As eleições não são uma guerra

As eleições envolvem grandes possibilidades e, também, grandes riscos. O exercício do poder político, tanto no Legislativo quanto no Executivo, pode proporcionar o bem para a sociedade, como pode ser também fonte de desequilíbrios, desorientações e danos à coletividade. Em vez de serviço ao bem comum, o poder político, a depender do modo como é exercido, pode favorecer e reproduzir injustiças e agressões à vida e à dignidade da pessoa humana. Ou seja, eleições são um tema sério, com muitas consequências para toda a sociedade.

A importância das eleições e, por consequência, do voto, deve levar, em primeiro lugar, a formar bem a consciência. Não faria sentido que um cristão, chamado por Deus a ser sal e luz do mundo, contribuísse, por descuido ou ignorância, com candidatos e propostas políticas que causem danos à sociedade e ao interesse público.

A esse respeito, deve-se recordar que os católicos dispõem de um tesouro único de doutrina e de reflexão sobre os temas de interesse público. O mundo não nos é indiferente. "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", ensinou-nos Jesus Cristo. Consciente da missão do cristão no mundo – e sob o influxo das luzes do Concílio Vaticano II –, a Igreja intensificou, nas últimas décadas, seus esforços na tarefa pedagógica de orientação e de esclarecimento de critérios sobre temas sociais e políticos.

Resultado de um fenomenal esforço de estudo e reflexão – e, também, de muita oração –, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja é leitura fundamental para todos os católicos que não desejam estar alheios aos rumos éticos e sociais da sociedade. Da mesma forma, há muitos outros documentos da Igreja – sobre direitos humanos, família, educação, sexualidade e outros temas – que, de forma acessível, podem iluminar muitas questões presentes hoje no debate público.

Eis a tarefa do cristão: formar bem a consciência para discernir, entre tantas confusões e ignorâncias do mundo contemporâneo, o caminho da solidariedade e do bem comum, da justiça e da misericórdia. É uma empreitada fascinante, em que cooperamos com Deus para reordenar toda a criação ao seu genuíno e originário sentido. Não é tarefa triste, tampouco impossível. Temos a graça de Deus abundante para, juntos com todos os homens e mulheres de boa vontade, levar o mundo a Deus.

Nesse caminho de cooperação, o es- tudo da Doutrina Social da Igreja não tem uma finalidade meramente individual – para evitar que se colabore inadvertidamente com ideias e propostas equivocadas. A formação tem uma dimensão essencialmente apostólica. Trata-se de assimilar esse tesouro da Igreja para que possamos ser sal e luz aos nossos irmãos. Na vida do cristão, nada é estritamente individual, encerrado em cada um.

O chamado de Deus para que nos formemos bem, para que não desperdicemos o tesouro de doutrina que a Igreja nos oferece, é, assim, um convite ao apostolado. Formar bem a consciência é saber explicar melhor, com mais fundamento, com mais clareza, com mais caridade, a doutrina de Jesus Cristo em todas as suas dimensões e implicações,

também nas questões sociais. Seria sinal de má compreensão da doutrina cristã quem achasse que a formação da consciência nos transforma em juízes dos nossos irmãos. Somos apóstolos, não juízes. Oferecemos luzes, não sentenças condenatórias.

A formação doutrinal abre os nossos olhos a respeito de muitos equívocos, a começar pelos nossos próprios erros e pecados pessoais. "Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão", disse Jesus. E essa maior sensibilidade, divina e humana, que a fé confere ao nosso olhar sobre o mundo não deve levar a uma atitude de confronto com quem pensa ou vê de forma diferente. É, antes, uma chamada a sermos mais comunicativos, mais próximos, mais compreensivos.

Para o cristão, as eleições não são uma guerra. São ocasião, assim como o são todas as outras circunstâncias da vida, de difundir o bem com serenidade, alegria e muita esperança. A eficácia dessa tarefa não é medida por critérios meramente humanos. "O meu Reino não é deste mundo."

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