1822, 1922 e 2022

2022: um ano marcante da história do Brasil. Alguns podem atribuir isso à eleição presidencial que se aproxima; outros, à oportunidade de a seleção brasileira de futebol conquistar o hexacampeonato da Copa do Mundo. 

1822, 1922 e 2022, Jornal O São Paulo
Acervo do Museu do Ipiranga - USP

Na verdade, 2022 é um ano marcante devido ao centenário da Semana de Arte Moderna e do bicentenário da Independência do Brasil. 

Qual é a importância desses dois eventos para a história do País? O Modernismo - aqui entendido o Modernismo paulista da primeira fase - surge no Brasil como uma contestação ao Parnasianismo em voga na época, atitude essa exemplificada no poema “Os Sapos, de Manuel Bandeira. 

Como todo movimento que busca se apartar de uma tradição, corre-se o risco de se jogar fora a água suja da banheira com o bebê junto. Ou seja, a atitude de rejeição irrefletida daquilo herdado pode causar a perda de elementos valiosos necessários para se reconhecer a obra do próprio movimento contestador. 

Esse perigo e a prova de que ele se concretizou encontram-se em “Macunaíma” (1928), de Oswald de Andrade. Se o Parnasianismo pode ser acusado de hermetismo, a linguagem em “Macunaíma” é tão desfigurada que a própria obra é quase ininteligível. 

Contemporâneo de Oswald de Andrade foi Graça Aranha, que tentou impor disciplina ao Modernismo nascente, interpelando os membros do movimento a superarem as tendências mais baixas do espírito humano e o culto à natureza. Inclusive, o homem sobrepujado pelo meio foi uma temática explorada pelo autor em “Canaã” (1902), ao retratar uma mulher cujo filho ao qual dá à luz no mato é logo devorado pelos porcos. No Brasil, a natureza suplantaria o homem se algo não fosse feito. 

Qual visão prevaleceu? Basta olhar para as figuras que estampam as notas de real e assistir à abertura da Copa do Mundo de 2014 para confirmar aquilo que Hegel afirmou no século XIX: “A América Latina não tem história, só tem geografia”. 

E o que tudo isso tem a ver com política? “Homens ditos práticos, que se consideram isentos de qualquer influência intelectual, são geralmente os escravos de algum economista defunto”, afirmou John Maynard Keynes. Se Keynes estava certo, isso quer dizer que aquilo que os homens de ação assumem como seus pressupostos, hoje, saíram da cabeça de algum artista ou intelectual próximo ou longínquo. Um Napoleão teria sido possível sem Robespierre, um Hitler sem Hegel ou um Vargas sem Oliveira Vianna? 

Com o triunfo da República e o surgimento do Modernismo, a cosmovisão que passa a se desenvolver no Brasil é anátema à anterior. Na literatura, a frustração com as mudanças no início da República é um dos temas em “O triste fim de Policarpo Quaresma” (1911), que retrata a decepção do major Policarpo com o Brasil após uma série de tentativas reformistas fracassadas, culminando na decepção completa com o Marechal Floriano Peixoto na última tentativa de reforma. 

A partir de então, a temática principal das artes e da política passa a ser a exaltação das potências mais inferiores no homem, o culto ao território e a ênfase na expressão artística em detrimento da substância do que é expressado – Carnaval, “O petróleo é nosso”, tropicália e cia. 

Tudo isso teve como consequência rebaixar a cosmovisão brasileira a uma nação de gente abobada, sem consciência histórica e condicionada a uma sub-realidade. 

Paralelamente, a historiografia brasileira liderada por Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Otávio Tarquínio de Sousa tratou de reinterpretar a história brasileira salientando aspectos burlescos e controvertidos das biografias dos então heróis nacionais como Dom Pedro I e Dom João VI. 

Se “a vida imita a arte e nada está na realidade política de um país, que não esteja primeiro na sua literatura”, como afirmou Hugo von Hofmannsthal, então o destino de um país é governado, em boa medida, pela imaginação de seus escritores, dramaturgos, pintores etc. 

Se esse é o quadro da baixeza existencial brasileira corrente, o que fazer para fugir da armadilha modernista e seus corolários históricos? “O processo de independência do Brasil é, sem sombra de dúvida, a maior e mais bela obra política contemporânea.” Assim inicia o professor Evandro Pontes, em sua obra intitulada “Os pilares da Independência”, publicada em comemoração do bicentenário da independência pela Fundação Alexandre de Gusmão. 

Essa narrativa é verdadeira? Resta ler o livro e confrontá-la com as narrativas concorrentes, mas a originalidade da hipótese é provocativa o suficiente para despertar o interesse em lê-lo, e aponta para algo calamitoso: é possível que um brasileiro passe a vida inteira sem imaginar que seu País poderia ter alguma coisa de grandeza. 

E se o Brasil fosse chamado a desempenhar um papel relevante na história? E se o Brasil transcendesse o sensualismo tropical rasteiro? E se o Brasil tivesse algo a oferecer ao mundo além de sua exuberância natural? 

Sem conceber isso ao menos imaginativamente, ninguém será capaz de agir com um mínimo de grandeza moral. Parece que o que resta é parafrasear o Major Policarpo e dizer: “Ou o Brasil acaba com o Modernismo, ou o Modernismo acaba com o Brasil!”. 

José Freire Nunes é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo e empreendedor na área da Educação. Atuou em escritórios de advocacia na área Comercial, Securitária e Concorrencial, e trabalhou como assessor legislativo no Congresso Nacional. Atualmente, é mestrando no programa Human Rights in the Catholic Tradition na Catholic University of America, Washington D.C., Estados Unidos. 

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