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‘A família é o projeto humano mais valioso que existe’

‘A família é o projeto humano mais valioso que existe’
Dom Carlos Lema Garcia (Foto: Luciney Martins)

Bispo Auxiliar de São Paulo e Referencial da Coordenação Pastoral para Família e Vida na Arquidiocese de São Paulo, Dom Carlos Lema Garcia destacou o valor da instituição familiar para a Igreja e para a sociedade, no contexto da Semana Nacional da Família, comemorada entre os dias 9 e 15, que teve como tema “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24,15).

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Dom Carlos, que também é Vigário Episcopal para a Educação e a Universidade, chamou a atenção para os atuais desafios enfrentados em relação às famílias e sua missão evangelizadora. Confira:

O SÃO PAULO – O tema desta Semana Nacional da Família ganhou um novo destaque no atual contexto de pandemia?

Dom Carlos Lema Garcia – Sem dúvida. O isolamento social ressaltou a importância da família, uma vez que nos confinamos com aquelas pessoas com as quais convivemos mais proximamente. Essa tem sido uma oportunidade para que os filhos descubram mais o universo dos pais e vice-versa. De igual modo, o casal compreende mais a rotina cotidiana um do outro, especialmente em relação às tarefas domésticas, cuja responsabilidade, na maior parte das vezes, recai mais sobre as mulheres. É claro que essa é uma situação que, esperamos, seja provisória. De certa maneira, porém, contribui para que o ambiente do convívio familiar e seus detalhes sejam mais valorizados.

Inclusive em relação às eventuais dificuldades…

De fato, quando convivemos intensamente com uma pessoa, sobressaem as qualidades e defeitos, o modo de ser de cada um, o que pode provocar atritos. Isso é natural e deve ser encarado como oportunidade para que haja um esforço de crescimento no amor. O amor não é simplesmente gostar daquilo que a pessoa tem de bom. Se esse for o único critério, não seria o verdadeiro amor. Quando apenas aquilo que o outro tem de bom e de belo me agrada, trata-se de um critério egoísta. O que deve acontecer na família é o oposto. A convivência mais estreita deve estimular os esposos a amarem um ao outro como eles, de fato, são.

Esse período também ressalta algumas fragilidades, desafio ou situações que colocam em risco o bem-estar das famílias. Quais o senhor aponta?

Realmente, são vários os desafios. Um desses é de ordem econômica, pois formar e sustentar uma família no nosso tempo pressupõe um esforço muito grande. Infelizmente, há muitas famílias impactadas diretamente pela fragilidade econômica, o que implica preocupação com a educação dos filhos, a saúde, a segurança, enfim, no seu desenvolvimento.

Outro desafio é o ambiente. Cada vez mais, é preciso tomar consciência de que os filhos não aprendem as coisas apenas dentro de casa, mas estão sob a influência do ambiente à sua volta, como a escola, a vizinhança etc. Às vezes, os pais se questionam: “Nós demos uma boa educação aos nossos filhos e, agora, eles seguiram por um caminho oposto. Onde erramos?” O grande desafio é cultivar uma sintonia tal com os filhos para que eles, ao terem contato com alguma realidade desconhecida, sejam capazes de ter consciência do que seus pais pensam a esse respeito e, assim, possam discernir sobre como agir. Isso é o resultado de uma formação muito sólida. Eu diria mais, é resultado de uma unidade forte construída entre pais e filhos.

Para enfrentar essas demandas, contudo, é preciso ter consciência de outro grande desafio, talvez o que mais fragiliza as famílias na atualidade. São muitas as realidades de famílias monoparentais, por diversas razões. São mães ou pais que criam seus filhos sozinhos, sem a presença da figura complementar. Sabemos que é muito importante a presença e atuação tanto do pai quanto da mãe no desenvolvimento de uma pessoa. Nem sempre, porém, isso foi possível, por uma série de circunstâncias.

Como apoiar e acompanhar essas situações de fragilidade?

Penso que aí entram os outros âmbitos da sociedade, da comunidade, da Igreja. É importante ter consciência de que as famílias não devem enfrentar suas dificuldades sozinhas. Além da comunidade eclesial em si, há aquela formada pelas famílias amigas e próximas. Uma família não pode se preocupar apenas com a sua proteção e fechar os olhos para o que acontece fora. Não é apenas uma questão social, tem a ver com uma responsabilidade cristã decorrente do fato de serem membros do corpo místico de Cristo. Os problemas dos outros também são meus, no sentido de que não podemos ser indiferentes aos sofrimentos dos outros.

Também podemos dizer que a escola tem um papel importante nesse processo de colaboração com as famílias, por mais que não seja sua função primordial. Em muitos casos, é na escola que se identificam as situações de fragilidade e desagregação familiar.

Em relação à ideia de “Igreja doméstica”, é importante que a família tome consciência de sua missão evangelizadora?

Certamente. Isso, cada vez mais, é necessário. Esse é, inclusive, um dos desafios que identificamos no sínodo arquidiocesano, quando os dados levantados mostram que a porcentagem de famílias que se dizem católicas e participam da vida eclesial é significativamente pequena. Dificilmente o padre, sozinho, conseguirá alcançar essas famílias sem a colaboração de outras famílias. É preciso, portanto, que as famílias tomem consciência e assumam o seu papel evangelizador. E isso diz respeito a todos os membros. Por exemplo, quando um pai pede ajuda a outro em relação a seus filhos, às vezes, não pode interferir diretamente na situação, mas, por meio da amizade e do elo entre seus filhos, pode ser possível ajudar. Nesse sentido, especialmente as famílias que têm boa formação cristã devem assumir a missão de ajudar as famílias com as quais se relacionam. Há famílias que dificilmente vão buscar a ajuda de um sacerdote ou algum movimento eclesial, por se tratar de uma realidade distante deles, mas há famílias próximas que podem dar apoio, amparo, e ser um meio pelo qual possam não apenas superar suas dificuldades pontuais, como também se aproximar da vida de fé. Isso é uma forma de apostolado que se dá por meio da amizade, da convivência, da presença. Essa é a missão dos cristãos leigos.

A família é também um lugar onde nascem outras vocações para a Igreja?

Com certeza. Zelar pelas famílias é zelar por toda a Igreja. O fenômeno da vocação é, geralmente, muito precoce. Mesmo que alguém tome a decisão com uma certa idade, na maioria dos casos, o desejo de fazer algo por Deus brota na adolescência, na pré-adolescência. Essa pequena semente pode germinar devido ao bom ambiente familiar do qual fazem parte. As famílias que cultivam com zelo, além da fé, a preocupação pelo próximo, a generosidade, a doação, ajudam no desabrochar de uma vocação. Quando uma criança se acostuma a olhar para os outros, a se doar e a se preocupar com seus problemas, pode sentir ecoar dentro de si um chamado para ofertar a vida inteira a serviço de Deus e do próximo por meio da vida religiosa, sacerdotal ou mesmo o compromisso laical vivido com maior exigência.

A família é o projeto humano mais valioso que existe, mais do que o projeto profissional, educacional ou social. A família é, pois, uma realidade que transcende esta vida. O melhor bem que devemos desejar para nossas famílias é que estejam perto de Deus. É um caminho que leva não somente à felicidade deste mundo, mas à vida eterna. Não é fácil edificar uma família, mas é o que de mais precioso existe na vida.

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