O lar está subvalorizado

POR SHANNON ROBERTS*

Em nosso clamor pela igualdade das mulheres, esquecemos de valorizar a maternidade e o lar

O lar está subvalorizado
(Crédito: Mercatornet)

Muita da magia e alegria da vida acontece em casa. Cobertores confortáveis. Flores novas. Criatividade. Brincadeiras. Abraços de um bebê recém-nascido. Jogos. O cheiro da preparação do jantar. Café fresco. Muitos dos programas de televisão que amamos exibem a cozinha feita em casa, a organização da bagunça, jardinagem e remodelação da casa. Nós gostamos do lar, da sua criação e arrumação.

Mas para obter aquelas coisas que fazem um lar atraente é preciso presença, é preciso limpeza, é preciso tempo, é preciso um cozinheiro, é preciso gente com quem se abraçar sob as cobertas confortáveis de manhã; ainda que sejam crianças pequenas que acordem você cedo demais. No fim das contas são os pequenos, aparentemente insignificantes, momentos como esses que muitos de nós reconhecem como as melhores coisas da vida.

Ainda assim, em nosso clamor pela igualdade das mulheres, nos esquecemos de assegurar que também valorizássemos a maternidade e o lar como empreendimentos tão profissionais, reais, úteis e atraentes quanto qualquer outro no mercado de trabalho. Nós celebramos mulheres CEOs, liderança feminina, e mulheres que dão prioridade a uma carreira; nós queremos assegurar que as mulheres tenham a possibilidade de realizar o trabalho que desejam e que as empresas possam receber suas contribuições. Muito bom.

Mas é tão importante quanto celebrar o lar e a verdadeira escolha, quando na verdade é no lar que muitas encontram um lugar satisfatório, produtivo e necessário para estar. Para muitas existe uma posição intermediária a ser encontrada, algo entre a frenética CEO sempre em busca de novas mercadorias e ações e a cuidadora do lar em tempo integral.

Porém, se o valor do lar e da educação dos filhos é praticamente ignorado, muitas não encontrarão sentido ou autoestima no estar em casa ou na maternidade. A carreira será o objetivo dominante das jovens, e como resultado a maternidade está de fato sendo cada vez mais adiada. Por isso, muitas mulheres terminam por não ter tantos filhos quantos elas depois descobrem que gostariam de ter tido, ou então terminam por não ter filho algum por conta de problemas de fertilidade causados pela idade. Elas se dão conta da alegria de um lar e de filhos tarde demais; cada vez mais, é algo que nunca fora mencionado como uma opção válida para elas.

A ênfase posta na carreira sobre o lar e os filhos é uma das causas das catastróficas taxas de fertilidade pelo mundo. A taxa global é cerca de 2,4 nascimentos por mulher, mas em muitos países já caiu para bem abaixo da taxa de reposição de 2,1. Um relatório recente do Deutsche Bank feito por Sanjeev Sanyal sugere que o pico populacional na Terra será de 8,7 bilhões em 2055, e declinará para 8 bilhões por volta de 2100, uma queda bem mais rápida do que aquela sugerida pelas recentes estimativas das Nações Unidas.

Ademais, ao mesmo tempo em que parecemos celebrar o triunfo do trabalho sobre o lar, nos preocupamos com uma série de problemas sociais que poderiam ser solucionados por uma maior comunidade. Se consideramos o longo-prazo, existem vários modos pelos quais as donas de casa contribuem imensamente à sociedade.

Os resultados de uma recente revisão de múltiplos estudos indicaram que a falta de uma conexão social traz um risco de morte precoce semelhante àquele de indicadores físicos como obesidade. Um estudo feito pelo Centre for Economics and Business Research (Cebr) concluiu que comunidades desconectadas poderiam estar custando à economia do Reino Unido 32 bilhões de libras por ano. O estudo também concluiu que a existência de boas relações com a vizinhança oferece substanciais benefícios econômicos, representando uma economia total de 23,8 bilhões de libras por ano para o Reino Unido.

Além disso, as pesquisas embasam fortemente a presença de um único cuidador em casa nos primeiros 2-3 anos de vida de uma criança. Os últimos dez anos trouxeram impressionantes mudanças na compreensão do desenvolvimento cerebral, e Nathan Wallis se tornou um respeitado conferencista sobre paternidade na Nova Zelândia, atraindo enormes multidões. Sua pesquisa mostra:

“A principal causa de doença mental é o isolamento… portanto, é especialmente importante para as crianças formar vínculos saudáveis nos primeiros três anos de vida. Os seres humanos são interdependentes por natureza, e ser socialmente conectado dá ao cérebro os peptídeos e hormônios positivos de que ele precisa para estar bem.”

Mas para ter uma comunidade é preciso pessoas que tenham tempo. As donas de casa costumavam ter tempo.

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Publicado originalmente em http://mercatornet.com/home-is-underrated/63758

Tradução: João Fouto

* Shannon Roberts é co-editora do blog do MercatorNet sobre questões populacionais. É advogada e tem na escrita uma paixão ao longo da vida e contribuiu para uma série de publicações. Shannon equilibra sua escrita com sua outra paixão – sua família. Ela tem três filhos e vive em Auckland, Nova Zelândia.

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