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Cinema: Em Defesa de Cristo

Cinema: Em Defesa de Cristo
Cena do filme ‘The Case For Christ (2017)

The Case For Christ – no Brasil, “Em Defesa de Cristo – é um filme norte-americano dirigido por Jon Gunn e lançado em 2017. Baseia-se na história real de Lee Strobel, jornalista repórter do Chicago Tribune que, estudando os argumentos em favor da credibilidade da ressurreição de Jesus Cristo, abandonou o ateísmo para se tornar cristão.

Trata-se de um bom trabalho cinematográfico. Boas atuações e bom roteiro e, embora a trama seja simples, é capaz de prender a atenção. Tudo começa com um acidente que fez com que Leslie, a mulher de Lee, se convertesse de modo um tanto repentino. Lee, revoltado com a mudança, decidiu estudar o Cristianismo para poder provar sua falsidade ou, ao menos, para mostrar sua completa ausência de embasamento científico. Assim, ele inicia sua interessante jornada investigativa, que tem conteúdo para compor uma aula de Teologia Fundamental.

Embora o encontro com Jesus Cristo se dê por meio da fé, a qual não depende exclusivamente da inteligência e vontade humanas – “ninguém será capaz de dizer: ‘Jesus é o Senhor’, a não ser sob influência do Espírito Santo” (1Cor 12,3) –, o ser humano é capaz de, por meio da razão, reconhecer não somente a possibilidade do Evangelho ser verdade, mas também sua impressionante coerência – a ponto de poder dizer exclusivamente com a razão que, mais do que possível, o Evangelho é provável. O estudo desses argumentos pertence à disciplina teológica chamada Teologia Fundamental. Por meio deles, o teólogo procura mostrar a credibilidade da Revelação, seja para poder dialogar com aqueles que não creem, seja para fortalecer e aprofundar a fé daqueles que creem. O filme é particularmente interessante, porque apresenta alguns desses argumentos sem perder as características de um filme ou tornar-se pesado.

A investigação começa pela sugestão de um amigo cristão de Lee: focar-se na ressurreição de Jesus Cristo. Como se lê na carta de Paulo aos Coríntios, a fé cristã é vã se a ressurreição não aconteceu. Portanto, se ele conseguisse mostrar que as evidências falam contra a ressurreição, seria capaz de desmontar o Cristianismo. A partir daí, Lee passa a consultar especialistas e confrontar as informações. Primeiro, se depara com as várias fontes que atestam que muitas pessoas viram Cristo vivo após sua morte (o que provaria a ressurreição). São fontes bíblicas e extra bíblicas, pouco distantes temporalmente do acontecimento. Ademais, o fato que várias dessas testemunhas – e muitos outros fiéis que os seguiram logo depois – deram a vida por isso fala contra a hipótese de que estivessem mentindo. E por aí vão os argumentos.

Havendo muitas testemunhas, Lee passa a questionar a confiabilidade dos manuscritos que nos ligam a elas (será que essas narrativas não foram forjadas muitos séculos após?). Entrevistando um sacerdote católico, ele descobre que nenhuma outra obra no mundo chega sequer perto do Novo Testamento em termos de cópias antigas autenticadas. Não só isso, mas, enquanto as cópias mais antigas que possuímos de textos como a Ilíada de Homero são de muitos séculos após o texto original, a cópia mais antiga de um trecho do Evangelho dista menos de 100 anos do original.

O filme mostra algumas outras entrevistas interessantes: uma psicanalista agnóstica o desacredita sobre a possibilidade de uma ilusão em massa dos primeiros cristãos, um médico de prestígio mostra que certamente Jesus morreu naquela cruz (não poderia ter desmaiado ou fingido sua morte) e por aí vai.

Enfim, são todos argumentos que um bom manual de Teologia Fundamental trata mais exaustivamente. Também há livros muito interessantes que tratam em específico de algum dos temas (por exemplo: para um rigoroso estudo médico da Paixão, recomendamos o livro “A Paixão de Cristo Segundo o Cirurgião”, de Pierre Barbet).

