O Afeganistão e a nossa democracia

Ao refletir sobre o vendaval que se abateu sobre a população do Afeganistão, com a tomada do poder pelo Talibã e a provável destruição de suas instituições democráticas, o jornalista Fernando De Haro, no encontro internacional Meeting Per l’Amicizia Per i Popoli, declarou que o problema central é anterior à instalação do novo governo e possui raízes bem mais profundas, diagnóstico que pode ser aplicado ao nosso País e a muitos outros que se encontram em crise. Observou que as democracias europeias levaram séculos para se consolidar, num longo processo de amadurecimento, alternando períodos de florescimento e de retrocesso.

Lembrou que “não há democracia se não há sujeito”, ou seja, a democracia não se instaura onde não existe um povo, isto é, uma comunidade de pessoas que estabelecem laços entre si, compartilham valores, guiadas pelo ideal do bem comum. No discurso inaugural da Conferência de Aparecida, em 2007, Bento XVI reafirmou que temos a responsabilidade de promover a justiça social por meio da edificação de estruturas justas, mas ressaltou que estas estruturas não se constituem ou se mantêm por si mesmas, nem são a garantia de que os homens serão melhores e as sociedades mais justas, como asseguravam as grandes ideologias. As estruturas, assim como os ordenamentos jurídicos de um país, só se mantêm se forem a expressão de um consenso moral do povo, da vivência de valores fundamentais, suficientemente fortes para suplantar os interesses pessoais. Quando isso não acontece, cedo ou tarde as estruturas se tornarão obstáculos a serem eliminados ou formas vazias de sentido destinadas a desaparecer.

Konrad Adenauer, um dos grandes responsáveis pela reconstrução da Alemanha e da Europa após a 2a Guerra Mundial, ensina que “a democracia é mais do que uma forma de governo participativo. É uma visão de mundo, enraizada na concepção da dignidade, do valor e dos direitos inalienáveis de cada pessoa” (1965). Esta visão nos fornece uma chave de compreensão para a crise que as democracias atravessam atualmente e suas possibilidades de superação.

A democracia é um ideal abstrato, mas se realiza num tempo e em determinadas condições históricas, em meio a uma complexa teia de relações sociais, políticas, econômicas. Precisa ser continuamente atualizada, porque a sociedade se modifica. Surgem novos grupos, novas demandas e muitas vezes são necessárias profundas mudanças para “desencastelar” grupos que se mantêm no poder.

Sabemos que as transformações sociais são lentas. A formação de um povo é o resultado de um lento processo de educação da pessoa para a vida em comunidade. É preciso tempo, mas isso não deve nos desanimar. A urgência de mudanças leva-nos a agir, a nos empenharmos em “gerar processos” por meio de mudanças políticas e ações cotidianas, dando forma a uma nova cultura impregnada pelo encontro com Cristo, que se expressa na família, no trabalho, em obras educativas, sociais e em novos modelos de relações econômicas.

O caminho exige uma mudança pessoal, atenção às necessidades do outro, superação do preconceito e disposição em buscar alternativas por meio do diálogo, sem excluir ninguém, trabalhando com todos aqueles que demonstram um compromisso real com a população. Não temos soluções prontas, mas carregamos uma grande riqueza em vasos de barro. Se quisermos levar a luz do Evangelho para a vida pública, cultural, econômica e política, só há uma coisa a fazer: acolher e responder a Cristo que vem ao nosso encontro, transforma a nossa vida e torna-nos sinal de esperança para o mundo.

Marli Pirozelli N. Silva, graduada em História e mestra em Filosofia da Educação, é professora universitária de Doutrina Social da Igreja.

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