescência, e disse que conseguiu superá-las graças ao apoio dos pais e à prática da natação: “Eu me achava inferior, mas entendi que não é o fato de ter ou não um braço, ser loiro ou moreno, que define quem você é. O que define quem somos é o que está dentro de nós”.

Hoje, o multicampeão nas piscinas é casado, tem três filhos e criou o Instituto Daniel Dias, em Bragança Paulista (SP), que ajuda na inclusão de crianças e adolescentes com deficiência por meio da natação. “Saber que minha família está me acompanhando, meus filhos, isso me deu força. Independentemente do que está acontecendo aqui, eu vou me divertir, vou chorar bastante. São meus últimos Jogos, então quero aproveitar cada momento”, afirmou o atleta, após conquistar a primeira medalha em Tóquio.

‘Deus me deu mais essa chance, eu soube aproveitá-la’

Foto: Pedro Ramos/rededoesporte.gov.br

Jovane Guissone trabalhou na lavoura com seus pais, em Barros Cassal, no interior do Rio Grande do Sul, até os 18 anos de idade. Em busca de independência financeira, mudou-se para Porto Alegre, onde conseguiu emprego em um comércio. Em 2004, em uma rodovia a caminho da capital gaúcha, foi surpreendido por assaltantes, esboçou um movimento de reação e foi alvejado nas costas. O projétil atingiu seu pulmão, o baço e a coluna.

“Eu pensei, ‘será que é dessa vez? Agora que irei?’ Mas Deus foi mais forte e me deu mais essa chance, e eu soube aproveitá-la”, contou em uma entrevista em que recordou o episódio do assalto, a delicada cirurgia pela qual passou e os dois meses em que permaneceu internado.

Guissone perdeu por completo o movimento das pernas, mas encontrou a oportunidade de traçar um novo destino em 2008, quando conheceu a prática da esgrima em cadeira de rodas. Quatro anos depois, conquistaria um inédito ouro para o Brasil nesta modalidade na Paralimpíada de Londres 2012 e agora, em Tóquio, voltou ao pódio, com uma medalha de prata na disputa da espada.

“Fico muito feliz em levar essa segunda medalha. Olha o salto que a esgrima teve no Brasil depois de Londres! Eu me lembro de que numa competição nacional tínhamos 30 atletas, agora são mais de 100. É legal conseguir trazer o pessoal com deficiência para o esporte. É um resultado gigantesco para a modalidade e para o País”, declarou o atleta de 38 anos.

‘Minha determinação é ainda maior do que a minha condição física’

Foto: Helano Stuckert/rededoesporte.gov.br

Não desistir é algo que Silvânia Costa de Oliveira certamente aprendeu nestes 34 anos de vida. Natural de Três Lagoas (MS), ela começou a praticar o atletismo aos 18, após se inscrever em uma corrida que dava à vencedora uma premiação de R$ 300. Venceu a prova e usou o dinheiro para pagar dívidas, uma vez que desde aquela época encontrava dificuldade para inserir-se no mercado de trabalho em razão da doença de Stargardt, que fez sua visão regredir pouco a pouco.

De vitória em vitória, Silvânia foi descoberta por uma técnica que a levou para treinar em São Caetano do Sul (SP). Não demorou muito para que alcançasse pódios em disputas nacionais e internacionais. Nos Jogos Rio 2016, foi medalhista de ouro no salto em distância da classe F11, para atletas com deficiência visual. Os anos seguintes, porém, seriam de muitas dificuldades. Acusada de doping, foi afastada das competições, não pôde disputar o Parapan de Lima 2019, mas conseguiu provar sua inocência e retornou aos treinos faltando cinco meses para os Jogos de Tóquio. No dia da disputa, Silvânia teve os dois primeiros saltos anulados. Nos dois seguintes, as marcas que alcançou não a levariam ao pódio, mas na penúltima tentativa saltou precisos 5 metros, que lhe valeram o bicampeonato paralímpico.

“Tive cinco meses de treino, enquanto minhas adversárias tiveram cinco anos, mas a minha determinação é ainda maior do que a minha condição física”, disse em entrevista. “Perdi muitos treinadores porque não podia frequentar as pistas, perdi grandes patrocinadores, minha condição física e também minha condição financeira”, afirmou, recordando os meses que passou distante dos filhos – Letícia, de 15 anos, e João Guilherme, 4 – para se manter focada nos treinamentos.

(Com informações da Rede Nacional do Esporte, Comitê Paralímpico Brasileiro, Portal ge e Torcedores.com)

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