Com combustíveis em alta, brasileiros buscam opções para deslocamentos cotidianos

A pé, no monociclo ou na bicicleta elétrica, vale tudo para tentar economizar diante do aumento de 40% do preço da gasolina em 12 meses e de cerca de 65% no valor do etanol no mesmo período

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Encher o tanque do veículo tem sido uma tarefa cada vez mais difícil para os brasileiros. Embora exista variação de preços entre os estados, os combustíveis estão pesando no orçamento de todos.

Segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no acumulado de 12 meses, até setembro, a gasolina subiu 39,6%; o etanol, 64,77%; o gás veicular, 0,68%; e o óleo diesel, 0,67%.

Diante disso, a busca por alternativas para reduzir os gastos com combustível virou prioridade, sobretudo entre os que utilizam carros e motocicletas como principais meios de locomoção.

Na capital paulista, onde o aumento da gasolina em um ano foi de 40,7%, os consumidores têm adotado diferentes hábitos para se deslocar. O dado foi levantado pela ValeCard, empresa especializada em soluções de gestão de frotas e meios de pagamento, com base em transações realizadas em postos de combustíveis de 1º a 30 de setembro.

Sobre uma única roda

Para chegar aos locais de trabalho, o professor de Capoeira Anderson Rodrigues, 40, passou a usar cada vez mais, no lugar da motocicleta, o monociclo elétrico, adquirido há dois anos.

Rodrigues mora na Freguesia do Ó, na zona Noroeste de São Paulo, e dá aulas em diferentes bairros e regiões da cidade. Para se deslocar de monociclo – veículo que possui apenas uma roda e não tem guidão –, ele conta com as boas condições de ciclovias e calçadas.

“Tenho utilizado todos os dias e em qualquer horário. À noite é melhor porque há menos carros trafegando, e, assim, dá para andar nas ruas, quando não há ciclovias”, explica.

“Quando dou aula nas regiões de Santana, na zona Norte, e Ibirapuera, na zona Sul, no mesmo dia, por exemplo, tendo um intervalo de uma hora e 30 minutos entre elas, vou de monociclo até o Metrô Santana, desço em alguma estação próxima do meu destino e sigo nele até o local”, detalha.

O modelo de monociclo elétrico utilizado por Rodrigues atinge a velocidade máxima de 30km/h e permite percorrer uma distância de até 30 km, dependendo das condições do percurso.

“Quando vou a Santana, por exemplo, não faço o mesmo caminho que faria de moto. Acabo fazendo um percurso maior para não pegar tantas ladeiras. Ainda assim, vale a pena”, avalia o professor de Capoeira, acrescentando que, com o monociclo, gasta 40 minutos até o destino, dez a mais que o tempo que levaria fazendo o mesmo trajeto de moto.

“Tenho conseguido economizar mais de R$ 200 por mês só com combustível. Fora [a economia] com esta cionamento, uma vez que consigo entrar com ele em todos os lugares”, detalha, explicando que o equipamento, que pesa cerca de 20kg, possui uma alça para o transporte quando não está sendo usado.

Sobre o consumo de energia, Rodrigues conta que o gasto estimado é de R$ 8 a R$ 10 por mês, caso se façam recargas completas todos os dias. “Nunca deixei descarregar totalmente. Então, nem chego a gastar esse valor.”

Nos dias de chuva ou sol muito forte, o monociclista usa o equipamento para ir até uma estação de trem ou metrô, ou então percorre parte do trajeto com o monociclo e a outra parte com um carro solicitado por aplicativo.

Anderson Rodrigues se desloca pela cidade com o monociclo elétrico (foto:Ira Romão/O SÃO PAULO)

Sem carro

Há dois meses, o mecânico de refrigeração Luiz Thomaz, 24, tem deixado o carro em casa para ir ao trabalho e dele retornar de ônibus.

Morador de Pirituba, na zona Noroeste, ele trabalha na Lapa, na zona Oeste. O trajeto de 50 minutos inclui a utilização de dois ônibus. “De carro, gastava no máximo 25 minutos”, calcula.

A mudança de hábito foi impulsionada por questões financeiras. “Pensando na pandemia e em aglomeração no coletivo, seria melhor continuar indo de carro. Entretanto, devido ao preço da gasolina, não tenho mais condições”, expõe o mecânico, relatando que tentou usar carros por aplicativos, mas o custo não compensou.

De acordo com o levantamento de preços da ValeCard nos bairros de São Paulo, o valor médio do litro da gasolina no mês de setembro ficou em R$ 5,90. No mesmo período do ano passado, custava R$ 4,19.

Luiz Thomaz afirma que estava gastando cerca de R$ 270 por mês com o combustível para trabalhar. Já com o transporte público, este gasto é de R$ 200.

Para se adaptar aos horários dos ônibus, ele instalou no celular o Moovit, aplicativo que informa o itinerário dos coletivos. “Como fazia muito tempo que não andava de ônibus, isso me ajudou nos primeiros dias.”

Quem também está aderindo a novos hábitos em relação ao uso do carro é a funcionária pública Ligia Barruzi, moradora da Freguesia do Ó. Ela e o esposo venderam um dos carros que possuíam. “Além da manutenção do veículo, pagamento de seguro e IPVA, o aumento de combustível também influenciou na decisão.”

Ligia diz que tem evitado ao máximo tirar da garagem o carro e, por isso, tem andado a pé quando precisa se deslocar a algum local cuja distância seja até 2km. “Idas ao supermercado, farmácia, padaria, açougue e deslocamentos a comercios e feiras livres, estou fazendo a pé”, conta. “Hoje, só vou aos supermercados mais distantes se realmente houver necessidade.”

