‘Comecemos o ano na esperança e na confiança em Deus’

‘Comecemos o ano na esperança e na confiança em Deus’, Jornal O São Paulo
Cardeal Odilo Pedro Scherer (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Em entrevista exclusiva ao jornal O SÃO PAULO, por ocasião do fim do ano de 2021 e início de 2022, o Cardeal Odilo Pedro Scherer avaliou os principais fatos da vida social e eclesial dos últimos 12 meses, ainda marcados pela pandemia de COVID-19, e comentou temas como a perseguição religiosa e a crise cultural vivida pela sociedade, além de se manifestar sobre situações como os escândalos que envolvem membros da Igreja. O Arcebispo Metropolitano de São Paulo também falou sobre o caminho sinodal proposto pelo Papa Francisco, que consiste em um chamado para a Igreja se voltar cada vez mais à sua essência e natureza. Confira.

O SÃO PAULO – Qual é o balanço que o senhor faz do ano pastoral de 2021 na Arquidiocese?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – O ano pastoral de 2021 na Arquidiocese de São Paulo foi bastante marcado pela situação da pandemia e, por isso, de um lado, tivemos que conviver com muitas limitações ao longo de boa parte do ano, como restrições para as celebrações com público numeroso, reuniões, iniciativas que ocasionassem aglomeração de pessoas... Descobrimos, porém, um novo modo de fazer as coisas e usamos muito a internet e as mídias sociais; no fim, conseguimos promover muitas iniciativas para servir às comunidades, manter o povo unido e alimentado pela liturgia, pela oração e, sobretudo, pelo serviço da caridade.

O ano também foi marcado pela Assembleia Eclesial da América Latina, que foi uma experiência sinodal interessante. A Assembleia aconteceu em novembro, mas já a primeira parte do ano passado foi marcada por suas temáticas e sua preparação.

Veio depois o chamado do Papa para o sínodo universal e, novamente, estivemos ligados às questões postas na preparação desse sínodo. A sinodalidade foi vivida de maneira bastante forte durante todo esse ano.

Nossa preocupação durante o ano foi alimentar o povo na fé, na caridade e na esperança, confortando-o com a Palavra de Deus, a oração e a assistência religiosa. E que houvesse uma grande animação da caridade, para ir ao encontro dos necessitados, doentes, pobres e aflitos. Muita coisa pôde ser feita nesse sentido.

Quais foram os principais desafios da Igreja na pandemia?

Penso que a maioria das representações da Igreja Católica, como as dioceses e a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], se tornaram uma referência na prevenção da COVID-19, para que fosse combatida seriamente e valorizada a vida e a saúde das pessoas. Claro que houve exceções, como sempre há. Não houve unanimidade e alguns grupos católicos, eventualmente, achavam que a pandemia fosse uma ficção ou invenção de determinadas pessoas ou grupos. Houve protestos também de grupos católicos contra as restrições impostas pela situação de pandemia e pessoas que não aceitavam as restrições à frequentação das igrejas... Por outro lado, havia as pessoas que queriam ficar em casa e até mesmo que se fechassem as igrejas e cessassem as atividades religiosas. Eram posições extremas que, naturalmente, não eram ideais nem aceitáveis. Apesar disso, conseguimos trabalhar, e a maioria do povo nos acompanhou, aceitando as restrições como medida prudencial para cuidar da saúde pessoal e também da saúde dos outros. O cuidado da própria saúde também possui uma dimensão social.

Ao longo dos meses, muitas pessoas já estavam ansiosas por voltar à igreja para participar novamente da missa e de reuniões e atividades presenciais. Quando a situação da pandemia melhorou, houve manifestações bonitas de pessoas que voltaram a frequentar as igrejas com todo gosto e alegria. Isso significa que realmente há uma valorização da dimensão religiosa na vida das pessoas. A pandemia ajudounos a experimentar nossos limites e a tomarmos consciência de nossa fragilidade e da necessidade de nos voltarmos para Deus com sincera humildade.

Como a Igreja colaborou no combate à disseminação do coronavírus?

Desde que se evidenciou que a pandemia era algo muito sério, procuramos abraçar imediatamente as medidas preventivas, para colaborar com as autoridades públicas na preservação da saúde e da vida da população. A atitude do Papa Francisco em relação às questões da pandemia foi muito importante e serviu de referência, não só para o Brasil, mas para todo o mundo, e ajudou a Igreja Católica a levar a sério o trabalho de conscientização e prevenção sobre a doença.

