O trabalho na ótica cristã

Há séculos que os católicos do mundo inteiro veneram com grande devoção a São José – mas a festa de São José Operário, no entanto, só veio a ser instituída em 1955, pelo Papa São Pio XII. Se quisermos, então, entender o sentido desta nova invocação ao pai adotivo de Jesus, precisamos ter em conta quanto o tema do trabalho esteve no centro das principais transformações sociais e correntes de pensamento dos últimos três séculos. Do “Trabalhadores, uni-vos!” ao endeusamento liberalista dos workaholics (indivíduos viciados em trabalho), cosmovisões inteiras foram estruturadas ao redor de diferentes concepções do trabalho humano.

Esse protagonismo surgiu com a Revolução Industrial inglesa do século XVIII: as novas tecnologias e fontes de energia e a disseminação da divisão do trabalho elevaram a eficiência laboral (e, consequentemente, a riqueza dos países que se industrializavam) a níveis astronômicos. O laissez-faire (deixe fazer) e a falta de qualquer regulação estatal da atividade econômica, no entanto, não tardaram a produzir grandes injustiças e misérias sociais: jornadas de trabalho extenuantes, inclusive para mulheres e crianças, ausência de quaisquer direitos trabalhistas, salários incompatíveis com o sustento das famílias etc.

Os vários “socialismos” (entre os quais o marxista) foram então surgindo como reação indignada a esses abusos de um liberalismo selvagem – e neste aspecto é preciso lhes reconhecer alguma razão. O problema, no entanto, está na visão filosófica que o marxismo propõe sobre o ser humano: este seria composto unicamente de matéria, desprovido de um fim transcendente (já que, afinal, não existiria Deus). Para o marxista, ademais, a autonomia do indivíduo era absorvida na massa coletiva de sua classe social – daí que não sobraria espaço ao reconhecimento de propriedade pessoal, de diferenças naturais e da possibilidade de escolhas livres e pessoais.

Com a histórica encíclica Rerum novarum (Das coisas novas), do Papa Leão XIII, o Magistério encetou uma resposta ao “temível conflito” que se vinha instaurando em função dos “progressos incessantes da indústria, (…) [da] alteração das relações entre os operários e os patrões, [e da] influência da riqueza nas mãos de um pequeno número ao lado da indigência da multidão”. Era o começo do que se veio a denominar Doutrina Social da Igreja (DSI).

Na base da DSI está uma oposição radical entre a valoração dada ao trabalho humano pela mentalidade greco- -romana e pela tradição judaico-cristã. No mundo pagão, o trabalho físico era concebido como próprio de escravos, que não gozavam do ócio indispensável à contemplação das realidades espirituais. Na tradição judaica, diferentemente, todos os grandes rabinos exerciam também um ofício artesanal: o próprio São Paulo, “já como rabino e depois como anunciador do Evangelho aos gentios, também era tecelão de tendas e se sustentava com o trabalho das próprias mãos” (Bento XVI, Discurso no Collège des Bernardins, 12/09/2008). Este elemento foi absorvido, no Cristianismo, pela ênfase no papel do trabalho para a vida espiritual: “Ora et labora”, dizia São Bento.

É que, ao contrário da visão pagã de uma divindade afastada deste mundo, e que não “suja suas mãos” com o trato da matéria, o Deus Cristão é “Criador do Céu e da terra”, e “trabalha continuamente” (cf. Jo 5,17) na e sobre a história dos homens. O trabalho do homem, nessa ótica, manifesta sua semelhança com o Criador – e assim os homens que, “ao ganhar o sustento para si e suas famílias, (…) prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador” (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 34).

Para nós, cristãos, portanto, o trabalho humano é fundamentalmente ocasião de nos santificarmos: de buscarmos a Jesus nas pequenas coisas do dia a dia, oferecendo-Lhe todas as obras feitas com amor e zelo. Sirva-nos de exemplo o operário São José, o carpinteiro que, seguramente, fazia os melhores artefatos de toda a Galileia.

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