É possível investir e preservar a fé?

Sergio Ricciuto Conte

Quem não vive os problemas do dia a dia para a manutenção de nosso lar? Dar conta de todas as despesas? A economia é algo muito presente nas nossas vidas. Mas sabemos que a economia deve ser um ambiente que assegure a todos condições para uma vida digna e um espaço de solidariedade humana – pessoas, comunidade e povos. Assim, torna-se uma faceta importante para todos a organização de nossas finanças. Preservando recursos para estarmos preparados para emergências, para o momento que deixamos o campo de trabalho formal e, mesmo, para poder consumir sem a dor de cabeça de não saber como pagar as contas. Esse processo nos leva à necessidade de investir o nosso dinheiro, para que possamos preservá-lo e ainda obter algum ganho financeiro. Isso, porém, nos traz questões importantes: estamos realizando investimentos de maneira ética? Estamos atentos ao fato de onde o nosso dinheiro está sendo colocado? Aqui cabe uma questão mais importante ainda: é possível obter ganhos financeiros e preservar as bases de nossa fé? 

No dia a dia do mercado, o que se nota é que a maioria das pessoas que possui recursos para investir tem a única preocupação de obter resultados positivos que tragam mais dinheiro, no entanto, sem a menor preocupação de como esse volume financeiro está sendo alocado. A visão é dirigida para telas de computadores com tabelas e gráficos que mostram se há oportunidades de ganhos. Na verdade, hoje em dia, muito desse trabalho é feito por robôs que usam algoritmos preparados para que sejam aproveitadas oportunidades e sem a menor preocupação se o dinheiro está na indústria de armas, tabaco, se usa de trabalho escravo ou infantil, nada disso importa, desde que traga ganhos financeiros. 

Por outro lado, a Igreja Católica tem manifestado preocupação com os investimentos financeiros. Desde 2014, a Igreja orienta seus fiéis a investirem em empresas que revertam o lucro ao bem social, os denominados “Investimentos de Impacto”. São investimentos eticamente alinhados e realizados por aqueles que realmente desejam fazer diferença na vida dos outros. Visto como um passo adiante dos investimentos ESG, sigla que conjuga os aspectos: Ambiental (Environmental), Social (Social) e Governança (Governance). Isso também é refletido por uma pesquisa de 2019, a qual traz que 63% da geração millenium diz que é extremamente ou muito importante que seu consultor financeiro compartilhe seus valores religiosos.

Importante, também, mencionar a mensagem do Papa Francisco ao Fórum Econômico Mundial de 2020, que nos recorda a “responsabilidade moral” de cuidar da casa comum, em referência à Laudato si’. Lembra, ainda, “que nunca se pode perder de vista que somos todos membros de uma única família humana, com o dever moral de cuidar uns dos outros”. E, mais, “cada um de nós tem que buscar o desenvolvimento integral de todos os irmãos e irmãs, inclusive o das futuras gerações”.

Tudo o que temos vivido ao longo da pandemia trouxe muitas lições. Uma das mais ricas é que passamos a dar mais valor ao que realmente é importante em nossas vidas. Essa atenção por valores ligados à vida está fazendo com que as pessoas se voltem para a busca de um futuro melhor para todos e, por consequência, o investimento em empresas que tenham essa preocupação. Podemos, sim, acreditar que é possível fazer o bem, ganhar dinheiro com isso e preservar as bases de nossa fé.

Fabio Gallo é professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) e ex-docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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