Cardeal Scherer: ‘Unamos nossas energias para edificar uma cidade boa para todos’

Afirma Dom Odilo, em entrevista na qual fala sobre suas percepções a respeito da vida na capital paulista, a presença da Igreja e como o exemplo de São Paulo Apóstolo deve inspirar as ações evangelizadoras na metrópole

‘Seria bom se crescesse a cultura da fraternidade, da sensibilidade e do cuidado entre todos os moradores da cidade’, afirma Dom Odilo (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

O Cardeal Odilo Pedro Scherer vive na capital paulista desde 2002, quando aqui chegou para atuar como Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, nomeado por São João Paulo II. Em 2007, o Papa Bento XVI o nomeou Arcebispo Metropolitano.

Com o olhar de quem vivencia a dinâmica da cidade há quase duas décadas, Dom Odilo comenta, nesta entrevista ao O SÃO PAULO, os avanços e retrocessos da metrópole neste período, ressalta os aprendizados durante a pandemia que não devem ser esquecidos e destaca a presença evangelizadora da Igreja, inspirada em São Paulo Apóstolo, Padroeiro da Arquidiocese, da cidade e do estado:

“Do Apóstolo, temos muito a aprender e imitar. Antes de tudo, sua grande fé e seu amor a Jesus Cristo e ao Evangelho. Em tempos difíceis, como os nossos, é necessário perguntar com frequência, a exemplo dele: ‘Senhor, que queres que eu faça?’; e, como ele, ter princípios claros e firmes, para não se deixar levar ‘por qualquer vento de doutrina’, por superficialidades e fanatismos cegos”.

O SÃO PAULO – O senhor vive em São Paulo há quase duas décadas. De quando aqui chegou como Bispo Auxiliar, em 2002, para hoje, quais as principais mudanças que percebe na dinâmica da cidade?

A cidade de São Paulo é dinâmica e, em 20 anos, muita coisa mudou para melhor, como o sistema viário e o transporte coletivo público, o zelo pelos espaços públicos, a diminuição da pobreza nas periferias, embora ainda haja tanta! A mesma coisa pode ser dita da segurança pública, que está melhor. E já não há mais tantas enchentes e alagamentos quando chove forte. Outras coisas, porém, claramente estão piores que há 20 anos: a pobreza e a miséria expostas a olhos vistos pelas ruas e praças, a degradação e a decadência de algumas áreas do centro mais antigo, o aumento da insegurança e a ação do crime organizado em alguns setores da cidade. O clima de otimismo próprio de São Paulo também está mudado, e se sente no ar uma forte tendência à polarização ideológica.

Como Arcebispo, desde 2007, o senhor é um conhecedor das muitas realidades da metrópole. O que mais o inquieta na cidade e que gostaria de ver modificado?

Seria tão bom se todos os adultos, em condição de trabalhar, tivessem um trabalho estável para o seu sustento digno e o de suas famílias; seria bom se todos tivessem uma habitação decente e ninguém mais precisasse morar na rua; que houvesse mais projetos voltados a dar dignidade e qualidade de vida às populações das imensas periferias; que se acabasse com o tráfico de drogas ilícitas e não houvesse mais violência e ninguém perdesse a vida, ou fosse ferido em ações violentas. Seria bom se crescesse a cultura da fraternidade, da sensibilidade e do cuidado entre todos os moradores da cidade.

Quais foram os aprendizados deixados pela pandemia de COVID-19 em São Paulo e que não podem ser esquecidos quando a vida voltar ao “ritmo normal”?

Ela nos levou a refletir mais sobre a vida, aquilo que é o essencial, o mais importante em nosso existir, e isso deveria nos acompanhar, assim como a sensibilidade e a solidariedade diante do sofrimento do próximo. Acho que este tempo de pandemia também ajudou a redescobrir a família, o convívio familiar e a fé em Deus. Percebemos que todos somos vulneráveis e frágeis e precisamos uns dos outros. Ninguém vence sozinho as dificuldades; mas, tudo fica mais fácil quando abandonamos nossa autossuficiência e unimos esforços.

