Desigualdade: marca brasileira

A experiência vivida ao longo da crise sanitária, sem dúvida alguma, trouxe novos comportamentos para toda a sociedade. A solidariedade, particularmente no início do isolamento social, foi algo muito positivo e que nos fez ficar esperançosos. Infelizmente, esse comportamento perdeu força com o passar do tempo. Hoje, várias instituições e grupos estão tendo que lutar para conseguir atender um número mínimo de necessitados.

Além disso, a falta de planejamento, o descaso com a coisa pública e a falta de atenção com a população ficaram patentes com a segunda onda da pandemia. Falar das perdas desnecessárias de vidas pode parecer óbvio, mas é algo necessário. 

Muitas pessoas, com medo de perderem o presente, acabaram perdendo o futuro. E talvez, pior, provocaram a perda do futuro de outros.

Outra marca terrível que está ocorrendo ao longo desse processo é o aumento significativo da desigualdade em nosso Brasil. Uma pesquisa do FGV Social nos mostra que “a renda individual do trabalho do brasileiro teve uma queda média de 20,1% e a sua desigualdade, medida pelo índice Gini, subiu 2,82% no primeiro trimestre completo da pandemia”. Esses indicadores representam recordes negativos históricos. Outros dados dizem que a renda do trabalhador da metade mais pobre caiu quase 28%, ao passo que entre os 10% brasileiros mais ricos a queda da renda foi de 17,5%. Embora todos os pesquisados tenham quedas de renda, alguns grupos sofreram mais, como os indígenas (-28,6%), os analfabetos (-27,4%) e os jovens entre 20 e 24 anos (-26%). 

Nosso País é o oitavo pior em diferença de renda. Registra o coeficiente Gini de 53,9 (que teria valor 100 para igualdade absoluta). Em dezembro, foi divulgado o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) relativo a 2019, e o Brasil perdeu cinco posições no ranking mundial, apesar de uma leve melhora do índice em si (0,762 para 0,765). Ocupamos a 84ª posição entre 189 países, pior do que a de Chile, Argentina, Uruguai e Colômbia.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua) 2019 nos traz que o rendimento do 1% que ganha mais equivale a 33,7 vezes o da metade da população que ganha menos. Os rendimentos mais elevados foram de R$ 28.659, ao passo que o montante dos 50% da população com os menores rendimentos foi de R$ 850.

Os dados mundiais mostram que, quanto mais pobre a pessoa for, maior o risco de se contaminar ou morrer. Os mil maiores bilionários do mundo recuperam as perdas da pandemia em apenas nove meses. Os mais pobres levarão mais de uma década para voltar ao nível que estavam antes da crise.

O Papa Francisco disse: “Perante a pandemia e as suas consequências sociais, muitos correm o risco de perder a esperança. Neste tempo de incerteza e angústia, convido todos a aceitarem o dom da esperança que vem de Cristo”. É Cristo “que nos ajuda a navegar nas águas tumultuosas da doença, da morte e da injustiça, que não têm a última palavra sobre o nosso destino final” (26 de agosto de 2020). Conclui que a economia está doente, devemos sair melhores da pandemia.

Na homilia da missa da Vigília de Natal, em 24 de dezembro de 2020, o Papa criticou a desigualdade entre ricos e pobres e, ainda, a “voracidade consumista” dos homens. Disse que “enquanto uns poucos realizam banquetes esplêndidos, muitos não têm pão para sobreviver”. Para Francisco, o presépio é o “ponto de inflexão” para mudar o curso da história. “O corpo do Menino Jesus no presépio propõe um novo modelo de nova vida: não devorar e monopolizar, mas compartilhar e dar. Deus se faz pequeno para ser nosso alimento. Nutrindo-nos Dele, pão da vida, podemos renascer no amor e romper a espiral da avidez e da cobiça.”

Fabio Gallo é professor da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo (SP), e ex-professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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