‘Tens um longo caminho a percorrer’

Sabemos que a vida de um verdadeiro profeta não é nada fácil. Grandiosa e desafiadora foi a vida do profeta Elias. Ele vê que os grandes de Israel estavam levando uma vida de luxo e bem-estar à custa da exploração dos pobres, alimentada por corrupção política, religiosa e moral, causando graves injustiças sociais. Não bastando isso, a rainha Jezabel, muito perversa, passou a exigir que seus súditos abandonassem o culto a Javé, o Deus libertador, para adorar a Baal. Nesse cenário, Elias entra em ação e se opõe radicalmente a esse projeto perverso. Desencadeia, então, uma forte perseguição a ponto de ele ter que se retirar para não ser morto. Primeiro se esconde, mas depois decide peregrinar até o monte Horeb. O caminho é longo e perigoso. Cansado, debaixo de um junípero, adormece e deseja a morte. 

O cansaço físico enfraquece o corpo e pode deixar a pessoa doente. O cansaço espiritual adoece por dentro e pode apagar a vontade de viver. Elias estava assim: tinha diante de si essas duas fraquezas, mas Deus enviou um anjo que o fez levantar para comer e beber. Ele não resistiu e voltou a dormir. Parece que queria que o problema fosse resolvido durante o sono. No entanto, é motivado a se levantar, se alimentar e caminhar. Deus providenciou o alimento, mas não foi no seu lugar. Deus sustenta a luta dos profetas, está com eles, mas nunca alimenta a preguiça, não os quer dormindo, pois “tens um longo caminho a percorrer”. 

Também Jesus sofreu forte objeção e perseguição, Ele que afirmou ser o “pão que desceu do céu”. Ao ouvirem isso, os judeus começaram a murmurar tal qual lá no deserto contra Moisés quando faltou pão e água. Como pode ser pão do céu alguém que tem suas origens terrenas tão conhecidas? Querem justificar as murmurações contra Jesus por ser Ele o filho de José e Maria, alguém que, por ser muito humano e terreno, não podia ser aceito como o Filho de Deus, “o pão vivo que desceu do céu”. No entanto, Jesus não se deixa afetar por esse fermento nocivo e vai além, afirmando que “quem come deste pão viverá eternamente”.

Sabemos que aquele que murmura e reclama é pessoa de difícil convivência, muito duro com os outros, predominando um semblante fechado, parecendo uma pessoa infeliz. O Papa Francisco fala de pessoas que usam os meios de comunicação social para perturbar as comunidades. Apresentam-se não para anunciar o Evangelho de Deus, que ama o homem em Jesus Crucificado e Ressuscitado, mas para reiterar com insistência que são “guardiães da verdade”. São pessoas presas a tradições do passado, importantes no passado, não mais nos dias de hoje. “Como podemos reconhecer essa gente? Por exemplo, uma das características do modo de proceder é a rigidez. A rigidez é própria dessas pessoas” (Papa Francisco).

Perseguição e murmuração não podem entrar numa comunidade cristã. Paulo escreve aos efésios, dizendo que é preciso se afastar de “qualquer aspereza, desdém, raiva, gritaria, insulto e todo tipo de maldade”. Isso tudo é um tipo de alimento podre que adoece o corpo e a alma. Os que centram a vida nesse jeito amargo de ser perdem a oportunidade de experimentar o verdadeiro alimento; por isso “abandonem a mentira: cada um diga a verdade a seu próximo. Quem roubava não roube mais; ao contrário, ocupe-se trabalhando com as próprias mãos em algo útil, e tenha assim o que repartir com os pobres. Que nenhuma palavra inconveniente saia da boca de vocês, digam boa palavra que seja capaz de edificar e fazer o bem aos que ouvem. Sejam bons e compassivos uns com os outros, perdoando-os mutuamente, assim como Deus perdoou a vocês, em Cristo” (Ef 4,25-32). 

Uma comunidade composta de homens e mulheres novos, alimentados pelo Pão vivo que desceu do céu, se torna terreno fecundo que faz brotar sementeiras de vocação, especialmente profetas e profetisas, que dos diversos lugares onde atuam enxergam luzes em meios às trevas e motivam a comunidade à resistência e resiliência, apontando caminhos alternativos. Não podemos parar, pois temos um longo caminho a percorrer.

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