Continente do amor e da misericórdia

Segundo os papas, desde São Paulo VI, este é o “continente da Esperança”. Com Bento XVI, o epíteto alcançou um sentido de catolicidade e unidade que expressa uma tensão missionária e escatológica, de acordo com o discurso inaugural da Conferência de Aparecida (2007): “Só da Eucaristia brotará a civilização do amor, que transformará a América Latina e o Caribe para que, além de ser o continente da Esperança, seja também o continente do Amor!” (Discurso Inaugural 4). “Transformar-se em amor” – por meio da Eucaristia – é a ideia subjacente a este belo enunciado; noutro lugar, ele já explicara: “Santo Agostinho podia dizer que o ‘sacrifício’ verdadeiro é a civitas Dei, isto é, a humanidade transformada em amor, que diviniza a criação e que é a oferenda do universo a Deus. Que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28) é a meta do mundo, é a essência do ‘sacrifício’ e do culto” (O Espírito da Liturgia, I, 2, 2000). Ou ainda: “Transformar-se em amor é a única adoração verdadeira” (op. cit. I, 3). 

Nisso está o fundamento e o objetivo mais profundo do grande impulso e despertar missionário, na forma de “Missão Continental” (Documento de Aparecida, DAp, 551). Ao mesmo tempo, este é o verdadeiro caminho da unidade (cf. DAp 64, 127-128, 537 e 543). Assim, “a finalidade da missão é uma humanidade que se tornou uma glorificação viva de Deus, o culto verdadeiro que Deus espera: eis o sentido mais profundo da catolicidade” (Bento XVI, Homilia, 29/06/2005), a qual se realiza mediante a unidade na diversidade.

Nesse sentido – conforme cita o “Documento para o Caminho” da Assembleia Eclesial (nº 19) –, em Aparecida se fez referência à católica unidade da Igreja quanto aos indígenas e afro-americanos, como “novos sujeitos” que “emergem na sociedade e na Igreja”: “Este é um kairós para aprofundar o encontro da Igreja com esses setores humanos que reivindicam o reconhecimento pleno de seus direitos individuais e coletivos, serem levados em consideração na catolicidade com sua cosmovisão, seus valores e suas identidades particulares, para viverem um novo Pentecostes eclesial” (DAp, 91). Estamos aqui no plano da inculturação e do seu processo salvífico, pois a cultura está em situação escatológica e é objeto da Redenção; para São Paulo e Santo Ireneu, trata-se de “recapitular todas as coisas em Cristo”. De fato, em razão da universalidade do povo de Deus, a Igreja Católica “tende a recapitular toda a humanidade com todos os seus bens sob Cristo Cabeça” (Lumen gentium, 13). 

A III Conferência em Puebla (1979) reconheceu que “na ordem pastoral, permanece válido o princípio de encarnação formulado por Santo Ireneu: ‘O que não é assumido não é redimido’” (nº 400). A doutrina desse Padre da Igreja do II século contém, virtualmente, um dado teológico fundamental para a criação de uma Pastoral da cultura da misericórdia: o princípio da encarnação de Ireneu fornece a lógica da inculturação e tem seu núcleo na “recapitulação” (Ef 1,10), que, em Cristo, representa a unidade do plano de Deus e do seu desígnio na economia da salvação. 

Portanto, cabe-nos – a partir da Assembleia Eclesial latino-americana e caribenha – fazer ver que a recapitulação é o cumprimento do “desígnio benevolente” do Pai, desígnio de misericórdia que guia toda a história da salvação e se revela na Eucaristia (cf. Ef 1,9-10; 3,8-11), o que deve conduzir inexoravelmente a uma “cultura da misericórdia”, que, por sua vez, nos abrirá à meta da “civilização do amor” ou, se quisermos, da civitas Dei.

Marcelo Cypriano Motta é advogado, contemplado com a Medalha “São Paulo Apóstolo” 2018 e atua na “Promoção da Cultura da Misericórdia”, no Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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