Anunciai o Evangelho

“Homens da Galileia, por que estais admirados, olhando para o céu? Este Jesus há de voltar, do mesmo modo que o viste subir.” Este texto bíblico, muito bem guardado em nossa memória, abre a celebração litúrgica da Ascensão de Jesus. São palavras ditas aos que estavam admirados, olhando para o céu enquanto Jesus subia. Não se trata de uma festa de despedida, mas o início de um novo modo de Jesus estar presente entre nós. Abre-se para o cotidiano, para a realidade do serviço e nos impulsiona a sermos criativos e ousados, buscando caminhos novos para desafios também novos, prolongando hoje a mesma missão de Jesus.     

“Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura.” Com os pés no chão da vida que apresenta um cenário preocupante de doença, morte, fome, violência, o imperativo é anunciar a Boa-Notícia de Jesus. E boa notícia é algo que, em meio a tantas experiências negativas, traz luz e esperança, desperta alegria e encorajamento e anima as pessoas a viverem de maneira mais fraterna e solidária.

Muitos “sinais acompanharão os que crerem”. A tarefa não é ensinar doutrinas ou normas morais, mas propor um novo jeito de viver que possibilite mudar aquilo que não vai bem, inspirando homens e mulheres a ser presença do amor e da justiça, ao lado dos que sofrem. Então, mãos à obra para “expulsar demônios”, que causam estragos diversos na vida das pessoas; “falar novas línguas”, que comunicam a verdade que liberta, falando a língua do amor; “vencer o veneno”, que contamina amizades, estragando o relacionamento entre as pessoas e comunidades; “impor as mãos sobre os doentes”, para tocar nas feridas do corpo e da alma, possibilitando a cura por meio de uma acolhida afetuosa e um tratamento humanizado.

Falando sobre a urgência da transformação missionária da Igreja, o Papa Francisco usa a palavra “primeirear”, ou seja, os discípulos enviados precisam se antecipar, saber tomar iniciativa sem medo, indo ao encontro, procurando os afastados, chegando às encruzilhadas da vida para convidar os excluídos (cf. Evangelli gaudium, 24). Santo Agostinho fala de uma fé autêntica e firme que encoraja os que, em nome de Jesus, saíram para pregar por toda parte: “Esta fé aumentada com a ascensão do Senhor e fortalecida com o dom do Espírito Santo, nem os grilhões, nem os cárceres, nem os exílios, nem a fome, nem o fogo, nem as dilacerações das feras, nem os tormentos inventados pela crueldade dos perseguidores jamais puderam atemorizá-la. Em defesa desta fé, por todo o mundo, homens e mulheres, meninos de tenra idade e moças na flor da juventude combateram até o derramamento do sangue. Essa fé expulsou demônios, afastou doenças, ressuscitou os mortos”.

Na festa pascal da Ascensão do Senhor, acolhemos a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Neste ano, lembra o convite que Filipe fez a Natanael: “Vem e verás” (Jo 1,46). Para além de uma troca de informações pré-fabricada, coisa de “palácio” que cada vez menos consegue trazer a verdade dos fatos e a vida concreta das pessoas, é preciso “gastar a sola dos sapatos” para verificar com os próprios olhos determinadas situações que escancaram graves fenômenos sociais, bem como energias positivas que brotam da base da sociedade. E nesta empreitada sobressai o trabalho de jornalistas, operadores de câmera, editores, cineastas que arriscam a vida, trazendo luz à difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo. “Seria uma perda não só para a informação, mas, também, para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para nossa humanidade. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: ir, ver e partilhar.” 

“Os discípulos saíram… O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra.” Assim se cumpre a promessa de Jesus de estar no meio de nós até o fim dos tempos. O mesmo Jesus que viveu na Palestina, acolhendo os pobres e revelando o amor do Pai, continua vivo no meio de nós, nas nossas comunidades. Que o olhar para o Céu nos encoraje e capacite para cuidarmos bem da terra. Olhemos para o horizonte e façamos do chão em que pisamos um lugar favorável à vida. 

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