Abordar a ressurreição de Cristo com o rigor de um investigador definitivamente mostra a solidez de nossa fé – a um certo ponto, Lee diz à mulher: “a evidência da sua fé é mais esmagadora do que eu poderia imaginar”. Além disso, o trabalho de detetive tem sempre algo de empolgante – ainda mais neste caso, em que estamos diante do maior mistério do universo. Por esses motivos, parece-nos que o filme é um ótimo instrumento pedagógico, servindo para introduzir a questão e dar margem para que se proponham a adolescentes e jovens trabalhos de investigação ou simples reflexão.

Todavia, o filme também tem outros elementos a valorizar. Um deles é a relação entre Leslie e Lee, que oferece boas luzes sobre a vida matrimonial. Outro é explicitado por meio de um amigo ateu, que orientou Lee em seu esforço por destruir a fé da esposa. A um certo ponto, Lee o escuta dizer: “crer em Deus, não crer em Deus, de um modo ou de outro é sempre preciso um salto de fé”. Esse argumento não é muito explorado, mas fica um espaço para a reflexão. Trata-se de uma posição muito cara a Bento XVI, que a aborda magistralmente em seu livro “Introdução ao Cristianismo” e em vários outros escritos e intervenções (em particular, vale a pena ler algumas delas reunidas no livro “Fé, Verdade e Tolerância”). Em poucas palavras, quando se trata dos elementos mais fundamentais que compõem a visão de mundo de cada um, não se pode escapar do crer, da fé humana – não a fé teologal. Afirmar, por exemplo, que a razão científica é o único ou o último critério de verdade é fruto de um ato de fé. Essa mesma verdade não é demonstrada por ciência nenhuma.

E isso nos leva à bronca que Lee recebe de um colega jornalista (ele está se lamentando, revoltado com o fato de não conseguir derrubar o Cristianismo): “siga os fatos e escreva a história, ganhando ou perdendo”. No fim das contas, embora a ignorância tenha um papel enorme na falta de fé da humanidade, não podemos esquecer que esta se apoia ainda mais na soberba, em não aceitar aqueles pedaços de verdade que já vislumbramos. É certo que a soberba se enfraquece diante de bons argumentos racionais, mas seu principal inimigo é o amor. A razão, se não está a serviço de um testemunho de amor puro, da caridade, pouco pode fazer (cfr. 1Cor 13). O filme, a seu modo, também tenta mostrar isso.

Gostaríamos de ressaltar um último ponto. O filme explora o fato que a fé depende de coisas que vão além da razão: amor, sentimentos e ressentimentos trazidos do passado. Lemos na internet a opinião de um crítico de cinema que dizia que o filme acabava por confirmar a tese de que a fé tem a ver com sentimentos e não com a razão. Não se preocupem, isso não é verdade.

O filme dá espaço para reconhecer duas coisas: (1) a razão humana, de fato, não é o critério último da verdade. Quando se tratam dos princípios fundamentais que compõem nossa visão de mundo, quem joga não é tanto nossa razão, mas o coração. É em seu íntimo que o homem se sente inclinado a crer em um ou outro caminho. É em seu íntimo que ele acolhe ou rejeita a chamada divina; (2) sendo assim, é natural que o maior entrave à fé decorra de não ter sido amado, isto é, de mágoas e feridas trazidas do passado, e de ser escravo das muitas paixões. As pessoas, ainda mais os grandes cientistas, gostam de reconhecer-se como guiados exclusiva ou principalmente pela razão, mas não é assim que acontece. São guiados antes pelo coração e por suas paixões. Quando estas não submetem e escravizam a razão – isto é, quando a pessoa é sensata –, não costuma demorar até que se encontre Deus.

Para concluir: o filme oferece a história de alguém que passou do ateísmo ao protestantismo. Quem quiser uma bela história real de alguém que passou do protestantismo para o catolicismo, completando assim sua adesão a Cristo, leia “Todos Os Caminhos Levam A Roma”, de Kimberly Hahn e Scott Hahn. É um livro agradável, inspirador e formativo.

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