Defensor dos direitos humanos, morre aos 90 anos o jurista Dalmo Dallari

Ele foi fundador e o primeiro presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo. Em entrevista ao O SÃO PAULO, em 2011, ele contou detalhes da agressão que sofreu na véspera da visita do Papa João Paulo II ao Brasil, em 1980

Dalmo Dallari (foto: Faculdade de Direito da USP)

Uma das principais vozes na luta pelos direitos humanos durante o período da ditadura no Brasil, o jurista Dalmo Dallari faleceu na sexta-feira, 8, aos 90 anos de idade, em decorrência de uma insuficiência respiratória, conforme informado por seus familiares. Ele deixa a esposa, sete filhos, 13 netos e dois bisnetos.

Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP, Dallari destacou-se em sua carreira acadêmica pelos estudos sobre a Teoria Geral do Estado. Na vida social,  contribuiu para a criação da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, em 1972, a convite de Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Metropolitano à época, tendo sido o primeiro presidente deste organismo.

O corpo de Dalmo Dallari será velado no salão nobre da Faculdade de Direito da USP (Largo São Francisco, 95, no centro), no sábado, 9, das 10h às 13h. O enterro acontece no mesmo dia, às 14h, no Cemitério do Araça (Avenida Doutor Arnaldo, 66).

PESAR E SOLIDARIEDADE

O Cardeal Odilo Pedro Scherer manifestou pesar pelo falecimento de Dalmo Dallari e prestou solidariedade aos familiares do jurista.

O Arcebispo Metropolitano de São Paulo ressaltou que o jurista teve uma vida profissional e acadêmica marcada pela dedicação à aplicação do Direito como serviço à justiça. Recordando sua atuação na Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Dom Odilo afirmou que Dallari se destacou na promoção e na defesa dos direitos humanos.

Leia a íntegra da nota do Cardeal Odilo Scherer

BIOGRAFIA

Natural de Serra Negra (SP), Dalmo Dallari nasceu em 31 de dezembro de 1931 e mudou-se para a capital paulista em 1947, com sua família. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1953, onde concluiu o bacharelado em 1957. A partir de 1964, passou a compor o corpo docente da faculdade. Em 1986, foi escolhido para ser diretor da Faculdade de Direito, permanecendo na função até 1990.

Durante o período ditatorial no Brasil, foi uma das vozes a denunciar as atrocidades do regime, especialmente após 1972 com a fundação da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, atuando de modo especial na defesa dos presos e perseguidos políticos.

AGREDIDO ÀS VÉSPERAS DA VISITA DO PAPA JOÃO PAULO II

Dallari (1o à esq.) com membros da Comissão Justiça e Paz, tendo Dom Paulo ao centro (foto: Memorial da Democracia)

No ano de 2011, Dalmo Dallari concedeu entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO na qual recordou a agressão que sofrera em 2 de julho de 1980, na véspera da visita apostólica do Papa João Paulo II a São Paulo.

Dallari, então presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, foi convidado a proclamar uma das leituras da missa que o Pontífice iria presidir no Campo de Marte no dia seguinte, 3 de julho, em ação de graças pela beatificação de José de Anchieta, ocorrida em 22 de junho de 1980.

No dia 2, Dallari foi ao Campo de Marte para saber detalhes dos procedimentos de sua participação na missa e ao retornar para casa foi capturado e agredido, conforme detalhou na entrevista.

“Ao chegar à porta de casa, havia um grupo a minha espera. Era perto das 7 da noite. Assim que sai do carro, fui cercado e agredido violentamente, inclusive com coronhadas. Fui atirado dentro de um carro. Eles, então, me levaram para um terreno baldio, ao lado da Avenida Juscelino Kubistchek, que estava ainda sendo aberta, não tinha iluminação, mas já estava aberta ao tráfego. Neste terreno baldio, fui agredido violentamente, com coronhadas, socos, pontapés, até que eu cai. Depois disso, eles foram embora e eu fiquei naquele lugar completamente escuro e abandonado. Deus me ajudou, e, com grande esforço, me levantei e fui caminhando até a avenida. Eu estava todo ensanguentado. Demorou até que um carro parasse. O motorista perguntou o que tinha acontecido e eu disse. Pedi que ele me conduzisse até minha casa. Ele titubeou um pouco, mas me levou até a porta de casa e foi embora. Quando eu cheguei, minha mulher me viu todo arrebentado. Eu pedi a ela: ‘me leve ao pronto-socorro, pois eu tenho que comparecer a essa missa amanhã, nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida’”.

Dalmo Dallari contou que após várias horas de atendimento, pela manhã ele já conseguia falar e ser compreendido, mas não conseguia andar, mesmo assim pediu para ir à missa no Campo de Marte, e lá chegou em uma ambulância.

“O militar que tomava conta da segurança, disse que eu não podia entrar, pois eu não conseguia caminhar e havia uma grande escada para subir. Então, os amigos que me acompanhavam disseram a ele que eu ia, em cadeira de rodas mesmo, carregado por eles. O militar não permitiu que eu entrasse pelos fundos, como estava planejado, então meus amigos decidiram que eu entraria pela frente do palco. Carregado pelos amigos, cheguei até o alto do palco, e o próprio Papa perguntou o que houve. E Dom Paulo Evaristo Arns explicou que eu tinha sofrido uma agressão, e lembro de Dom Paulo ter dito: ‘fizeram isso com ele que é o presidente da Comissão Justiça e Paz porque não tiveram coragem de fazer comigo, mas é um recado para mim”, detalhou Dallari.

“Eu fiz a leitura da missa como estava programado e depois sai. Isso teve uma repercussão enorme, inclusive internacional. Acredito que a minha presença na missa serviu para estimular a luta pela liberdade e a dignidade da pessoa humana”, concluiu na entrevista.

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