Os jovens e desencanto com a política

Pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo e Ibope revela que quase 70% dos jovens entre 16 e 24 anos da cidade de São Paulo não têm nenhum interesse em participar da vida política. Apenas 19% disseram ter “alguma vontade” de participar e 15% expressaram ter “muita vontade” de atuar na política local.

A atuação concentra-se no ambiente digital (abaixo-assinados, compartilhamento de notícias), poucos participam do movimento estudantil (15%) e a atuação em movimentos sociais, audiências públicas e conselhos é quase inexistente (2% a 7%).

A causa disso, de acordo com analistas, é a crise econômica e a descrença na política. Embora haja muitos jovens empenhados em promover a geração de empregos e desenvolvimento educacional e cultural para todos, estas estatísticas são preocupantes. 

Parece haver uma grande distância entre a luta diária pela sobrevivência (falta de perspectivas de estudo e trabalho) e a política institucional, incapaz de modificar esta situação.

Os ganhos obtidos com ações de transparência e combate à corrupção se diluem no cotidiano de promessas vazias, mentiras e vantagens pessoais. Políticos comprometidos com o bem comum desaparecem no quadro geral, e resta a percepção de que nada muda. 

Não é estranho que prevaleça entre os jovens o sentimento de descrença e indiferença em relação ao universo político, composto por instituições, cargos e representantes, cujas funções são, em geral, pouco conhecidas e apoiadas em instrumentos e modelos considerados arcaicos. 

A falta de educação política e o desconhecimento dos mecanismos institucionais impedem que muitos jovens contribuam com novas ideias, atuando diretamente na formulação de propostas, na gestão do bairro e da cidade.

O desinteresse pela política, porém, parece ser sintoma de uma crise maia profunda, que afeta diretamente os jovens: a falta de esperança no futuro. Bento XVI, ao falar da emergência educativa (2008), apontava a existência de um clima cultural responsável por colocar em dúvida o valor da pessoa, da existência da verdade e do bem.

E aqui se encontra o grande desafio: como despertar o desejo de justiça, de significado, de relações humanas autênticas que os jovens possuem?

Discursos e ideias abstratas já não são capazes de mobilizar as novas gerações.

Os jovens precisam encontrar pessoas vivazes, engajadas na construção do mundo por meio do trabalho diário, da atuação em grupos, movimentos, que não abram mão de serem sujeitos de suas vidas, mesmo na adversidade.

No encontro com pessoas e lugares que afirmam a positividade da vida, o jovem descobre seus anseios mais profundos de amor, justiça, verdade, e pode compreender a própria vida como amor e serviço aos outros, como vocação: resposta pessoal a Deus que o amou primeiro.

Como tem insistido o Papa Francisco, o testemunho é o método para que o Cristianismo chegue até as periferias do mundo e da existência. 

Por isso, devemos manter os olhos fixos no Papa Francisco, que nos testemunha em cada gesto e palavra que Cristo está presente entre nós. Com essa certeza, podemos convidar os jovens a se lançarem na realidade e acompanhá-los neste caminho.

Marli Pirozelli N. Silva possui graduação em História e mestrado em Filosofia da Educação, ambos pela USP. É professora universitária de Doutrina Social da Igreja, trabalha com metodologias de ensino desta disciplina e em projetos sociais de atendimento a jovens

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