Cardeal Scherer preside missa no encerramento do jubileu de 125 anos das Irmãs Scalabrinianas

Congregação que teve como uma das fundadoras a Beata Assunta Marchetti atua especialmente em favor de crianças e adolescentes de famílias de migrantes e refugiados

No sábado, 23 de outubro, o Cardeal Odilo Pedro Scherer presidiu a Eucaristia na Paróquia São Carlos Borromeu, na Vila Prudente, na qual foram concluídas as comemorações dos 125 anos da fundação da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu (scalabrinianas), que surgiu em 1895.

A missa foi concelebrada pelo Cônego Cesar Gobbo, Pároco, também por padres scalabrinianos, e contou com a presença das irmãs da congregação, cuja uma das fundadoras foi a Beata Assunta Marchetti, beatificada há sete anos, em 25 de outubro de 2014, na Catedral da Sé.

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No começo da missa, a Irmã Maria do Rosário Onze, MSCS, falou sobre o encerramento do jubileu de 125 anos: “Hoje, encerrando o Ano Jubilar, damos graças a Deus, pois ainda ressoa, dentro de nós, as palavras do fundador, o Bem-Aventurado Dom João Batista Scalabrini: ‘a obra dos sacerdotes não seria completa sem a vossa obra, ó veneráveis irmãs. Existem iniciativas nas quais somente vós podeis obter êxito. Deus infundiu no coração da mulher um atrativo todo particular, pelo qual exerce um poder misterioso sobre as mentes e sobre os corações. Confio, portanto, que correspondereis a graça de Deus, que vos chama em terra distante á uma sublime missão, de religião e civismo’.Portanto, a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, Scalabrinianas, louva e agradece a Deus pelos 125 anos de caminhada, de serviço evangélico e missionário aos migrantes e refugiados.”

No começo da missa, Dom Odilo também disse ser aquele um momento muito bonito e de ação de graças, ocasião para elevar preces a Deus para que assista às irmãs, assim como assistiu às fundadoras e fundadores da congregação.

Na homilia, o Arcebispo afirmou que a Congregação tem muito a agradecer a Deus por todas as graças alcançadas ao longo dos anos. Lembrou, ainda, que Deus fala diante das circunstâncias de cada tempo, de modo que no final do século XIX, o Beato João Batista Scalabrini sentiu o chamado de Deus para atender os migrantes que buscavam uma vida melhor no Brasil.

Ao recordar as dificuldades enfrentadas pelas irmãs que iniciaram a Congregação – participar da vida dos migrantes, compartilhar suas dores, aflições, perdas, incertezas e saudades – o Arcebispo lembrou que isso também deve ser motivo de gratidão a Deus, já que foram superadas, e que os migrantes de hoje não devem ser esquecidos pelas demais pessoas.

Ainda na homilia, o Arcebispo pediu a Deus que “continue a manter, no coração de vocês e no coração da Igreja, muito viva esta chama do carisma, da presença, do cuidado junto aos migrantes.”

Agradecimentos

Ao final da celebração, as irmãs ofertaram flores à Nossa Senhora: “Trazemos presente a pessoa de Maria, que sempre nos acompanhou em nossa vida e missão, ela que trouxe Jesus Salvador ao mundo. Nós, como mulheres, queremos trazer presente esta presença feminina na Igreja, que anuncia o Reino de Deus.”

 “O Jubileu é sinal da ternura e da presença amorosa de Deus em nossa história”, disse a Irmã Janete Aparecida Ferreira, MSCS, que recordou que as irmãs estão em missão em 26 países.

A Irmã Maria Lellis da Silva, MSCS, Superiora Provincial da Província Maria, Mãe dos Migrantes, enalteceu os exemplos de Dom João Batista Scalabrini, da Beata Madre Assunta e seu irmão, Padre José Marchetti: “Eles são modelos de vida e de inspiração para nós”, disse, também agradecendo às primeiras irmãs que construíram o trabalho missionário da congregação, às que mantêm as atividades atualmente e a Dom Odilo pela disponibilidade em auxilia-las sempre.   

