Atenção ao farol: a via-sacra vai passar

Aos sábados, durante a Quaresma no semáforo da praça Santo Eduardo, na Zona Norte da capital, crianças e adolescentes da Paróquia São Francisco Xavier encenam as estações da via-sacra

Luciney Martins /O SÃO PAULO

Farol vermelho indica “Pare”. No entanto, para as crianças e adolescentes das pastorais da Catequese, dos Coroinhas e dos Adolescentes da Paróquia São Francisco Xavier, no bairro Jardim Japão, zona Norte da capital paulista, é hora de ação.

Desde 2018, durante a Quaresma, aos sábados, após a missa das 17h, todos se dirigem à Praça Santo Eduardo, no cruzamento da Avenida Guilherme Cotching com a Rua Curuçá, para encenar as estações da via-sacra e evangelizar com mensagens de fé e canções religiosas.

No sábado, 26, a reportagem do O SÃO PAULO acompanhou a ação que tem ocorrido desde o primeiro sábado da Quaresma, 5 de março, e que vai até o sábado 9 de abril, véspera do Domingo de Ramos.

O momento de evangelização, transmitido pelo Facebook da Paróquia, envolve catequistas, coroinhas, acólitos, catequizandos, seus familiares, paroquianos e quem passa pelo local. A cada sábado são refletidas três estações da via crucis, a partir de temas atuais e abordagens relacionadas à vivência familiar e comunitária.

EVANGELIZAR NA PRAÇA E NO FAROL

Em 2018, a catequista Simone Peres Maia, 37, estava incomodada com a pouca participação dos jovens nas atividades da Paróquia: “Senti a necessidade de ações que prendessem a atenção para além da edificação das quatro paredes da Igreja. Precisávamos de algo que impulsionasse o sair e ir ao encontro dos irmãos – atendendo ao pedido do Papa Francisco de ser uma Igreja em saída”, disse, recordando que da inquietação surgiu a ação da via-sacra na praça e no farol.

“Começamos naquele ano com dez crianças e jovens, ainda tímidos e receosos da receptividade do público. Hoje, estamos com mais de 40 membros engajados”, disse a coordenadora das Pastorais da Catequese e dos Adolescentes.

“São muitos os relatos de famílias que, motivadas pelo engajamento dos filhos, retornaram à vida em comunidade. Há também testemunhos de pessoas que passam pelo farol e tiveram suas vidas trans- formadas”, disse Simone, recordando a história de um jovem que, em 2019, saiu de casa triste e decidido a tirar a própria vida, mas no trajeto, impactado pela ação, retomou o sentido da vida.

Luciney Martins /O SÃO PAULO

SEGUNDOS QUE IMPACTAM

Com cartazes com as frases “Foi por você” e “Jesus te ama” e acompanhados pela dramatização de Jesus carregando a cruz e por canções religiosas, as crianças e adolescentes se posicionam na faixa de pedestre.

Os carros, motos e pedestres que por ali passam buzinam, aplaudem e ovacionam a ação. Genivaldo dos Santos, 51, passou pelo local em sua bicicleta e parou para assistir. “Fiquei feliz em ver crianças e jovens falando de Deus em pleno sábado à noite”, disse ele, que se juntou aos paroquianos e participou da encenação. “Como é bom e necessário nos dias de hoje anunciar sem medo. Já que muitas pessoas não vão à Igreja, essa é uma maneira de a Igreja ir ao encontro dessas pessoas”, disse.

Judite Fraga Dionísio Videira, 81, acompanha a ação desde o início e afirmou que o gesto evangelizador é uma atividade de segundos que impacta vidas: “O farol fecha e abre rápido, mas a mensagem de Jesus chega aos corações e marca para sempre. Isso aconteceu comigo. Cheguei de Portugal há quase 60 anos e fui acolhida na Paróquia. Hoje, quero testemunhar que Jesus deu sua vida por nós e é nossa missão anunciar sua Palavra”.

Sobre a ação ser em uma via pública, Carlos Barbosa de Lima, 71, coordenador dos coroinhas, ressaltou que a escolha do local se deu pela viabilidade. “Esse cruzamento é uma via de acesso que liga a zona Norte às demais regiões da capital e por onde circula uma grande quantidade de pessoas nos vários formatos de locomoção”, destacou.

VIDAS TRANSFORMADAS

Na ação, Kauã Silva Barros faz o papel de Cristo. “É gratificante representar Jesus, que entregou sua vida por nós. A vida de Jesus nos toca no mais profundo de nossa essência”, ressaltou. Candido Silva Madaleno, 67, é ministro extraordinário da Sagrada Comunhão. Ele destacou que a ação gera frutos para a vida pessoal de quem participa efetiva- mente do momento de evangelização e de quem passa pelo local naquele momento. “Temos pessoas que passaram pelo farol e despertaram para a participação na comunidade e hoje são paroquianos ativos nas pastorais. Testemunhos de pais e jovens que acolheram Jesus e reataram o casamento, entre tantos depoimentos de fé e conversão de vida”, sinalizou.

EM FAMÍLIA Alcione Maria dos Santos, 44, e Antônio José de Melo, 51, são pais do Eduardo Antonio e do Artur. À reportagem, Alcione contou que participava esporadicamente das missas, mas que com o ingresso do filho Eduardo na Catequese a situação mudou. “O meu filho se engajou muito na Catequese, nas ações promovidas e se tornou coroinha e agora é acólito. Desde o começo, participa da via-sacra aqui no farol”, afirmou a mãe, que, tocada pelo filho, retornou à comunidade paroquial onde hoje atua como catequista.

Antônio também voltou a participar da Paróquia incentivado pelos filhos. “Eles são bênçãos e nos resgataram para a caminhada de fé em comunidade. Há três meses, a Alcione e eu fomos abençoados com o sacramento do Matrimônio”, disse. Os pais contaram que o Eduardo manifestou o desejo de ser padre. “Deus tem abençoado abundantemente a nossa família”, afirmaram, emocionados.

Luciney Martins /O SÃO PAULO

COMUNIDADE EM AÇÃO

“Essa iniciativa atende ao apelo do sínodo arquidiocesano de ser uma Igreja de conversão, comunhão, participação e missão, uma ‘Igreja em saída’”, afirmou Padre Jorge da Silva, Pároco, destacando que a iniciativa partiu de lideranças, crianças, adolescentes e suas famílias.

O Pároco mencionou algumas outras ações paroquiais que impactam diretamente milhares de vidas. “Na Paróquia, temos o projeto Anjos da Rua, que distribui aproximadamente 1,2 mil marmitas pelas ruas da capital. Mensalmente, 120 famílias recebem cestas básicas. Às sextas-feiras, o projeto Janta na Rua beneficia pessoas em situação de rua, entre outros gestos concretos liderados pelos paroquianos”, comentou o Sacerdote, que também é Diretor da rádio 9 de Julho.

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