Palavra de Deus e Doutrina Social da Igreja

Da mesma forma que a liturgia e a Catequese, os sacramentos e a pastoral, a Doutrina Social da Igreja (DSI) também mergulha suas raízes nas páginas da Bíblia. Basta uma consulta rápida a dois pontos fundamentais, respectivamente do Antigo e do Novo Testamento. Comecemos com o episódio da sarça ardente, que dará origem ao credo do Povo de Israel (cf. Ex 3,7-10; Dt 26,5-10). O texto utiliza cinco verbos de extrema relevância para a “questão social”: eu vi a miséria do meu povo; ouvi o seu clamor contra os opressores, conheço o seu sofrimento. Até aqui, os três verbos – ver, ouvir e conhecer – denotam a atenção e a sensibilidade do Deus Ihaweh para com a condição dos escravos em terra estrangeira.

Mas a narração prossegue: por isso desci para libertá-lo e “envio você ao Faraó para tirar do Egito os filhos de Israel”. Não basta, portanto, constatar a opressão. Outros dois verbos – descer e enviar – complementam a forma de Deus agir na história dos homens e mulheres. Ao contrário dos deuses dos impérios, confortavelmente estabelecidos em seus tronos, templos e palácios, Ihaweh desce. Desce e passa a caminhar com seu povo pelas estradas do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora. A descida de Deus, aliás, será levada à plenitude com o mistério da Encarnação.

A ação de Deus, porém, ganha forma humanamente visível e concreta por meio de seus profetas e mensageiros. Estes se tornam a boca, os braços, as mãos e os pés do Senhor! É o que evidencia o quinto verbo – enviar. Tocados simultaneamente pelo clamor do povo e pelo projeto do Criador, os profetas se sentem chamados e enviados, colocando a própria vida a serviço da fé e da esperança, como também da organização e libertação dos oprimidos. Ihaweh se revela o Deus do caminho e da travessia por meio de Abraão, Moisés, Elias e as demais figuras bíblicas.

Não será diferente com o “profeta itinerante de Nazaré”, como afirmam os estudiosos. Diz o evangelista que “Jesus percorria todas as cidades e povoados (…). Vendo as multidões, Ele teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,35-39). Chama a atenção o verbo percorrer. Em vez de aguardar no templo os seguidores, como faziam os saduceus e escribas, Jesus os encontra pelos caminhos da Galileia, da Samaria e da Judeia, até chegar a Jerusalém, onde tropeçará com a violência e a morte na cruz.

Tanto no episódio da sarça ardente, quanto nesse “resumo das atividades de Jesus”, o rosto de Deus resplandece de ternura, carinho, misericórdia e cuidado com a situação socioeconômica e político-cultural em que se batem os povos. Dessa compaixão diante da tirania do Faraó e das “multidões cansadas e abatidas”, nascem os princípios e diretrizes que orientam os documentos da DSI, a começar pela Rerum novarum, de maio de 1891, até a Fratelli tutti, de outubro de 2020. A solicitude e opção preferencial da Igreja para com os pobres e excluídos, como podemos ver, bebem dos nutrientes mais profundos do terreno bíblico.

Padre Alfredo José Gonçalves, CS, pertence à Congregação dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos).

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