(Texto e fotos: Fernando Arthur)

*SOBRE A CONGREGAÇÃO

Luciney Martins/O SÃO PAULO

A busca por melhores condições de vida levou muitos italianos a imigrar para o continente americano na década de 1890. Um dia, ao passar pela estação ferroviária de Milão, de onde as famílias seguiam de trem até o Porto de Gênova e de lá partiam para países como o Brasil, Dom João Batista Scalabrini, então Bispo de Piacenza, questionou-se como eles manteriam a prática da fé cristã em novas terras. Desde então, passou a convidar sacerdotese religiosos para ser missionários na América do Norte e do Sul e encontrou o “sim” do Padre José Marchetti, que já percebera que muitos de seus paroquianos na Arquidiocese de Lucca partiam para o outro lado do Atlântico.

Em uma das viagens do Padre Marchetti ao Brasil, uma mulher faleceu no navio, deixando a filha e o esposo, que, desesperado, disse que se jogaria ao mar. Prontamente, o Sacerdote o consolou e lhe prometeu que o ajudaria acuidar da criança. Na chegada a São Paulo, ele buscou ajuda e construiu um orfanato na colina do Ipiranga, na zona Sul. Tempos depois, em uma de suas viagens à Itália, pediu que sua irmã, Assunta Marchetti, então com 24 anos, discernisse sobre a possibilidade de viver como religiosa e ser a “mãe dos órfãos no Brasil”.

Os fatos remontam às origens da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, as scalabrinianas, fundada em 25 de outubro de 1895, em Piacenza, pelo Beato João Batista Scalabrini, tendo como cofundadores o venerável Padre José Marchetti e Madre Assunta, beatificada em 2014 pelo Papa Francisco.

“A congregação foi gerada na Itália, mas se desenvolveu no primeiro mês dentro de um navio com os imigrantes a caminho do Brasil”, disse em entrevista ao O SÃO PAULO, em 2020, a Irmã Leocádia Mezzomo, scalabriniana.

Passados 125 anos, hoje cerca de 650 irmãs scalabrinianas estão em 26 países na Europa, Ásia, África, América do Norte e América Latina, a maioria no Brasil, com ações em favor dos migrantes, refugiados e famílias em situação de vulnerabilidade social.

O orfanato criado no Ipiranga para receber os órfãos de imigrantes italianos, com o tempo, também passou a acolher crianças de outras nacionalidades e filhos de escravos abandonados, um trabalho que prosseguiu mesmo após a morte do Padre Marchetti, em 1896, aos 27 anos de idade, vítima da epidemia de tifo.

Outra casa, apenaspara meninas, o Orfanato Cristóvão Colombo, foi criada na Vila Prudente, na zona Leste, onde hoje está a Casa Madre Assunta Marchetti, local em que a religiosa faleceu em 1948, aos 76 anos, após ter atuado, ainda, em missões no interior paulista e no Rio Grande do Sul.

“Desde a fundação, continuamos a ser uma presença especial para as crianças; hoje não somente as órfãs, mas todas as necessitadas, aquelas cujos pais trabalham e não têm com quem deixar”, disse a Irmã Leocádia, ao recordar que mais de 100 crianças são atendidas no contraturno escolar na Casa Madre Assunta, onde participam de atividades lúdicas, aulas de instrumentos musicais, dança e artes manuais, momentos de oração, além de receberem alimentação.

“Procuramos ser uma presença do amor de Deus para quem está em situação de mobilidade humana, como os migrantes e refugiados. Temos no México, por exemplo, uma casa de acolhida para mulheres latino-americanas que foram deportadas ou que queriam ir para os Estados Unidos, mas não conseguiram. Elas permanecem com as crianças em uma de nossas casas”, disse Irmã Leocádia.

“Como nos ensinou o beato fundador, Dom João Batista Scalabrini, o migrante é para nós o Cristo que espera uma resposta – ‘Eu era imigrante e você me acolheu’. Gostaríamos de poder responder a todos esses chamados de Deus, hoje. Eu fiquei muito feliz quando as minhas irmãs scalabrinianas foram para a Grécia, onde hoje há muitos refugiados. Existem tantos campos para sermos a presença de Deus, e sempre fazemos aquilo que podemos”, concluiu.

*A partir de reportagem publicada no O SÃO PAULO em outubro de 2020

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