Foto: Arquivo pessoal

Com mais de 300 paróquias, a Arquidiocese de São Paulo é certamente uma das instituições com maior capilaridade na cidade. Hoje, como essa presença se traduz em incidência nas diferentes realidades dos bairros?

As paróquias são expressão da própria Igreja – “comunidade de comunidades” – e de sua presença no meio do povo. Elas são a face mais perceptível e próxima da Igreja, onde as pessoas se sentem vinculadas à Igreja e dela recebem os bens da Palavra de Deus e dos meios de santificação, sobretudo os sacramentos. Também é na paróquia que as pessoas podem expressar, de forma pessoal e comunitária, a sua fé e o seu empenho nas obras de misericórdia, caridade e esperança. Nossas paróquias, de muitas formas, fazem isso e assim também incidem nas comunidades urbanas locais. Elas são realidades de agregação religiosa e social, de organização de iniciativas em benefício da população e de constante tomada de consciência e motivação, a partir do Evangelho, sobre a participação de cada um na edificação da cidade.

Fundada por missionários, São Paulo é uma cidade com raízes cristãs. De que maneira essa identidade pode ser mais bem valorizada pela população e não só pelos católicos?

Podemos dizer, sem medo de errar, que “São Paulo nasceu de uma missa”. De fato, a data comemorativa da fundação da cidade corresponde ao dia da celebração da primeira missa em São Paulo, na missão dos Jesuítas no Planalto de Piratininga, no local que hoje é o Pateo do Collegio. É bom que isso seja sempre lembrado. Não foi, certamente, um fato ruim, que deva ser esquecido… E, se o fato foi bom, cabe em primeiro lugar a todos nós, católicos, valorizar esse “berço cristão” da atual metrópole paulistana. Como cidadãos e pessoas de fé, somos chamados todos os dias a contribuir, de muitas maneiras, na edificação da cidade, a partir das nossas convicções e das luzes do Evangelho.

Ao olhar para a vida do Apóstolo Paulo, o que o católico pode ter como exemplo para colaborar ativamente com a missão evangelizadora da Igreja na cidade?

Comemoramos o dia 25 de janeiro também como festa do Padroeiro da Arquidiocese, além de ser o dia da fundação da cidade de São Paulo. A festa é celebrada não apenas na Catedral, mas também em todas as paróquias da Arquidiocese. Do Apóstolo, temos muito a aprender e imitar. Antes de tudo, sua grande fé e seu amor a Jesus Cristo e ao Evangelho. Em tempos difíceis, como os nossos, é necessário perguntar com frequência, a exemplo dele: “Senhor, que queres que eu faça?” E, como ele, ter princípios claros e firmes, para não se deixar levar “por qualquer vento de doutrina”, por superficialidades e fanatismos cegos. É preciso perseverança no bem, mesmo quando isso custa sacrifícios. E, seguindo o exemplo de São Paulo, precisamos de um renovado ardor missionário em nossa Arquidiocese.

No aniversário de 467 anos de fundação da cidade, qual a mensagem que o senhor gostaria de deixar a todos os que aqui vivem?

Parabéns, cidade de São Paulo, na sua festa de aniversário! Parabéns à Arquidiocese de São Paulo, na celebração do seu padroeiro! Mais que seus edifícios, viadutos e grandes obras, a cidade é feita de gente. Inspirados no Apóstolo e nos fundadores de São Paulo, unamos nossas energias para edificar uma cidade boa para todos, onde a convivência seja orientada pela fraternidade, a amizade social, a justiça e a solidariedade. Que a cidade grande tenha lugar também para os pequeninos e pobres, não esmague, não esqueça, nem descarte ninguém. Que Deus abençoe e faça frutificar todo esforço honesto em benefício da constante construção e cuidado da cidade de São Paulo!

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