Quando a viola canta Deus e o sertão

Chapada dos Veadeiros (A. Duarte, Flickr)

Chico Lobo é um violeiro que canta o sertão. “Amor de violeiros / É o Grande Sertão” (Caminhos de João, composto em parceria com Joãozinho Gomes). Contudo, seu sertão, como aquele mítico de Guimarães Rosa, é a própria existência, o cosmo e o local do encontro com o Outro. “Esperança de novo tempo / Eu sinto no coração / Alívio pra minha alma / Olho o imenso sertão [...] Às vezes não reparamos / O que a vida nos deu / Sempre possibilidades / De colher aquilo que é seu / Sentir no fundo do peito / A força que tem a manhã / O brilho novo do sol [...] Amizade é fruta boa [...] Nas entranhas desse chão / Sagrado movimento / Alma e coração / Esse é meu tesouro / Jeito de sonhador / Morada dos sentimentos / Sempre um cantador” (Alma e coração). “Brisa doce ou tempestade / Aqui, agora, eternidade [...] Quando tarda não demora / Dia santo não tem hora / Na toada dessa prece / Cismo, cisco em pensamento” (Na toada dessa prece). “Que a boca cantando esse aboio que não é lamúria / Que não é de morte, / É uma forma de oração, / Com respeito e gratidão” (Aboio de gratidão).

Hoje em dia, o ouvinte pode notar uma certa diferença temática entre a música caipira “raiz” e a música sertaneja, mais comercial e influenciada pelo rock e outros estilos musicais de massa. Essa última tem preferencialmente uma temática romântica, centrada nas aventuras e desventuras afetivas do protagonista. Muitas composições são canções de “dor de cotovelo”, centradas em traições sofridas e amores impossíveis. O centro do mundo é um “eu” dominado pela instintividade e por uma afetividade mal resolvida. Provavelmente faz tanto sucesso justamente porque extravasa as dores e amarguras de uma juventude que deseja ser alegre e amar, mas nem sempre sabe como fazer isso num mundo cheio de contradições.

Esses temas não estão excluídos da música caipira, mas o ouvinte percebe que ela está voltada principalmente a celebrar a vida. Os temas principais não são as aventuras e desventuras de corações partidos, mas sim a grande aventura da vida, com sua beleza, que permanece fascinante em meio a êxitos e fracassos, num caminho onde o desafio é parte integrante do próprio viver. O centro é o próprio mundo, ao qual o “eu” adere cheio de amor. E, por isso, um tom de celebração, um espírito alegre, parece recobrir todos os eventos, pois todos fazem parte da mesma grande festa – na qual o mineiro Chico Lobo se apresenta como músico mor.

Violeiro, compositor, cantador, Chico Lobo é considerado, pela crítica especializada, um dos músicos mais ativos e efetivos na divulgação da tradição da viola caipira e da música brasileira. Já se apresentou em países como Canadá, Chile, Itália, Portugal e China.

7 comentários em “Quando a viola canta Deus e o sertão”

  1. Ah, o Chico Lobo e eu tivemos uma agradável prosa neste sentido na manhã do domingo, 4. Entre outras considerações a respeito se sua maravilhosa obra, escrevi que nem quero saber se sou suspeito ou não: a produção do Chico Lobo ao longo da carreira é ótima, ao mesmo tempo universal: é do mundo e é de Minas Gerais! Arriba, Chico Lobo, e até um atalho onde a gente possa tocar um abraço!

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