Lições da vitória talibã

Assistimos estarrecidos à fulminante vitória talibã no Afeganistão, depois de 20 anos de presença norte-americana na região, com um investimento militar avaliado em 2 trilhões de dólares. Esse valor é mais de quatro vezes maior que o Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o Afeganistão nestes anos todos!

Uma série de erros, surpreendente na máquina de guerra mais poderosa do mundo, que são as Forças Armadas dos Estados Unidos, levou ao desfecho vergonhoso para uns e trágico para milhões. Desde a Guerra do Vietnã, pelo menos, militares de todo o mundo sabem das dificuldades de tropas regulares enfrentarem guerrilheiros em locais com difícil acesso e populações hostis, como era o caso do Afeganistão.

Por outro lado, a ocupação militar e o apoio a líderes políticos locais sem respaldo popular também são estratégias de poder que não se mostram eficientes nos tempos atuais. Novamente se trata de uma constatação das várias guerras travadas no Oriente Médio nos últimos 30 anos, que têm deixado um longo rastro de terrorismo, genocídios e opressão.

A Igreja, em sua sabedoria histórica, tem questionado o uso da violência e da força para garantir a paz. As condições para a chamada “guerra justa” (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, CDSI, 497-515) podem ser sumarizadas numa frase: só é justa a guerra que é inevitável. Geralmente, o próprio fato de se ter que justificar uma guerra já atesta que ela é injusta, pois poderia ser evitada.

Já em seu discurso para o Dia Mundial da Paz de 2002, São João Paulo II alertava para o perigo de uma reação militar desproporcional ao terrorismo, que não criasse uma paz efetiva. Os Estados Unidos estavam ainda em choque com o atentado de 11 de setembro de 2001, mas a imprensa norte-americana identificou no discurso um claro alerta para o perigo do emprego excessivo da força no Afeganistão, que havia sido invadido para combater os terroristas da Al-Qaeda.

“Desenvolvimento é o novo nome da paz”, concluía São Paulo VI, na encíclica Populorum progressio. O Afeganistão, porém, apesar de todo o investimento militar norte-americano e do avanço recente no reconhecimento dos direitos humanos, permanece um dos países com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que reflete a situação de renda, saúde e educação da população.

Apesar de formalmente democrático, o governo afegão não contava com apoio popular. Nas últimas eleições, votaram apenas 1,8 milhão de habitantes, numa população de 39 milhões. A corrupção era reconhecidamente endêmica.

O exército afegão, apesar de muito bem armado, não recebia suprimentos adequadamente e estava desmotivado. Rendeu-se a tropas mal equipadas, muito inferiores numericamente, mas fortemente motivadas. Seus modernos equipamentos e armas desfilam agora sob o controle talibã. O investimento armamentista norte-americano na região enriqueceu a indústria bélica dos Estados Unidos, mas agora serve aos seus inimigos.

A vitória talibã mostra a todos nós que o bem comum não pode ser construído com a violência e alianças corruptas. O uso da força é sempre a última alternativa e, se absolutamente necessária, deve cessar assim que possível. Raiva e violência trazem mais raiva e violência, numa espiral que só pode ser estancada pelo perdão e o diálogo sincero. Muitos se aliam a corruptos para conseguir o poder ou se manter nele. Tais estratégias podem garantir ganhos pessoais, geralmente pouco lícitos, mas não o bem comum.

O compromisso cristão – e de todas as pessoas de boa vontade – é com a política melhor, nas palavras do Papa Francisco na carta encíclica Fratelli tutti, nunca com a violência e a eliminação física ou moral do outro.

Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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