Acredito que fizemos a nossa parte. Naturalmente, a parte mais importante toca as autoridades públicas, que têm os recursos para cuidar da saúde da população. A Igreja, nesse caso, tem o poder de convencimento e persuasão em relação aos cuidados da saúde, à prevenção e à vacinação. Muitas vezes apelamos para que as pessoas se vacinassem, aqui e em todo o Brasil.

Entre os desafios da Igreja, está a perseguição religiosa. Como o senhor avalia esse fenômeno na atualidade?

É verdade que, em nossos dias, temos perseguição na Igreja, algumas vezes de forma mais aberta, outras, de forma mais velada. Tivemos uma grande onda de martírios nas recentes guerras no Oriente Médio, África e mesmo no Extremo Oriente. Mas também aqui, na América Latina, houve muitos mártires nos últimos tempos.

A perseguição e o martírio acompanham a vida da Igreja desde os seus primórdios, como Jesus mesmo havia alertado: se vocês querem me seguir, preparem-se para a perseguição, para a cruz. Portanto, não assusta que haja perseguições aos cristãos, e isso poderia até ser sinal de que estamos no caminho de Jesus. Uma Igreja que não estivesse com Cristo, talvez nem ser perseguida, teria perdido o vigor do testemunho do Evangelho.

Contudo, afirmamos que a Igreja tem o direito à sua liberdade, e os cristãos e católicos presentes e atuantes na vida pública, onde quer que estejam, devem, no desempenho de suas atribuições cidadãs, lutar para que a liberdade religiosa e de consciência, que é um direito humano fundamental, seja respeitada e preservada. Não se pode aprovar, nem ser conivente com perseguição religiosa aberta, velada ou sutil. Por vezes, a perseguição religiosa é apresentada como “revolução cultural”, sendo as manifestações religiosas classificadas como desinteressantes ou prejudiciais a certo projeto cultural que se quer impor à população.

Não pretendemos que haja um tempo sem perseguições religiosas para, só então, começarmos a ser cristãos. Sejamos bons cristãos e, se vierem perseguições, continuemos a ser bons cristãos. Mas é importante que o direito à liberdade religiosa, normalmente previsto nas constituições, seja respeitado. E, nos países onde não existe liberdade religiosa e o Cristianismo e outras religiões ainda são reprimidos ou cerceados, é preciso que isso seja devidamente considerado pelas autoridades mundiais.

Parece-me que, hoje, a questão religiosa não conta muito, quando se reúnem as autoridades mundiais. As questões de economia e finança contam sempre mais, mas as questões culturais, que envolvem tanto sofrimento, e nas quais também estão incluídas as religiosas, recebem a atenção das autoridades mundiais em seus grandes encontros mundiais, como nas assembleias da ONU e outros organismos internacionais. Muitas vezes, varrem-se para debaixo do tapete os problemas de perseguição religiosa para manter certa aparência de boas relações com um país e para não prejudicar as relações comerciais.

Como os cristãos podem atuar no enfrentamento da atual crise cultural vivida pela humanidade?

Sentimos muita falta de quem faz a opinião pública séria nesse caos cultural de hoje. Pode parecer que não vale a pena dizer uma palavra, mas precisamos fazer a opinião pública nesse mesmo espaço, e não esperar que tudo se acalme para, então, dizermos a nossa palavra. É necessário fazer o contraponto e mostrar o outro lado, um caminho diferente e melhor. Os homens de cultura têm uma grande tarefa a cumprir neste momento de crise cultural.

Nas crises culturais, pode acontecer que as pessoas se precipitem atrás de qualquer um que se apresente oferecendo esperança. Nesse contexto, podem surgir facilmente os enganadores, falsos profetas e salvadores da pátria, que se propõem como uma liderança, levando as pessoas ainda mais para o caos. Por isso mesmo, quem tem palavras sábias e serenas a oferecer, que as ofereça. Essas palavras serão valorizadas no momento certo.

Mas é importante que cada um comece em sua casa. Esse foi sempre o princípio básico: educar bem os filhos, viver bem no espaço da vida privada, da família e das relações de parentesco, de vizinhança e trabalho. Se todos fizerem isso, o mundo mudará radicalmente. Em momentos de crise, não pode cada um se fechar dentro do seu “cercadinho” para se defender. Isso fragiliza em vez de fortalecer. Deixa de criar solidariedade e uma proposta diferente e, assim, o caos leva à anarquia.

Além dos desafios externos, vemos crescer um movimento de conflitos entre católicos, sobretudo nas mídias sociais. Como o senhor vê esse fenômeno?

