Um projeto para São Paulo

Comemoramos, no dia 25 de janeiro passado, o 467º aniversário da fundação de São Paulo. Em virtude da pandemia de COVID-19, a cidade não teve festa nem as costumeiras comemorações, com espetáculos, presença de multidões e todo tipo de iniciativas culturais. São bem compreensíveis as restrições impostas pelas autoridades que nos governam, a fim de evitar o contágio pelo coronavírus.

Mesmo assim, isso não nos impediu de rezar pelo povo de São Paulo, pelas autoridades que têm uma enorme responsabilidade para prover o bem de tão grande população, por tantos doentes, pobres e aflitos, que, em boa parte, se tornaram invisíveis, até mesmo por causa das restrições aos deslocamentos, visitas e encontros. Além de rezar, também refletimos e “projetamos” uma cidade melhor, ao menos no pensamento… Ainda bem que pensar e rezar não traz riscos de contágio pela COVID-19.

Meu pensamento se voltou para o Pateo do Collegio, onde se conserva a memória do berço de nossa metrópole. Foi lá que tudo começou, numa missão dos Jesuítas, que celebraram, em 25 de janeiro de 1554, a missa de inauguração da pequena escola para os indígenas, no centro do núcleo inicial da missão “São Paulo Apóstolo”. Era o método de evangelização dos Jesuítas, fundado pouco tempo antes por Santo Inácio de Loyola e seus companheiros. No centro, havia a capelinha, a escola, a casa dos missionários e outros espaços públicos. Ao redor, iam sendo agrupados os lugares de trabalho e as habitações.

Falamos sempre de São José de Anchieta como “fundador” de São Paulo. Talvez também citamos o Padre Manuel da Nóbrega. É preciso, no entanto, sermos justos: Anchieta estava no grupo, porém ainda nem era padre, e quem celebrou a primeira missa foi o Padre Manuel de Paiva. Ao todo, os missionários eram 13, e todos eles podem ser considerados “fundadores de São Paulo”. Foram eles: Padre Manuel da Nóbrega, Padre Manuel de Paiva, Padre Leonardo Nunes, Padre Vicente Rodrigues, Irmão José de Anchieta, Irmão Mateus Nogueira, Irmão Diogo Jacome, Irmão Manuel de Chaves, Irmão Pero Correia, Irmão João de Sousa, Irmão Leonardo do Vale, Irmão Gregório Serrão e Irmão Antônio Rodrigues. A eles se somaram também os chefes indígenas, entre os quais Tibiriçá, que acolheram os missionários e os ajudaram a constituir o núcleo inicial da povoação. Anchieta e Nóbrega foram os que, depois, se destacaram como maiores lideranças na missão.

Nossa reflexão “em tempos de pandemia”, na festa da cidade de São Paulo, não tem a mera pretensão de reconstituir crônicas da história, mas refletir sobre os propósitos e projetos dos fundadores de São Paulo. Eram sacerdotes e religiosos, impulsionados pelo desejo de levar o conhecimento de Jesus Cristo e dos bens da vida cristã aos povos indígenas. Seu ideal missionário era, nas palavras de São Paulo, animado pelo desejo de “ganhar para Cristo” o maior número possível de irmãos (cf. 1Cor 9,19), anunciando-lhes o Evangelho e os caminhos da vida sobrenatural e da virtude. Sem esquecer, porém, as necessidades e situações humanas das pessoas que evangelizavam: saúde, alimentação, moradia, educação, cultivo da terra, pacificação, promoção do respeito e da dignidade no convívio. A preocupação com a saúde das pessoas era uma das prioridades, e os missionários não poupavam esforços no cuidado dos doentes, proporcionando-lhes não apenas os “remédios da alma”, mas, também, a medicina para o corpo.

Podemos afirmar, sem medo de errar, que o plano inicial da cidade de São Paulo foi inspirado nos valores do Evangelho do Reino de Deus, que é justiça, paz, alegria e vida para todos. Nesse projeto, havia lugar para todos e ninguém devia ser esquecido ou excluído. Todos deviam respeitar uns aos outros e viver fraternalmente. De modo simbólico e significativo, a capela e a escola ficavam no meio da aldeia, como centros de referência para todos. Na igreja, aprendia-se a lei de Deus e a sabedoria do Evangelho. Na escola, aprendia-se a sabedoria humana para a convivência e o relacionamento comum.

Sem dúvida, esse ideal não era perfeito nem isento de falhas. No entanto, ele oferecia valores e referências seguras para a vida comum. Voltando-nos para nossa metrópole atual, podemos nos perguntar: será que esses ideais de vida comum ainda contam? Não fazem falta? Seria oportuno refletir novamente sobre as bases da vida comum, para assegurar a todos um ambiente de acolhida, respeito e dignidade. São Paulo nasceu para ser uma cidade boa para todos.

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