Dom Paulo Evaristo Arns: diálogo, compromisso, presença

A Igreja e a sociedade lembram os 100 anos de nascimento de Dom Paulo Evaristo Arns, OFM, Arcebispo de São Paulo entre 1970 e 1998. O Cardeal da Esperança em Esperança nasceu em 14 de setembro de 1921. “Para simplificar, o que é a alma no corpo são no mundo os cristãos” (Carta a Diogneto, VI, 1). Belíssima passagem é esta pérola da Patrística. Dom Paulo Evaristo Arns e outros estudiosos da Igreja Primitiva, nos anos posteriores ao Concílio Ecumênico Vaticano II, presentearam-nos com notáveis e profundas pesquisas da Igreja Primeva. Inegável a atuação de Dom Paulo Evaristo Arns diante do seu tempo. Ele atuou magistralmente em todas as áreas na Igreja e na sociedade. 

Sangue imigrante alemão, nascido em Forquilhinha, interior catarinense. Filho de Gabriel Arns e Helena Steiner. Franciscano que estudou por longos anos na França. Versado em latim e grego. Profundo conhecer da Igreja Primitiva. Em 1952, defendeu sua tese intitulada: “A técnica do livro segundo São Jerônimo”. O objeto de sua pesquisa esteve centrado na técnica do livro, para tanto examina o papel de uma ferramenta, o objeto livro, como mediadora da comunicação humana. No século IV, período em que viveu São Jerônimo, conhecido na Patrística como Padre Latino, a técnica usada para escrever era o rolo, de difícil manuseio e pouca presença entre seus pares. São Jerônimo se serve do códex, instrumento capaz de chegar em maior número aos seus de sua época.

Cardeal do diálogo, grande orador e patrólogo, ele sempre nos lembrava: “Gostaria de merecer a graça de alegrar-me convosco em tudo. Bem, por isso é que convém glorificar de toda a sorte a Jesus Cristo que vos tem glorificado, para que, reunidos em uma só submissão, sujeitos ao bispo e ao presbitério, vos santifiqueis em todas as coisas” (Santo Inácio de Antioquia aos Efésios, II, 2). Essa belíssima passagem da Igreja endereçada à Igreja em São Paulo é tradução de Dom Paulo Evaristo, que, como homem de cultura, legou suas pesquisas à posteridade; e, como pastor, viveu na Arquidiocese como abnegado bispo, amando seu presbitério e se disponibilizando a ele. 

Cardeal do compromisso. Recordo-me sempre da sua presença marcante. Ele sempre lembrava essa máxima: “Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; sigam ao presbitério como aos apóstolos. Acatem os diáconos, com a lei de Deus. Ninguém faça sem o bispo coisa alguma que diga respeito à Igreja” (Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Esmirnenses, VIII, 1). Dom Paulo Evaristo sempre foi muito presente junto aos seus padres. Conhecia-os pelo nome e a todos dedicava carinho especial. Meses depois da minha ordenação presbiteral, aceitou de pronto celebrar a Santa Missa por ocasião dos festejos dos 50 anos de ereção canônica da Paróquia São Paulo do Belém. Tempos difíceis para a comunidade. Ele, porém, nos confortou na esperança e nos animou para que reerguêssemos a comunidade na dinamicidade e crescimento na fé. 

Cardeal da presença. Dom Paulo Evaristo Arns marcou profundamente a Igreja em São Paulo, com as resoluções emanadas do Concílio Ecumênico Vaticano II. Procurou incentivar as proposições dos Documentos do Concílio nas comunidades, para que elas lessem, entendessem, vivessem e se sentissem como Igreja. Em 1998, Dom Paulo Evaristo tornou-se Emérito da Igreja em São Paulo. Depois da sua saída como Arcebispo e sua vida reclusa, sua presença ainda se fez sentir em nós. Mesmo com os quase cinco anos do seu falecimento, ele sempre será lembrado. 

Padre José Ulisses Leva é professor de História Eclesiástica da PUC-SP.

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