É sintoma de um momento muito ruim, e o que se temia vai acontecendo: o clima de polarização ideológica presente na sociedade entra no âmbito interno da Igreja. Era quase impensável que isso não acontecesse, mas é muito ruim. Todos os que prezam a sua fé precisam tomar consciência do risco de divisão interna na Igreja e deixar de lado todo fermento de divisão e de ódio, coisas que são totalmente contrárias à essência da Igreja, que é comunhão. A unidade e a comunhão da Igreja não podem ser postas em jogo por opções políticas e partidárias. Não podem católicos se contrapor aos católicos e dizer: “Nós somos a verdadeira Igreja e vocês são a Igreja falsa. Nós temos o verdadeiro Papa e vocês têm o Papa falso”. Isso não é concebível na Igreja! É absolutamente incompatível com a Igreja Católica. Podem existir pensamentos e opiniões diferentes, mas nunca deve faltar o diálogo e o respeito, sem que haja vencedores e vencidos, ou o aniquilamento de uma parte. O diálogo deve ser orientado pela busca sincera da verdade.

É triste que haja grupos dentro da nossa Igreja Católica que se apresentam como “os verdadeiros”, fechando-se sobre si mesmos, contrapondo-se à comunhão de fé da grande comunidade da Igreja. Em todo caso, isso não é novo, e ao longo de toda a história houve essa tendência sectária que, porém, nunca prosperou nem foi aceita como legítima expressão de vida eclesial católica. Todo sectarismo é contrário à essência da Igreja Católica.

Como a Igreja tem lidado com as situações de escândalos e denúncias que envolvem seus membros?

Lembremos que Jesus já preveniu: “É inevitável que aconteçam escândalos”. Ao mesmo tempo advertiu: “Ai daqueles que cometem escândalos”. Onde existe a pessoa humana, também existem fragilidades e podem acontecer escândalos. A Igreja é feita de pessoas humanas frágeis e falíveis, e não de anjos. Isso é bom? Não, pecar não é bom. Nenhum tipo de pecado é bom. Às vezes, apontamos o dedo contra um tipo de pecado e esquecemos que há muitos outros. Jesus chama isso de farisaísmo. Lembro sempre a passagem daquela mulher pecadora, no Evangelho. Jesus se abaixou e começou a escrever no chão com o dedo e não respondia à pergunta dos acusadores: “O que devemos fazer? Podemos apedrejar, ou não?”. Por fim, Jesus levanta o olhar e responde: “Aquele de vocês que não tiver pecado, pois, atire a primeira pedra”. Eles foram embora e Jesus ficou sozinho com a mulher, perdoando-a e recomendando: “Vai em paz e, de agora em diante, não peques mais”. Os pecados e as fragilidades da condição humana devem ser evitados e superados por um sério esforço de conversão e busca da santidade.

Onde, além do pecado, existem delitos que ferem a justiça, esses devem ser reparados conforme a justiça eclesiástica e civil. Hoje, os escândalos aparecem com maior facilidade devido à facilidade de comunicação e divulgação dos fatos e das narrativas em cima de fatos. Mas também a própria Igreja quer prevenir e evitar as ações delituosas e escândalos. Há um esforço grande de superação e de transparência que nem sempre é fácil. Não pode haver conivência e acobertamento de delitos quando se tem conhecimento deles.

É importante que as notícias de delitos, não só de clérigos, mas também de outros membros da Igreja, cheguem ao conhecimento de quem deve tomar providências. Mas também é preciso compreender que a justiça não pode ser sumária e que deve haver a busca da verdade das acusações e o direito de defesa de quem é acusado. Dos clérigos e pessoas consagradas na vida religiosa se espera um comportamento digno e edificante e, de forma alguma, a prática de delitos e escândalos que possam prejudicar alguém e deixar marcas negativas indeléveis para o restante da vida em alguma pessoa.

A Igreja atravessa, atualmente, um período de muito sofrimento, mas é um processo de purificação, que requer um grande esforço de todos. Isso, certamente, vai ter como fruto uma nova valorização da dignidade humana e da dignidade de cada cristão. Os clérigos e religiosos devem estar conscientes de que sua vida e suas ações estão diante de todos e, por isso, devem ser exemplares e jamais escandalosas ou destrutivas da vida das pessoas.

Quais os cuidados em relação à formação dos futuros padres para evitar que tais situações aconteçam?

Os candidatos ao sacerdócio não caem do céu. Eles vêm das famílias e das comunidades. O pressuposto normal para uma vocação autêntica é uma vida humana e moral sadia desde a família. Muitas vezes, as pessoas já têm na infância, na adolescência e na juventude todo tipo de experiências que marcam negativamente suas vidas. Por isso, o discernimento na pastoral vocacional e a formação no seminário levam muito em conta esses fatos e experiências que a pessoa já teve, para ver se se trata de verdadeira vocação sacerdotal e se há as condições para a vivência do sacerdócio. Durante o período do seminário, o discernimento precisa ser bem-feito, junto com o candidato, para saber se sua vocação é o sacerdócio ou não. No seminário, dá-se muita importância às diversas dimensões da formação dos candidatos ao sacerdócio: formação humana e afetiva, do caráter e das virtudes humanas, formação religiosa e espiritual, intelectual e pastoral.

