A ética das redes digitais

Nós temos como primícias do ser humano a liberdade, a vontade e a responsabilidade. Mas será que no mundo atual estamos realmente exercendo plenamente a nossa vontade e liberdade? E com responsabilidade?

Não podemos negar que o novo mundo digital que se abre é de muita utilidade e permite grandes avanços à humanidade. Permite que as pessoas descubram coisas, pesquisem, estudem, criem, realizem consumo com segurança e comodidade, obtenham uma infinidade de coisas muito boas para a vida. Outro fator importante, porém, trazido pela revolução digital, é a interferência direta em nossa vida pessoal e profissional pela quantidade de dados e informações que nos são disponibilizados. Nos últimos anos, produzimos mais dados do que ao longo de toda a nossa história. Para dar uma ideia de toda essa transformação, desde 2011 o volume total de dados armazenados pela humanidade aumentou 22 vezes.

O fato é que o nível de investimentos em tecnologia atual é gigantesco, particularmente em inteligência artificial e big data. Isso tem provocado um forte crescimento das megaempresas provedoras das redes digitais. No mundo financeiro, essas empresas são conhecidas pelo acrônimo FAANG, referência às cinco empresas de tecnologia americanas proeminentes: Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet (Google). Empresas que dominam totalmente os seus mercados. No entanto, esse domínio não tem saído de graça para essas empresas que começaram a ser questionadas por autoridades e pela sociedade.

O filme-documentário “As redes digitais” mostra como essas grandes empresas do setor conquistam as pessoas, tornando-as verdadeiros fantoches. Fazem que acreditemos que temos vontade própria, mas, na verdade, agimos como robôs em resposta ao que esses softwares nos induzem a fazer. Na prática, estamos vivendo comandados por interesses empresariais.

Os modelos de negócio desenvolvidos e praticados por essas grandes corporações não têm nada de transparente para o público. É difícil entender como eles ganham dinheiro. Na prática, o dinheiro vem da venda de dados que se transformam (dentro desse modelo) em muito dinheiro quando nós consumimos o que eles querem que compremos. Como é mostrado no filme, essas grandes empresas são os fornecedores. Mas os clientes são os anunciantes – quem usa essas plataformas para vender os seus produtos ou serviços. E qual o nosso papel nesse teatro? O de objetos que acreditam que controlam esses canais e usando-os “de graça” para nossos interesses. As pessoas inocentemente não se dão conta de que são produtos nessa relação comercial.

Esses grandes canais de comunicação também criam verdadeiros monstros, fazendo pessoas famosas do dia para a noite, sem que necessariamente sejam portadoras de conhecimento. Pessoas que muitas vezes transformam mentiras em verdades. Por vezes mudam a forma de ver de todo um grupo de pessoas, geram conflitos, alteram o curso de eleições, destroem a credibilidade de pessoas em um instante sem motivo real para isso.

É o momento de nos perguntarmos: isso tudo é ético? Nada que induza nossa vontade, tire nossa liberdade e iniba a nossa responsabilidade pode ser considerado ético. Mas é interessante notar que, quando se ouve as pessoas que lideram essas empresas e processos, elas nos parecem de caráter, com nível moral elevado, além de muito inteligentes e preparadas. Elas dizem estar agindo e sendo eticamente responsáveis.

Na carta encíclica Fratelli tutti, o Papa Francisco escreve:

“Neste mundo globalizado, os mass media podem ajudar a sentir-nos mais próximos uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna […] Podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus. Mas é necessário verificar, continuamente, que as formas atuais de comunicação nos orientem efetivamente para o encontro generoso, a busca sincera da verdade íntegra, o serviço, a aproximação dos últimos e o compromisso de construir o bem comum. Ao mesmo tempo, como indicaram os bispos da Austrália, ‘não podemos aceitar um mundo digital projetado para explorar as nossas fraquezas e tirar fora o pior das pessoas’” (FT, 205).

Em outro trecho Francisco nos ensina:

“…volto a destacar que vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses. Voltemos a promover o bem, para nós mesmos e para toda a humanidade, e assim caminharemos juntos para um crescimento genuíno e integral” (FT, 113).

Fabio Gallo Garcia é professor da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo (SP).

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