Doutrina Social da Igreja: um antídoto contra a polarização

Vivemos tempos difíceis. Apesar da atuação corajosa de inúmeros setores sociais visando a atenuar os efeitos da pandemia, continuamos a conviver, diariamente, com a morte de milhares de brasileiros, pobreza, aumento do desemprego e da desigualdade social. 

A chegada das vacinas não fez desaparecer o sentimento de insegurança e pessimismo quanto às instituições e ao futuro do Brasil. A política, “uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum” (Evangelii gaudium, EG, 205), foi reduzida a um jogo de interesses, tornando-se objeto de descrença e rejeição.

Os discursos agressivos e exacerbados, que apostam na desqualificação do outro, a manipulação de notícias, a recusa em entrar em diálogo com posições diferentes, assim como a crença de que o outro é um inimigo a ser destruído, tornaram-se uma prática comum, revelando uma mentalidade fechada, autorreferenciada, incapaz de acolher a contribuição do outro, a parcela da verdade que ele encerra. 

Neste contexto, transpor tais camadas ideológicas para identificar formas de atuação à luz do Evangelho se torna uma tarefa difícil para todos nós. 

Por vezes, prevalecem “determinadas preferências políticas em vez das profundas convicções da sua própria fé”, também entre aqueles que se agarram a certas posições políticas, consideradas a salvaguarda de uma sociedade cristã (Fratellli tutti, FT, 39).

Muitos defendem a volta a um passado ilusório, fruto da idealização ou desconhecimento, pois, mesmo nos períodos de hegemonia cultural cristã, a dinâmica social comportava oposições e conflitos. Além disso, o Cristianismo não penetrou nas relações cotidianas pela força de leis ou costumes, mas por força da atração, pelo testemunho daqueles que viviam uma vida nova em Cristo.

Movidos pela força do Espírito Santo e imbuídos da caridade, os primeiros cristãos enfrentavam as dificuldades do dia a dia, as epidemias avassaladoras e a morte, oferecendo o cuidado pessoal e criando estruturas de apoio, tais como hospitais, locais para hospedagem e alimentação para os pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros.

Longe de viverem em comunidades fechadas, os cristãos estavam integrados à sociedade, compartilhavam as conquistas e dificuldades de cada momento histórico, mas não eram determinados por elas (cf. Carta Diogneto).

Da mesma forma, somos chamados a participar ativamente de todas as instâncias sociais, ao lado de todos os que buscam o bem comum, amparados pela Doutrina Social da Igreja (DSI), uma bússola segura para orientar nossa compreensão e atuação social.

A DSI não é uma ideologia, não propõe um modelo político ou econômico específico, nem uma terceira via, mas oferece princípios e critérios para refletir, avaliar e orientar a ação.

Seus princípios têm valor universal, podendo ser compartilhados pelos seguidores de outras orientações religiosas ou não crentes, pois fazem um apelo à razão, ao reconhecimento daquilo que é conforme a natureza humana, à realização de sua altíssima vocação como filhos de Deus.

Dessa forma, o homem não se torna refém de ideias e sistemas e pode exercer sua liberdade frente às teorias econômicas, sistemas sociais ou políticos, avaliando-os livremente.

Se temos um farol que ilumina nossa rota – a DSI – por que, então, predominam os embates e a defesa de posições diametralmente opostas em questões políticas e sociais?  

No próximo artigo, arriscaremos algumas respostas a esta pergunta.

Marli Pirozelli N. Silva é graduada em História e mestra em Filosofia da Educação, ambos pela USP. É professora universitária de Doutrina Social da Igreja.

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