Vocação: experiência com Cristo

Quando falamos em vocação, pensamos logo em vocação sacerdotal, religiosa etc. Pensa-se na vocação à santidade ou na vocação que recebemos no Batismo. Tudo isso é correto, mas existe ainda uma vocação básica mais geral que abarca e fundamenta todas as outras vocações: ser o que somos, ou seja, ser João, ser Maria, José etc. Nossa vocação básica e principal é sermos humanos. Deus estabelece relacionamento pessoal com o homem e, dessa forma, o apelo à vivência da humanidade é a primeira categoria indispensável de toda e qualquer vocação, pois tudo o que faz um ser humano se tornar menos humano é não ser expressão da vontade de Deus. 

A vocação é, sem dúvida, uma realidade envolta em um mistério, não simplesmente porque não saibamos dizer o que ela é, ou porque ela é uma realidade direcionada a Deus, mas porque quem faz a experiência da vocação é um homem concreto, com todas as suas realidades contingenciais e, por si, humanas. Assim, não apenas a vocação é um mistério, mas o próprio homem também o é. Afinal, ele não é um dado finito, que se esgota em si mesmo, mas vai se descobrindo em cada momento da vida, bem como vai descobrindo o mundo. Este dado revela a complexidade e, ao mesmo tempo, a harmonia do ser humano. 

A vocação, seja ela ao ministério ordenado, à vida consagrada, à família e ao ministério de catequista, se dá necessariamente por meio da experiência, do encontro fundante no mistério do Deus de Jesus Cristo. Desse encontro, o homem deve sair disposto a anunciá-lo, pois experimenta a dimensão do “vocacionado” Jesus Cristo, que nos faz seus vocacionados. É este o fundamento, o ápice de toda vocação, bem como de sua realização humana como pessoa. 

A vocação é um assumir a partir de uma disponibilidade total. É dizer: “Eu quero seguir o chamado de Deus e servi-Lo. Se vou fazer isto ou aquilo, se vou estar naquele cargo ou naquele lugar, nada me impedirá de segui-lo mais de perto”. O único ato que o homem pode corresponder ao Deus que se revela é aquele da disponibilidade ilimitada. Por isso, as exigências de Jesus quando acolhe os discípulos são duras: abandonar tudo e estar disposto a cortar radicalmente os laços naturais (cf. Mt 19,29), até não haver nada sobre o que se possa repousar a cabeça (cf. Lc 9,58). Colocar tudo à disposição daquele que chama! 

A vocação comporta, ainda, uma oferta de amizade, uma amizade que é capaz de romper barreiras, que sabe se doar, uma amizade que sabe acolher. Portanto, o critério para ser capaz de tudo deixar e seguir a voz do Cristo é o amor, pois só assim poderá se sentir a bela amizade que Jesus tem a oferecer. A vocação é um pedido: “Queres ser meu amigo?” (Jo 21,15-17). A vocação consiste em viver a vida sendo amigo de Cristo. 

Como nos recorda o Papa Francisco: “Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada” (Evangelii gaudium, n.3). No mistério da vocação, o Senhor chama e confere sempre uma missão: “Segui-lo” (cf. Mc 1,17). Vocação se caracteriza por estar unido a Ele, ser Seu discípulo, servo por amor. É lançar-se na força do Espírito, alimentado pela Sua palavra e pela Eucaristia no anúncio do Evangelho. 

2 comentários em “Vocação: experiência com Cristo”

  1. Que possamos ser fiéis à vocação à qual fomos chamados, na certeza que o Espírito Santo nos ilumina e conduz, para que continuemos trilhando o caminho ensinado por Cristo, que nos leva ao Pai.

    Responder

Deixe um comentário para Maria Aparecida Barão Acuna Cancelar resposta