Pandemia e exclusão social

Fui ingênuo. Para mim, como para quase todos, é a primeira vez que passamos por uma pandemia. Faz um ano que tudo começou, e imaginei um final com um mundo melhor, no qual nada seria como antes e a solidariedade passaria a ter um papel de destaque, de denominador comum, havendo mais equilíbrio social e econômico. 

Não está sendo bem assim. De um lado, vemos que a solidariedade é vivida de forma esplêndida, em especial na área da Saúde, seja ela pública, seja privada, com seus profissionais incansáveis na luta contra o vírus. No caso particular do Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi redescoberto por muitos como sendo de uma surpreendente e essencial importância. De outro lado, no entanto, fomos assaltados por atos de corrupção na aplicação dos recursos destinados ao combate à doença.

Mas a questão que me faz debruçar sobre o tema da pandemia e da exclusão social é que, durante este período, os ricos ficaram mais ricos e os pobres ficaram mais pobres. Uma realidade que foi ao desencontro do meu sonho inicial. A lógica do sistema econômico não admitiu a solidariedade como parte estrutural do sistema, deixando-a restrita ao agir individual e poucas vezes –  ou quase nunca –, atingindo o cerne da questão.

O Papa Francisco constatou isso já em meados do ano passado: “A pandemia acentuou a difícil situação dos pobres e o grande desequilíbrio que reina no mundo. E o vírus, sem excluir ninguém, encontrou grandes desigualdades e discriminações no seu caminho devastador. E aumentou-as!”. 

A exclusão social existe desde sempre (embora o termo tenha sido cunhado apenas no século passado), tendo como causa o acúmulo de bens nas mãos de poucos, deixando a maior parte da população à míngua, muitas vezes morrendo de fome. Com a pandemia, sofreram ainda mais os idosos e, no Brasil, também os pobres, os negros e os indígenas.

Além da vacina, que é a solução central para combater o avanço da doença, desde o início foi indicado que os protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto à higiene das mãos, ao uso de máscaras faciais e ao isolamento social também são fundamentais para essa tarefa. O indispensável isolamento social – fato agora já solidamente comprovado – só é possível com ampla participação do Estado para garantir níveis desejáveis de isolamento e, ao mesmo tempo, manter seus cidadãos com um mínimo de dignidade e com alimentação. Em alguns países, porém, o Estado não se faz presente com esse amparo, o que está ampliando a devastação da população.

Inegável que, individualmente ou em grupo, vimos no Brasil e em todo o mundo a atitude solidária de pessoas que vivem por um ideal maior do que exclusivamente ter dinheiro e poder, e que caminham com a certeza de que olhar para o próximo e cuidar dele é uma atitude que nos torna completos, íntegros e realizados. 

Essa atitude de cuidar do outro, de modo individual e estrutural, reverte sempre em benefício de todos. Se a economia, atualmente desequilibrada, que é grande causa da exclusão social, fosse direcionada a uma equânime distribuição de renda, traria melhorias para a própria economia, para a sociedade como um todo e favoreceria a inclusão social.

Fui ingênuo, mas mantenho a esperança em um mundo melhor e mais unido. Podemos aprender, agora, que isso depende em grande parte da nossa capacidade de se indignar diante do egoísmo desenfreado e de oferecer nossa ativa contribuição na comunidade, na sociedade. 

Luiz Antonio Araujo Pierre é membro do Movimento dos Focolares, é professor e advogado. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pós-graduado em Gestão de Pessoas e especialista em Direito do Trabalho.

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Comentários

  1. Muito bom seu artigo Pierre !
    É o retrato perfeito deste tempo de pandemia.
    A exclusão social é realmente maior sentida pelos pobres e por aqueles que ficaram pobres.
    É preciso por a mão na massa e fazer o que nos é possivel… e para Deus nada é impossível.
    Grande abraço

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