Lições da Amazônia

Nesta semana, o jornal O SÃO PAULO publica um artigo sobre a realidade da Igreja em Roraima, a partir de uma entrevista com seu bispo, Dom Mário Antônio da Silva. É uma boa oportunidade para conhecermos mais sobre a presença católica naquela parte do Brasil.

Faz pouco mais de um ano que o Papa Francisco lançou a exortação apostólica pós-sinodal “Querida Amazônia” (QA). Veio a pandemia e o texto ficou em segundo plano. É uma pena, pois se trata de um dos documentos mais belos e inspiradores do atual Pontífice.

Temos a ideia – em parte verdadeira – de que a Amazônia é um outro mundo. Com suas florestas, grandes rios, plantas e animais exóticos, populações indígenas, parece-nos algo muito diferente de nosso universo urbano. Em nosso mundo globalizado, contudo, a Amazônia enfrenta desafios muito próximos aos nossos, e os caminhos apresentados por Francisco iluminam também nossa situação.

Nós vivemos num mundo multicultural, em que há diversas “tribos”, com visões de mundo até mais antagônicas do que as das diferentes etnias indígenas daquela região. Nós também dependemos do equilíbrio ambiental para sobreviver – e enfrentaremos o caos se não soubermos conviver sabiamente com a natureza (lição reforçada pela pandemia). E ainda para nós vale a constatação de que “a visão consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade” (QA, 33).

O primeiro impacto que a exortação provoca vem do fato de ela estar organizada em função de quatro “sonhos” do Papa: o social, o cultural, o ecológico e o eclesial.  Para nós, imersos em nosso pragmatismo cotidiano, sonhos são ilusões ou utopias, fadadas a não se realizarem jamais. Para Francisco, são ideais e esperanças que orientam a vida, dando-lhe a justa perspectiva.

O esplendor, os dramas e o mistério da região (cf. QA, 1) inspiram a reflexão do Papa, que se apresenta – de modo particular – como um grande convite para amar a realidade em todos os seus aspectos. Alguns têm a tendência de reduzir o magistério de Francisco a um ativismo socioambiental. O primeiro antídoto para qualquer reducionismo se torna claro no texto, é justamente esse fascínio, cheio de maravilhamento e ternura, da pessoa diante da obra de Deus.

Esse maravilhamento e esse amor, porém, se perderiam num esteticismo inconsequente se não se convertessem em compromisso para a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna, que procura viver em harmonia com o meio ambiente, de uma cultura que respeita a diversidade de posições, buscando sempre a realização plena de cada ser humano. E tudo isso vale não só para a Igreja na Amazônia, mas sim para toda a Igreja, em qualquer lugar onde um cristão estiver presente.

Francisco situa claramente esse compromisso, numa perspectiva cristã, ao escrever: “A autêntica opção pelos mais pobres e abandonados, ao mesmo tempo que nos impele a libertá-los da miséria material e defender os seus direitos, implica propor-lhes a amizade com o Senhor que os promove e dignifica (…) Seria triste se recebessem de nós um código de doutrinas ou um imperativo moral, mas não o grande anúncio salvífico, aquele grito missionário que visa ao coração e dá sentido a todo o resto. Nem podemos contentar-nos com uma mensagem social […]. Se dermos a vida por eles, pela justiça e a dignidade que merecem, não podemos ocultar-lhes que o fazemos porque reconhecemos Cristo neles e porque descobrimos a imensa dignidade a eles concedida por Deus Pai que os ama infinitamente” (QA, 63).

Por tudo isso, conhecer e amar a realidade amazônica, seus povos e seus sonhos, inspirar-se nos “sonhos” de Francisco, representa uma grande oportunidade para vivermos mais perto de Cristo.

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