A Ressurreição e a alegria cristã

O Senhor ressurgiu, Aleluia, Aleluia!”, cantamos exultantes no Domingo de Páscoa – e essas exortações ao júbilo nos acompanharão por todo o tempo pascal: o próprio Ressuscitado saúda as mulheres que foram ao sepulcro dizendo “Alegrai-vos!” (Mt 28,9). O contexto em que vivemos esta Páscoa de 2021, no entanto, poderia nos levar a questionar tanta alegria: quantas mortes nos tem causado esta doença que não acaba, quantas internações, quantas angústias e rixas, quantos empregos perdidos e comércios falidos? Há ainda sentido em se alegrar?

Só conseguiremos responder a essa pergunta distinguindo bem dois tipos de alegria na vida humana: primeiro, aquela alegria natural que nos provém da obtenção de um prazer desejado – a alegria de um sorvete no calor do verão, de um sofá aconchegante após um longo dia de trabalho, ou de um almoço de Páscoa após as penitências da Quaresma… Esta alegria humana (laetitia), se fruída com moderação, é honesta e sadia – mas não satisfaz profundamente nosso coração, e traz mesmo a tristeza se buscada com desmesura.

A Ressurreição de Cristo, no entanto, abre-nos as portas para outro tipo de alegria, sobrenatural e bem propriamente cristã: a alegria que recebemos desde já da presença amorosa do Espírito Santo em nossa alma, e que nos permite entrever, pela fé, a eterna bem-aventurança do Céu. Para que esta alegria sublime (gaudium) seja plena em nós, diz-nos o Cristo que precisamos permanecer em Seu amor, guardando os seus mandamentos (cf. Jo 15,9-11).

É significativo que estas palavras sobre a alegria plena tenham sido proferidas na véspera da Paixão: Cristo sabia que o lamento e o choro haveriam de acompanhar seus discípulos nesta vida, mas anunciava-lhes que sua tristeza se transformaria em alegria – assim como a grávida sofre quando chega a hora do parto, mas depois já não se lembra da aflição, por causa da alegria de ter dado à luz, assim também as angústias desta vida terrena se converterão numa alegria que ninguém nos poderá tirar (cf. Jo 16,20-22).

Contemplemos com atenção o próprio Tríduo Pascal e veremos ali o maior exemplo desta dinâmica de tristeza aparente e externa versus alegria escondida e interna. Foi apenas na manhã de Domingo, no sepulcro vazio, que a glória do Ressuscitado se nos tornou manifesta: no entanto, a Sua vitória definitiva sobre a morte ocorrera na Paixão, no momento em que tudo se consumou na Cruz (cf. Jo 19,30). Precisamente quando julgava ter triunfado sobre o Cristo é que satanás foi confundido: as portas da eternidade haviam sido definitivamente abertas.

Assim também nossa vida, neste vale de lágrimas, pode exteriormente parecer dramática e terrível como aquela tarde no Calvário. Se enxergarmos as coisas sob a luz da fé, no entanto, até mesmo os sofrimentos nos serão ocasião de vitória, de transformarmos a dor em amor. E cantaremos a vitória da Cruz, certos já de nossa ressurreição futura: Regina Coeli, Laetare, Alleluia!

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