Quem tem medo do Lobo Mau?

Como todos sabemos, o mal é parte integrante da vida. Muito do que nos acontece e permeia nossa vida são acontecimentos que não consideramos bons: doenças, problemas, discussões, desentendimentos, intrigas, morte, acidentes… enfim, aquelas ocorrências que evitaríamos se fôssemos capazes.

No entanto, não é possível evitar a maior parte dessas ocorrências e, exatamente por isso, é necessário formar nossos filhos para poderem enfrentar com coragem, fortaleza e certa naturalidade tudo o que faz parte da vida.

Chama a atenção o modo como está sendo “higienizado” do repertório infantil o mal, desde aquele representado por personagens maus, até os eventos maus, que trazem sofrimento. Há uma tendência a relativizar o mal e transformar, inclusive, o personagem mau em vítima: é mau porque foi mal amado, teve uma família que não o acolheu; veja, por exemplo, a nova versão da vilã Malévola.

Também quando as histórias trazem a morte, a doença e a dor, a tendência moderna é transformar esse sofrimento, ou omitindo da criança esse dado, ou criando uma “fisionomia” bonita para ele: em vez de morreu e foi para o céu, “virou uma estrelinha”, por exemplo.

Devagar, e sem percebermos, vamos sendo induzidos a entrar num movimento de negação da vida real e da criação de uma “realidade paralela”, na qual o que é bom são as festas, viagens, passeios, sonhos “mirabolantes”, os mais diferentes brinquedos, e, assim, a vida cotidiana, com suas alegrias, desafios e sofrimentos, vai se tornando aparentemente tão sem graça, tão sem sentido. Acabamos vivendo o cotidiano somente como ponte para algo melhor – trabalho para poder viajar ou comprar algo que quero, vou à escola para aprender e poder ser alguém. Entre- tanto, não é o aqui e agora que temos para ser felizes? Não são as circunstâncias atuais que precisamos viver com intensidade e fortaleza e delas tirar alegria e sentido?

Nós, cristãos, sabemos muito bem que o sofrimento é o caminho para a salvação. Temos no próprio Cristo o exemplo vivo de alguém que assumiu o sofrimento e o transformou no maior bem que poderíamos almejar: a possibilidade do céu, alegria plena. Por que entramos tão facilmente nessa falácia de “proteger” os pequenos dos sofrimentos em vez de prepará-los para os enfrentar e tirar deles um bem?

Essa mentalidade que toma conta de nossa vida nos impele a formar filhos fracos, filhos extremamente sensíveis, que não vão sendo educados afetivamente e inseridos no mundo real para poder viver a vida de peito aberto, com serenidade e coragem. O mal existe, é palpável e facilmente identificável em cada um de nós. Não precisamos sequer olhar para fora para o encontrarmos. Quando nos dedicamos ao verdadeiro autoconhecimento, encontramos tendências más presentes em nós, contra as quais precisamos lutar. Para além disso, existe o mal no mundo, e, esconder essa realidade dos nossos filhos com a desculpa de que são muito pequenos para isso, poderá torná-los incapazes de lidar com essa realidade quando ela se fizer presente. Muitas vezes, isso acontece quando menos esperamos.

É muito importante pensarmos que, com sabedoria e prudência, precisamos introduzir na vida de nossos pequenos a realidade do mal e do sofrimento, abrindo-lhes um panorama otimista sobre ela, para que a conheçam, a identifiquem e aprendam a lidar com ela.

Que encontrem nos pais pessoas que enfrentam os males com otimismo, afinal esse exemplo os arrastará, que percebam que de tudo podemos extrair um bem, um ensinamento, uma possibilidade de crescimento, que experimentem que a vida vale a pena em qualquer situação, afinal, a recebemos das mãos de Deus como um dom.

Realmente, para os que não têm fé, o sofrimento perde completamente o sentido, a morte se torna uma tragédia e o mal algo a ser escondido. Entretanto, nós, famílias cristãs, não podemos viver com valores pagãos, não podemos poupar nossos filhos daquilo que sabemos que pode trazer crescimento, que pode impulsionar seu crescimento nas virtudes. Fiquem atentos, papais e mamães, não se deixem enganar: os filhos serão beneficiados se formos tratando essas questões com naturalidade e coragem, com sabedoria e otimismo. Nosso mundo precisa de pessoas virtuosas, que enfrentem a vida tirando dela todo o bem e crescimento que ela possibilita.

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