Vem e verás

No domingo, 16, ao mesmo tempo em que recordava a Ascensão do Senhor, a Igreja celebrou também o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Não se trata de uma associação fortuita, pois nosso Senhor, quando subiu aos Céus, “mandou aos apóstolos que pregassem a todos (…) o Evangelho” (cf. Mc 16,15-19; constituição dogmática Dei Verbum, 7). O pregão público, o querigma (do grego kerygma, “anúncio”, “proclamação”), é para a Igreja algo que faz parte de sua essência desde a sua fundação, como especifica o jornalista Carlos Alberto Di Franco, em entrevista nesta edição do O SÃO PAULO (cf. 1 Jo 1,2-3) – e é por isso natural que haja muitas zonas de intersecção e diálogo para com o universo do jornalismo.

É nesse sentido que o Papa Francisco indica, na mensagem que dedicou às Comunicações Sociais neste ano de 2021, vários sintomas de uma “crise editorial” que se vem alastrando nos meios de comunicação: a multiplicação de “jornais fotocópia”, que se limitam a replicar informações “construídas nas redações, diante do computador, nos terminais das agências”, sem que os jornalistas cheguem a “gastar a sola dos sapatos” tomando contato direto com a realidade. Trata-se de diagnóstico compartilhado também por alguns representantes da própria comunidade jornalística: o citado Di Franco lamenta o fato de que “o jornalismo foi perdendo a capacidade de olhar o mundo real: estamos pensando a respeito dos fatos, mas sem olhá-los”.

Como aponta Aldo Quiroga, em outra entrevista especial para O SÃO PAULO, as causas desta crise editorial envolvem, de um lado, a “precarização da atividade profissional, com menos trabalhadores, mas metas altas”, em razão da redução da entrada de recursos financeiros com publicidade e assinantes, e de outro, o poder “dos controladores dos meios de comunicação, aqueles que fazem valer a decisão editorial”.

A verdade é que, no fundo, a perda de prestígio e influência dos veículos de mídia tradicionais é um fenômeno amplamente perceptível na sociedade. Como se poderá salvar, então, este outrora chamado “Quarto poder” – o qual, quando exercido com retidão e honradez, é indispensável à fiscalização e responsabilidade dos governantes e das instituições democráticas perante o povo?

O problema comporta, inicialmente, uma solução técnico-humana, e depois também uma inspiração mais particularmente cristã. No nível puramente humano, os veículos de comunicação precisam se adaptar às novas condições de tecnologia e mercado: se a internet tornou praticamente infindável a quantidade de novas informações divulgadas, os veículos tradicionais precisam se distinguir pela qualidade com que transmitem suas notícias. Nas palavras de Di Franco, é preciso “escolher alguns aspectos e temáticas no universo jornalístico e cobrir esses temas extraordinariamente bem”.

A outra estratégia é bem particularmente cristã: o “método ‘vem e verás’”, como o chamou o Santo Padre. A extraordinária expansão do Cristianismo no mundo antigo não foi resultado de um esforço sistemático de propaganda institucional: antes, foi fruto da verificação da fé de forma visível na vida dos cristãos – uma experiência que convidava outra, e assim por diante. Foi assim, aliás, que teve início o colégio apostólico, e, como afirma o Papa, este “convite a ‘ir e ver’, que acompanha os primeiros e comovedores encontros de Jesus com os discípulos, é também o método de toda a comunicação humana autêntica”. Repitamos, então, aos jornalistas de nosso tempo o conselho que dava outrora o Beato Manuel Lozano Garrido, primeiro jornalista a ser beatificado,  a seus colegas de profissão: “Abre, maravilhado, os olhos ao que vires e deixa as tuas mãos cumularem-se do vigor da seiva, de tal modo que os outros possam, ao ler-te, tocar com as mãos o milagre palpitante da vida”.

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