A Bíblia, pilar da evangelização

Não foram poucos nem homogêneos os desafios que se colocaram aos homens e mulheres nos últimos 2 mil anos – mas, ao longo de tantos percalços, das invasões bárbaras da Antiguidade às ameaças totalitárias do século XX, da peste negra ou bubônica no medievo à atual pandemia de COVID-19, “o grande problema, proposto ao mundo, depois de quase dois milênios, continua o mesmo: Cristo sempre a brilhar no centro da história e da vida” (São João XXIII, discurso de abertura do Concílio Vaticano II), como “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6), e o único que tem “palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Esta nossa insistência cristã na dimensão espiritual poderia ser (como muitas vezes já o foi) taxada de uma fuga da realidade: não estaria nossa preocupação com a vida eterna a nos desviar dos problemas reais – as crises sociais, econômicas e políticas? Esta é, por sinal, a premissa que subjaz a todas as vertentes de materialismos que se digladiam pelo poder mundial desde o século passado: a de que não existiria nada além da matéria, e seria, assim, ilusória a noção de um Deus.

O problema com essas visões ideológicas, no entanto, está justamente neste reducionismo imanentista: elas falsificam o conceito de realidade ao fechar os olhos à realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus. Contraposta uma tal “mentalidade crítica” com a qual o homem moderno critica tudo, menos a si mesmo, nós, cristãos, oferecemos uma abertura radical ao infinito, às dimensões mais profundas do real – sem a qual é impossível responder de modo adequado e verdadeiramente humano aos desafios de cada época.

Mas o que tem tudo isso a ver com a Bíblia? Pois bem: por sua própria definição, Deus transcenderia absolutamente o alcance de nossas limitadas capacidades, e jamais poderia ser atingido, não tivesse Ele próprio Se nos mostrado – “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (Jo 1,18). Daí o papel único e insubstituível de Cristo para os homens: fora de Cristo, não há como conhecer a Deus, e todo o ser se transforma em um enigma indecifrável.

E aqui a chave da questão: para conhecermos a Cristo, para encontrarmos Nele a vida e a comunicarmos aos nossos companheiros de jornada, a Sagrada Escritura é um instrumento indispensável. Por isso, a Igreja insiste “que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” (Dei Verbum, 22), e que “de boa vontade tomem contato com o próprio texto, quer por meio da sagrada liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por meio de cursos apropriados e outros meios que nos tempos atuais se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte” (DV, 25).

A Bíblia, na qual “o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos”, nos serve, portanto, de verdadeiro “alimento da alma, fonte pura e perene da vida espiritual” (DV, 21) – no entanto, consistindo em uma vasta coletânea de textos escritos ao longo de vários séculos, para contextos e públicos os mais diversos, ela pressupõe certas cautelas para sua correta utilização.

Se foi o Espírito Santo quem inspirou os autores sagrados a escreverem os textos sagrados, é o mesmo Espírito quem deve guiar sua leitura, no âmbito da tradição eclesiástica, e tendo Jesus Cristo por chave de leitura do todo (cf. Catecismo da Igreja Católica, 111-114). Assim faziam os cristãos, desde o princípio da Igreja: pediam aos apóstolos e a seus sucessores que lhes explicassem as Escrituras, pois “como poderei compreendê-las, se não há alguém que me explique?” (At 8,30-31).

Em tempos de insegurança e crise sanitária, social, econômica e política, voltemos sempre a buscar apoio na Sagrada Escritura, especialmente nos quatro Evangelhos, e na interpretação que sempre lhes deram os pastores instituídos por Cristo. “Ignorar as Escrituras”, afinal, “é ignorar o próprio Cristo” (Catecismo, 133).

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