Amizade social

Sergio Ricciuto Conte

“Todos irmãos”, diz o Papa Francisco e anuncia no subtítulo que abordará um tema sobre relacionamento universal: amizade social. Como fez na Laudato si’, novamente cita São Francisco de Assis e seu convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço: “Feliz quem ama o outro”. Daí, amizade social, já que sem-fronteiras, que vai além de um relacionamento fechado em grupo, clã ou pessoas da mesma origem ou classe, como ficou marcado na cultura do pensamento positivista.

Ao usar amizade social como subtítulo da encíclica, pareceu-me que o Papa manifestou o desejo de alargar este conceito e elevá-lo ao nível de realmente acolher a todos, com a inclusão dos pobres, dos abandonados, dos doentes e dos últimos da sociedade, com a prática comprometida da solidariedade humana. A encíclica Fratelli tutti (FT) é uma continuação natural da Doutrina Social da Igreja, inaugurada pela Rerum novarum, de Leão XIII, de 1891, querendo sempre manter um diálogo com pessoas de boa vontade, muito necessário neste momento doloroso e especial da pandemia de COVID-19, “que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças”.

Francisco exemplifica o que entende por amizade social: livres relações internacionais, unidade das nações, necessidade de agir e sonhar coletivamente, com visão solidária e abertura aos interesses de todos, e que os poderes econômicos estejam voltados ao interesse do bem comum. Enfatiza que não devemos aceitar convites para ignorar a história ou deixar de lado a experiência dos mais velhos, pois estas “são as novas formas de colonização cultural” (cf. FT, 13-14).

A Fratelli tutti desenha um futuro possível com o reconhecimento da dignidade humana, de respeito à criação e ao divino. Este entendimento integral está na base de um mundo unido, onde se busca tudo aquilo que nos leva à paz e ao respeito mútuo, com justiça e equilíbrio socioeconômico, com um olhar para o irmão que está ao nosso lado.

Fundamental a descrição que faz o documento ao retratar algumas formas de dominação, tais como: “semear o desânimo”, “despertar desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores”, “a polarização”, “recorrer à estratégia de ridicularizar”, “insinuar suspeitas”. Francisco considera isso um jogo mesquinho, que não acolhe a verdade e empobrece a sociedade, ficando-se à mercê da “prepotência do mais forte”. Lembra que a política deve ser um “debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum” (FT, 15). Jogar todos contra todos e contra tudo é uma maneira de dominação, pois deixa a população confusa e sem condições de avaliar os valores que estãos sendo colocados em prática por quem governa (cf. FT, 16).

A amizade social vai além de propor ou executar ações benéficas. Estabelece a unidade e a coletividade como origem das ações e nos leva a querer o melhor para a vida da sociedade, para todos e para cada um. Somente assim será possível não excluir ninguém, gerando um verdadeiro sentimento universal de quem olha para a sua gente com amor (cf. FT, 99).

Para Francisco, a amizade social deve incluir os mais frágeis, os mais pobres e respeitar as diferenças culturais, aproximando, ouvindo, no esforço de procurar pontos de unidade, para dialogar e aprender a ouvir: “Para nos encontrar e ajudar mutuamente, precisamos dialogar” (cf. FT, 198).

Devemos ir além dos próprios limites, das próprias regiões e países, e envolver todo o planeta, conscientes da busca incansável da unidade e da partilha entre as nações da terra, na harmonia de irmãos que cuidam uns dos outros (cf. FT, 75/96).

Neste momento de pandemia, isto deveria refletir principalmente na disponibilização de vacina para todos os povos, sem deixar de lado as nações pobres e sem recursos. Amar a todos, amar o irmão sem excluir ninguém; agir coletivamente com ações de solidariedade em busca do bem comum e considerar que a unidade não é utopia, mas realidade a ser alcançada.

Esta é a proposta de amizade social do Papa Francisco: “Para atingir uma unidade multiforme que gera nova vida”, sendo este “um princípio que é indispensável para construir a amizade social: a unidade é superior ao conflito” (cf. FT, 245).

Luiz Antonio Araujo Pierre é membro do Movimento dos Focolares, professor e advogado. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pós-graduado em Gestão de Pessoas e especialista em Direito do Trabalho

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