Um grito que incomoda

Nestas últimas semanas, foi noticiado que pessoas pobres e famintas estavam procurando ossos no lixo para se alimentar. Logo que perceberam, alguns mercados deixaram de descartar os ossos e passaram a vendê-los. No ano passado, aconteceu um fato bem chocante: uma pessoa rica se aproximou de um mendigo e lhe ofereceu dinheiro, mas em seguida lhe deu um tapa no rosto e disse: “Vai trabalhar, vagabundo”. Interessante como algumas pessoas reagem diante daqueles que estão à beira do caminho: umas lucrando com aquilo que antes era lixo, outras humilhando e agredindo. Mas como deveriam reagir os seguidores de Jesus?

Lucas diz que Jesus estava saindo da cidade de Jericó na companhia dos discípulos e de grande multidão. Na beira do caminho, estava um cego que mendigava para sobreviver, parecido com os que buscam ossos nos lixos ou aqueles que estão com placas nos semáforos gritando silenciosamente: “Estou com fome, pode me ajudar?”. Lembremos que Jericó é a porta de entrada para a Terra Prometida, um oásis no deserto, lugar onde foi dito: “Se houver no meio de ti um pobre entre teus irmãos, em uma de tuas cidades, na terra que te dá o Senhor, teu Deus, não endurecerás o teu coração nem fecharás as mãos diante de teus irmãos pobres” (Dt 15,7). Nessa cidade e em nossas cidades, há muita gente à beira do caminho.

Alguém do meio da multidão explica que o motivo de haver tanta gente na caminhada é a presença de Jesus que passa. Sem se deixar atemorizar, o cego grita várias vezes em direção a Jesus, reconhecendo-o como Filho de Davi. Muitos o repreendiam, pedindo que se calasse, mas Jesus pede que tragam aquele que não para de gritar. Repentinamente, tudo vai mudando: se antes queriam fazê-lo calar, agora passam a encorajá-lo: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama”. No diálogo com Jesus, uma pergunta: “O que queres que eu te faça?”. “Mestre, que eu veja.” E a cura acontece. 

Muito interessante verificar como as pessoas atuam nesse relato. Houve aqueles que se sentiram muito próximos de Jesus e se viram no direito de dizer quem podia e quem não podia se aproximar do Senhor e, por isso, já tomam a decisão de repreender o cego que gritava. Hoje tem gente que se acha muito amigo de Jesus, mas se faz de surdo ao clamor dos marginalizados pelo caminho, em especial se estes não estão em conformidade com normas eclesiásticas. 

Houve aqueles que encorajaram o cego a sair da beira do caminho e se aproximar de Jesus: “Coragem, Ele te chama”. Hoje são muitos os que compreendem que gritar o nome de Jesus não é suficiente, que é preciso atenção para os que se abeiram do caminho. Estes precisam ser ouvidos, assistidos em suas necessidades e incluídos. Não podemos avançar se deixamos gente à margem do nosso caminhar.

Encorajar as pessoas faz toda a diferença. O que era cego e mendigo jogou o manto, pulou e foi até Jesus. Não queria aquela vida de humilhação e sofrimento. Incomodava o fato de estar sendo estorvo para os caminhantes, “pessoas de bem” que se mostravam perturbadas com seus gritos. Estava inconformado e sabia que Jesus podia fazer o milagre de vencer a cegueira. Não se intimidou diante dos que o queriam calar e, ao se encontrar com Jesus, viu seu sonho se realizar. A fé, como uma força adormecida ao ser despertada, transformou sua vida. 

Não podemos perder tempo. Precisamos encorajar aqueles que estão à cercania do caminho. Não podemos ficar só no grito nem grudados no manto que dá uma falsa segurança, mas pular, avançar com Jesus sendo protagonistas de um tempo novo que se abre à nossa frente. O que era cego se tornou discípulo de Jesus, “ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho”. O convite é seguir Jesus pelo caminho, mesmo que haja contratempos, pois “não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20). E dando um passo a mais, um passo à frente, podemos fazer uma oferta generosa para que ninguém fique à beira do caminho, que todos possam ter a oportunidade de fazer o seu encontro com Jesus. No domingo, 24, é o dia da coleta para as missões. Colabore! 

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