A Quaresma e a parábola do semeador

Terminei a leitura meditada da mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2021. Um texto para oração pessoal. Uma aula de Catequese na sua didática e apresentação. Impossível não perceber, no caminho de Cristo, mencionado pelo Papa nas três dimensões do jejum, da esmola e da oração, a opção a ser seguida por qualquer homem de bem ou com o desejo de conversão, como enfatiza o Pontífice. A Quaresma é período de conversão. E, então, emergem algumas perguntas: “Por que não o seguimos?”; “Por que relutamos tanto em abraçá-lo com plena liberdade?”; “Por que o trocamos por qualquer outro caminho, de tantos que vão se apresentando cotidianamente, sem o sentido que o caminho de Cristo nos dá?”.

De imediato, alguns argumentos nos justificam. “É muito bom, mas… não dá para mim”; “Do jeito que está o mundo, quem pode viver deste jeito?”; “O ambiente está muito ruim, o comportamento das pessoas… uma loucura”; “Até concordo, mas está fora do contexto moderno”; “A sociedade padece de um hedonismo total, cada vez pior; veja até as crianças…”. Tudo contrário a estas três condições: jejum, esmola e oração. É frequente colocarmos as justificativas no que está acontecendo lá fora, no mundo, nas transformações socioeconômicas e tecnológicas. É o que ocorre com as sementes, na parábola do semeador (cf. Mt 13,1-9; Mc 4,3-9; e Lc 8,4-8), quando caem à beira do caminho e, pisadas, são comidas pelos pássaros; ou em solo pedregoso e, queimadas pelo sol, não formam raízes. 

Ampliemos o nosso público. Aqueles que se casaram na Igreja. Trabalham honestamente, com generosidade aos filhos, que serão batizados. É uma luta! Alguns poderão dizer que o ano inteiro já é uma “Quaresma”, principalmente pelo jejum de férias, descanso, passeios e lazer. À “esmola” que, às vezes, precisam recorrer para pagamento de dívidas. E, no cotidiano, entre fraldas e febres da madrugada, festinhas, o problema do namorico precoce, as drogas que correm soltas, junto com a pornografia nas escolas; o tempo de oração é lembrado na hora em que deitam a cabeça exausta no travesseiro. Lutam e se esforçam. Estes não ignoram que estão contra a corrente, mas desanimam e sufocam. São as sementes que cresceram no terreno com os “espinhos” do mundo agitado; as compensações viciosas, as alegrias enganosas e transitórias, as ideologias permissivas as secam.  

Chegamos ao terceiro grupo. “Vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade de todas estas coisas. Buscai, em primeiro lugar, o seu Reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,32-33).  Estes são a “terra boa, tendo ouvido a Palavra, com coração nobre e generoso, conservam-na e produzem fruto pela perseverança” (Lc 8,15) e “darão fruto, produzindo à razão de cem, de sessenta e de trinta” (Mt 13,23). Como participar deste grupo? “O jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6,1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa” (Papa Francisco, Quaresma 2021). 

A atitude de limpar, arar e fertilizar a terra, para que esteja em condições de bem receber a semente e frutificá-la na capacidade dos dons e talentos que recebemos (cf. Mt 25,14-30), está na liberdade de querermos ou não nos converter. Não nos faltam meios. Colocar as dificuldades nas causas externas, que sem dúvida são reais, difíceis, exigentes nos seus desafios, é uma maneira de escondermos a correnteza mais forte do pecado que nos puxa e que está em nós mesmos. Na maioria das dificuldades “do mundo”, não conseguiremos fazer quase nada para melhorar sem antes nos comprometermos em vencer nossas lutas pessoais. 

Em tantos anos atendendo pessoas idosas, aprendi que há algo comum naqueles que perceberam o valor desta luta durante a vida. Resumiria assim: foram se desprendendo de tudo o que não é essencial, e só torna a vida obesa (jejum). Deram à dor e ao sofrimento um sentido sobrenatural que os ajudassem a ser mais compreensivos e disponíveis aos demais (esmola). Encontraram a beleza do amor nas coisas simples do cotidiano, que facilitou o diálogo com o Pai (oração). Todos eles com esperança na eternidade.

Valdir Reginato é médico de família. E-mail: reginatovaldir@gmail.com.

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