Bike elétrica

O produtor musical Lucas Azaia, 23, morador de São Miguel Paulista, extremo Leste da capital, ficou desempregado durante a pandemia. Com o dinheiro da rescisão, comprou uma moto para trabalhar como entregador por aplicativo.

Apesar da renda que obtinha com as entregas, equilibrar os custos de manutenção da moto e os altos preços do combustível se tornou cada vez mais difícil. Azaia, então, decidiu vender a moto e agora faz as entregas com a bike elétrica da empresa de aplicativo na região da Avenida Paulista.

“Com o aluguel da bike, gasto R$ 10 por semana. Com a moto, entre combustível e custos de manutenção, creio que economizo mais de R$ 500 por semana”, afirma.

Impacto nas corridas por aplicativos

Têm sido crescentes na cidade os relatos de usuários de carros por aplicativos para conseguir se deslocar.

A esteticista e cosmetóloga Elisete Ferreira, moradora de Perus, zona Noroeste, atende clientes em domicílio e se desloca até os locais por meio de carros por aplicativos.

“O tempo de espera aumentou e os cancelamentos estão frequentes. São três, quatro seguidos. Isso já me causou atrasos”, conta Elisete. “Muitas vezes, quando a corrida já foi aceita, após esperar o carro por mais de 10 minutos, o motorista cancela”, detalha.

“Mesmo identificando que há muitos carros na região, as corridas não são aceitas logo”, salienta.

Um motorista parceiro das empresas Uber e 99, que prefere não se identificar, confirma que está escolhendo viagens. “Com a alta dos combustíveis, fica inviável certos tipos de corridas, devido aos valores repassados [pelas empresas].” Ele afirma que, antes de aceitar, sempre avalia “se o gasto e o tempo do percurso compensam”.

“Para fazer uma corrida de R$ 50, em que devo sair da zona Norte em direção à Sul, dependendo do horário, vou levar uma hora e 30 minutos. Vou gastar combustível, meu tempo e desgastar o carro. Já se eu fizer três corridas curtas em um pequeno perímetro, faria esse dinheiro em menos tempo”, exemplifica. “Mas compensaria a corrida [mais longa] se o percurso fosse de fácil acesso, pegando uma rodovia sem trânsito.”

Uma situação que não compensa, segundo o motorista, é quando o percurso da corrida é inferior a 2km e ele precisa percorrer mais do que isso para chegar até o passageiro.

Ele também conta que, para equilibrar custos e ganhos, está saindo mais cedo para trabalhar, para evitar trânsito, e tem trabalhado aos fins de semana devido à “taxa ser um pouco melhor”. Além disso, fez a conversão de seu carro para gás natural veicular (GNV).

“Para um motorista por aplicativo conseguir, em um dia, fechar R$ 280, precisa trabalhar de 10 a 12 horas, sendo que R$ 120 vão para o combustível”, detalha.

A conversão para GVN é vantajosa?

Uma das saídas encontradas por quem busca economizar com combustíveis tem sido a conversão do carro a gasolina ou álcool para o gás natural veicular (GNV).

Mecânico há 36 anos, Antônio Carlos Oliveira analisa que “hoje, com os preços dos combustíveis, o GNV é uma boa opção de economia para quem usa muito o carro, como os motoristas por aplicativos e taxistas”.

Ele lembra que o GNV é um combustível mais limpo do que a gasolina e o álcool, e hoje não apresenta mais os problemas vistos em décadas passadas. “Antigamente, os carros a gás tinham o motor comprometido e o cabeçote e as válvulas estragavam com frequência, pois o gás é seco, e, assim, acabava danificando mais o motor e as peças”, explica. “Hoje, com o sistema de 5ª geração, isso ocorre com menor frequência.”

O mecânico alerta, porém, que para os carros com GNV há maior desgaste de algumas peças, como a embreagem. “O carro a gás acaba forçando mais a embreagem, já que perde um pouco de força, em especial nas subidas.”

Oliveira reforça que, ao optar pela conversão para o gás, o dono do carro precisa se atentar às orientações e ao tempo de manutenção. “Tem que fazer com frequência vistoria no cilindro, nos componentes, na mangueira etc. Há pessoas que instalam o gás no carro e acabam esquecendo a manutenção”, alerta.

Quem segue à risca todos esses cuidados é o técnico de planejamento em manutenção Davi Santana, que há seis anos fez a conversão do carro para GNV e afirma que se sente seguro com a utilização.

“Mantendo as manutenções preventivas do carro em dia, não há ‘dor de cabeça’. É de suma importância que a instalação seja realizada em locais em que os profissionais são capacitados e qualificados pelas empresas que fornecem as peças para realizar a conversão”, reforça Santana, que vive na cidade de Itaguaí (RJ), onde o aumento da gasolina, em um ano, foi de 35,56%, segundo o levantamento do ValeCard. No mês de setembro, o Rio de Janeiro teve a média mais alta de preços entre os estados do Sudeste (R$ 6,69).

Devido ao trabalho, Santana se desloca por mais de mil quilômetros todo mês. “Utilizando gasolina, gastava entre R$ 500 e R$ 650 mensais. Com o GNV, gasto entre R$ 280 e R$ 320 e rodo a mesma quilometragem”, relata.

Ele conta que a temida “perda de potência” dos veículos convertidos ao GNV é quase imperceptível, “tendo em vista que, com o avanço da tecnologia e das peças utilizadas, tudo isso deixa o carro mais próximo da sua capacidade de potência”.

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