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‘Laços de Esperança’ – Peça de Karol Wojtyla adaptada ao cinema

Laços de Esperança é uma adaptação ao cinema da peça de teatro A Loja do Ourives, escrita em 1960 por Karol Wojtyla, então bispo-auxiliar da Cracóvia – e futuro Papa João Paulo II.

‘Laços de Esperança’ - Peça de Karol Wojtyla adaptada ao cinema
Cena do filme ‘Laços de Esperança’ (crédito: Reprodução)

Pode-se dizer que o tema é o Matrimônio enquanto caminho de amor que conduz a Deus. A história inicia com dois amigos poloneses que se casam quando a II Guerra Mundial está para iniciar. Em seguida, salta cerca de 20 anos para mostrar a crise em que um dos casamentos mergulhou. A filha desse casal, Monica, agora já adulta, tem vontade de casar-se com o filho do outro casal, Christopher, mas teme que seu casamento a conduza a uma vida igual àquela de seus pais, e por isso rejeita as tentativas de Christopher.

O filme é acompanhado discretamente pela figura de um ourives, dono da loja na Cracóvia em que os noivos compravam suas alianças. É ele quem vende os anéis comprados pelos pais de Christopher.

Do ponto de vista da produção, trata-se de um filme simples. Os personagens e os ambientes não são muitos, e a duração é curta (uma hora e meia). Mas a história é interessante e há várias coisas a se tirar – vale notar que não sei o quão fiel é o filme à peça de teatro escrita por Karol Wojtyla.

Algo que logo salta aos olhos – e que nos parece bem retratada – é a diferença entre o jovem da época pré-guerra e o jovem de hoje. Enquanto este tende a ser cheio de dúvidas, indeciso, inseguro, sensível demais ao que os outros irão dizer e incapaz de assumir grandes responsabilidades, os dois amigos do início do filme se mostram muito mais bem resolvidos. Não que as pessoas daquela época fossem melhores que as de hoje, mas parece que, em geral, eram mais bem resolvidas.

Nesse sentido, é interessante o diálogo de uma das mães – que no filme se mostra um exemplo de fortaleza – com seu filho, Christopher. Ela está para pegar um avião e Christopher, que a acompanhou ao aeroporto, se queixa que seu pedido de casamento foi rejeitado e pergunta o que fazer. A mãe, em vez de encher o filho com falsos consolos, lhe responde com firmeza que essa não é a pergunta de um verdadeiro homem. Diz que seu marido, no lugar de Christopher, não se lamentaria e daria um jeito de conquistar a mulher com quem quer casar. Que falta faz uma posição dessas da parte não só de mães, mas de formadores em geral!

Mas isso não é o que há de principal no filme. A temática abordada é o Matrimônio enquanto realização do amor humano e caminho para Deus. O filme mostra a importância dos detalhes da vida, dos pequenos momentos, daquilo que há de mais concreto. Todas as coisas são ocasiões para o amor – o amor é o fim de tudo – e, quando ele falta, tudo perde valor. Esse é o motivo da crise de um dos casais: se habituaram a trocar favores, isto é, a cumprir, cada um, seus respectivos “papéis” no sustento do lar. O resultado é que, à medida que a paixão da juventude passa, se percebe que o amor não existe.

O filme ensina a importância de uma constante conversão na qual o homem se recorda que, o que quer que seja que ele faz, deve ser transformado em um ato de amor por sua esposa, e vice-versa. Assim, fica implícito outro ensinamento: não se casa porque se ama, mas se casa porque se quer amar. O amor é construído no tempo, é o projeto de uma vida. Embora receba ajuda das paixões e sentimentos, que, principalmente na juventude, ajudam a aproximar homem e mulher, não se identifica com eles, é algo bem maior. A esperança cristã que permeia o filme, porém, recorda que, enquanto se vive, nunca é tarde para recomeçar.

A figura de um sacerdote também é muito interessante. Vê-lo passear nas montanhas com os jovens, no início do filme, nos faz lembrar do Papa João Paulo II. Esse sacerdote acompanha toda a história. Embora se mostre atento e pronto a ajudar nos momentos mais dramáticos de cada personagem, é uma figura discreta, que nunca reclama o protagonismo. É sensato e está sempre sereno – uma serenidade que nada tem de passividade. Por isso, pode acolher os personagens nos momentos necessários. É ele, por exemplo, que encoraja uma das mulheres a lutar por seu casamento, ao invés de deixar tudo para trás.

A presença de Deus também se faz notar na pessoa do ourives. Nos parece que esse personagem seja uma figura de Deus: misterioso, aparentemente ausente/secundário, ele testemunha vários dos momentos mais importantes e vende as alianças – que simbolizam o sacramento do Matrimônio. Além disso, quando uma das mulheres decide vender sua aliança, ele responde dizendo que a aliança não vale nada sem a outra, e que sua balança calcula o valor não pelo peso do ouro, mas pelo peso da fé, que era o que faltava à mulher naquele momento. Assim, nos parece significar ao menos duas coisas: (1) Deus não aceita de volta os dons por Ele dados – como aquela aliança –, se eles não frutificaram em obras de amor; (2) tudo o que há de externo e material em um matrimônio – como as alianças – é meio/instrumento para alcançar coisas maiores, que são interiores. Por fim, embora o ourives não pareça ser o personagem mais importante, a peça de teatro – e também o filme, no título em inglês – tem por nome A Loja do Ourives. Indica-se, assim, que ele é o personagem principal. Do mesmo modo com Deus: embora discreto, e até mesmo ausente para quem não tem nenhuma fé, é ele o centro de tudo.

Terminamos, sublinhando um último ponto: Monica quer casar, isto é, quer correr o risco do amor. Mas ela tem medo, está prestes a desistir daquilo que a pode fazer feliz, por causa do mau exemplo de seus pais. Ora, não será essa a situação da maioria de nós? Queremos ardentemente acreditar no amor, mas nossas fraquezas nos fazem encalhar nos maus exemplos dados pelos outros. Por isso, o maior apostolado que existe é lutar com todas as forças pela própria santificação: com bravura, sem esperar consolos ou aprovações, lutar pela virtude, por fazer cada coisa bem feita, por trabalhar com honestidade, por agradar a Deus, por crescer na vida de oração e nos sacramentos etc. Quem faz isso dá aos outros o maior presente que se pode dar: a esperança. Por outro lado, o amor, o maior dos bens, não existe se não for dado por Deus, e isso também fica patente no filme. A um certo ponto, o sacerdote diz: “somos todos espaços vazios, até que haja algo para nos preencher. Deus. Amor”.

Há vários momentos profundos, que dão margem a uma boa reflexão. Vale a pena assistir. Bom proveito!

O filme com áudio e legendas em inglês se encontra no Youtube, de graça:

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