De toda forma, permanece sempre o mistério da pessoa. Mesmo quem, eventualmente, chega ao sacerdócio sem nenhum tipo de preocupação também pode cair, pois ninguém se torna incorruptível com a ordenação sacerdotal. Depois da ordenação, alguém pode acabar se corrompendo moral e humanamente, mesmo se seguir atentamente as normas morais, da prudência e do bom senso e das atitudes corretas nos relacionamentos humanos. A formação e o crescimento na vida virtuosa devem ser vistos como um processo contínuo e nunca concluído. Enquanto estamos vivos, estamos todos sujeitos a pecar. Por isso, não é no seminário que começa e termina a formação do padre. Ela começa na infância e na vida em família, com uma boa base humana, religiosa e cristã.

Quanto ao Sínodo universal, qual é o principal objetivo dessa iniciativa do Papa?

O Papa está chamando toda a Igreja a participar do Sínodo, que terá o seu momento alto em outubro de 2023 com a Assembleia do Sínodo dos Bispos, em Roma. Temos dois anos de caminho sinodal, com diversos momentos, desde o nível mais básico nas paróquias, dioceses e organizações eclesiais. Depois serão as conferências episcopais, os organismos nacionais e continentais da Igreja e, finalmente, a Assembleia do Sínodo dos Bispos.

O Papa não fala tanto de sinodalidade, mas Igreja sinodal, como vem explicitado no tema do sínodo: “Por uma Igreja Sinodal – Comunhão, Participação e Missão”. Essas três características fundamentais da Igreja não são novas, mas permanentes, que já encontramos no Novo Testamento e na Patrística. A elas, a Igreja volta sempre que se faz necessário retomar a consciência de si própria. Assim aconteceu em cada grande Concílio, e não foi diferente no Concílio Vaticano II e depois dele. Como exemplo, a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em Puebla, em 1979, já teve esse tema: “Igreja, Comunhão e Participação”. A questão “missão” não ficou esquecida, mas estava incluída na “participação”. O Papa chama a Igreja a um processo de conversão, o que também já está presente no Concílio Vaticano II e nos documentos pós-conciliares. O Documento da Conferência de Aparecida e a exortação apostólica pós-sinodal Evangelii gaudium voltaram de maneira incisiva a esse tema. A Igreja precisa converter-se mais e mais àquilo que ela deve ser pela sua natureza e pela vontade de Jesus Cristo, seu fundador.

Uma Igreja-comunhão não é uma Igreja dividida, de partidos e antagonismos que dividem, mas de unidade e fraternidade, segundo o fundamento da comunhão e da sua unidade em Cristo e na Trindade Santa. A Igreja-participação é formada de todos os membros batizados, e não apenas de clérigos. Todos os batizados têm parte na vida e missão da Igreja, cada um a seu modo, com seu dom próprio. Nem todos são padres ou missionários que partem para a África. Nem todos pregam no púlpito das Igrejas. Mas todos os batizados têm a sua parte na missão na Igreja. E, como o Papa diz, o Espírito Santo conduz e anima a Igreja, e precisamos todos estar atentos ao Espírito, para vivermos essas dimensões também em nosso tempo. O que o Papa propõe está no âmago do ensinamento sobre a Igreja. Ele está chamando a Igreja a se tornar na vida e na ação aquilo que ela é por natureza: “Igreja, torna-te o que tu és”.

Que mensagem o senhor deixa para os fiéis da Arquidiocese no início deste novo ano?

Desejo para todo o nosso povo um feliz ano novo e que a bênção de Deus acompanhe cada um, todos os dias. Comecemos o ano na esperança e na confiança em Deus. Não será por alguma ação mágica que vamos encontrar a solução para os problemas do dia a dia. É na confiança em nós mesmos, no trabalho, na solidariedade, na fraternidade, na atenção recíproca e na confian-ça em Deus, sabendo que Ele não nos abandona em nenhum momento. Sua graça nos dá aquela força de que precisamos a cada momento da vida. Portanto, desejo a todos a bênção de Deus todos os dias do novo ano! O ano tem 365 dias: comecemos bem pelo primeiro, continuemos bem pelo segundo e, assim, chegaremos bem até o último dia deste novo ano.

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