O Matrimônio como caminho de santificação

Sergio Ricciuto Conte

Será possível que o cristão leigo casado, ocupado com as tarefas do dia a dia, com as preocupações do trabalho, da paternidade e maternidade, imerso nos apelos da sociedade contemporânea, pode almejar ser santo?

Santo não é quem consegue se desapegar do mundo e se dedicar totalmente às coisas de Deus? Aquele que conseguiu tal grau de abnegação e unidade com Deus que um dia será colocado no altar para veneração? Alguns podem até mesmo pensar que não dá para viver o amor humano e, ao mesmo tempo, ser totalmente de Deus.

Todos nós temos uma vocação. Os casados vivem a vocação para o amor humano, para a relação conjugal em sua totalidade, de corpo e alma. As Escrituras nos falam do amor humano desde o Gênesis, pois Deus não achou bom que o homem ficasse só, então fez homem e mulher para que se unissem e formassem uma só carne (cf. Gn 2,18-24). A união conjugal faz parte da natureza humana e esse é o desejo de Deus para sua criatura.

O autor se revela por meio de sua criação. Toda a criação nos fala de Deus, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, 279ss. Então, o casal, o que fala a respeito de Deus?

O saudoso Padre Henri Caffarel, fundador das Equipes de Nossa Senhora (movimento de casais católicos que se entreajudam na busca da santidade pelo Matrimônio), responderia: “O amor dos esposos, com seus encantamentos, suas agonias, suas ressurreições, é a imagem transparente, a ‘parábola’ do amor entre Deus e seu povo, entre Deus e cada um de seus filhos e filhas” (“Nas encruzilhadas do amor”, Editora Santuário, 2013).

Deus se encantou por nós e nos encantou por Ele, viveu sua agonia e sua Paixão por amor, para nossa salvação. E venceu o pecado e a morte por sua Ressurreição. 

Os casados são chamados a viver o amor em profundidade. O casamento não se resume ao encantamento inicial. Com o tempo, vêm os desafios de gerar e educar os filhos, do sustento do lar, da harmonia na convivência, da fidelidade, de encontrar o sentido de estar juntos. Tudo isso em meio a alegrias e dores. Entretanto, o perdão, a renovação da união, a derrubada dos muros e o estabelecimento de pontes entre o casal é a expressão da ressurreição de Cristo, que venceu a morte e o pecado.

Deus não deixa o casal à deriva para viver esse caminho, pois o amor humano e o amor de Deus estão ligados entre si: Deus oferece a fonte inesgotável de seu amor para sustentar o casal. É Nele que se encontram as graças e a força para seguir em frente, sem desistir.

É necessário enfrentar as próprias fraquezas, buscar a vontade de Deus para o casal e a família, rezar juntos, dialogar sobre o presente e o futuro, esforçar-se para mudar algo que desagrada o outro, perdoar, viver o dia a dia como oferta de amor a Deus.

Como dizia o Padre Henri Caffarel, a espiritualidade conjugal é a arte de viver no Matrimônio o ideal evangélico que Cristo propõe a todos os seus discípulos. Viver a espiritualidade conjugal é viver o Matrimônio como caminho de santificação. Deus age no casamento quando o casal dialoga e reza junto para que Sua vontade seja feita, para que Ele ajude a vencer os ressentimentos e superar os desafios e dores.

Os casados são chamados ao caminho de santificação não apesar de serem casados, mas no e pelo seu Matrimônio. Não há necessidade, para o casado, de buscar outro caminho de santidade. O próprio casamento perpetrado e transfigurado pelo amor de Cristo oferece a possibilidade de viver o mandamento do amor. Que o casal cristão possa se dar uma ocasião de reflexão nestes tempos de pandemia e se perguntar: nosso amor tem refletido o Amor de Deus? O que nos falta?

Daniela Jorge Milani é advogada, mestra e doutora em Filosofia do Direito pela PUC-SP.

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