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Há 50 anos, Museu de Arte Sacra de São Paulo preserva o sagrado

Há 50 anos, Museu de Arte Sacra de São Paulo preserva o sagrado
Arquivo MAS/SP

Quem passa pela Avenida Tiradentes, na zona Norte da capital, logo avista o imponente prédio do Mosteiro da Luz, única edificação colonial do século XVIII em São Paulo a preservar seus elementos, materiais e estrutura originais, em pleno uso e atividade. Em suas dependências, encontra-se o Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS/SP), que, no dia 29 de junho, completou 50 anos de atividades, preservando, ao longo desse período, a arte sacra do catolicismo representativa dos últimos cinco séculos.

O MAS/SP surgiu da parceria entre o Governo do Estado e a Cúria Metropolitana, tendo sido o Cardeal Agnelo Rossi, então Arcebispo de São Paulo, um dos principais incentivadores de sua criação. Seu acervo, composto por milhares de peças, é resultado da junção da coleção da Cúria e de obras do governo paulista. O local, que recebe anualmente 65 mil visitantes, é uma das principais instituições culturais brasileiras voltadas ao estudo, conservação, restauro e exposição de objetos relacionados às artes sacra e barroca.

ARQUITETURA COLONIAL

Há 50 anos, Museu de Arte Sacra de São Paulo preserva o sagrado
Arquivo MAS/SP

Fundado em 1774, o Mosteiro da Luz é um convento de recolhimento das monjas enclausuradas da Ordem das Concepcionistas da Imaculada Conceição. O prédio é tombado nas esferas federal, estadual e municipal e é considerado um dos mais importantes e bem conservados exemplares da arquitetura colonial brasileira do século XVIII.

 O local tem sua origem na capela em homenagem a Nossa Senhora da Luz. O próprio Santo Antônio de Sant’Anna Galvão projetou o edifício e trabalhou como pedreiro e supervisor durante a sua construção, concluindo-o parcialmente em 1788. Morto em 1822, seu corpo lá está sepultado.

Nos anos seguintes, ampliações foram feitas, incorporando a antiga Capela da Luz. A construção foi concluída apenas nas primeiras décadas do século XIX e, para que o visitante possa conhecer a técnica utilizada, o museu mantém uma sala em taipa de pilão, que permite ver as paredes originais com espessura de 1,05m, testemunho de como eram erguidas as edificações no século XVIII.

CUIDADO COM O PATRIMÔNIO

Há 50 anos, Museu de Arte Sacra de São Paulo preserva o sagrado
Arquivo MAS/SP

O MAS/SP, além de possuir um amplo conjunto de peças sacras e barrocas, conta com uma numerosa coleção de altares, oratórios, prataria e ourivesaria religiosas, joias, mobiliário, pinturas, fotografias, majoritariamente produzidos entre os séculos XVI e XX. Por sua limitada área expositiva, o MAS/SP consegue exibir de 14% a 20% de seu conjunto, o que faz de forma rotativa, para trazer aos visitantes o maior recorte possível de seu numeroso acervo, que contém obras de artistas como Aleijadinho e Frei Agostinho de Jesus.

 “O barroco marcou a nossa cultura por séculos, devido à colonização portuguesa. Essa mentalidade é ainda muito forte e cara ao nosso povo. A nova arte sacra tem a denominação de arte litúrgica, pois a arte é um serviço litúrgico. Artistas e arquitetos que desejam prestar serviço à Igreja têm que estar cientes dessa importante demanda e ter a formação necessária para executar seus trabalhos” reiterou ao O SÃO PAULO a pesquisadora e doutora em Ciências da Religião, Wilma Steagall De Tommaso, que também atua como professora no MAS/SP.

Wilma destacou, ainda, que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), desde 1964, no seu primeiro Encontro Nacional de Liturgia, prevê iniciativas para a arte sacra, tanto que, em 1971, a CNBB publicou o Documento Base sobre a Arte Sacra, como resposta ao proposto pela renovação litúrgica do Concílio Vaticano II, que apresentou um caminho à Igreja no Brasil para o cuidado do patrimônio arquitetônico e artístico.

ARTE SACRA LITÚRGICA

Há 50 anos, Museu de Arte Sacra de São Paulo preserva o sagrado
Arquivo MAS/SP

Segundo a pesquisadora, na Igreja vem acontecendo um progresso na compreensão do que significa a arte litúrgica, e os artistas estão atualizando seus projetos iconográficos e arquitetônicos nas igrejas no Brasil. A CNBB, por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, tem promovido encontros, seminários, palestras e lançado livros com o objetivo de “esclarecer e formar artistas e arquitetos que prestam serviço na construção e embelezamento das igrejas”.

 “A arte sacra como serviço litúrgico deve ser simbólica. Essa dimensão, às vezes, é de difícil compreensão, pois desde o Renascimento a arte passou a ser naturalista, ou seja, imita a natureza. O barroco dá ênfase aos sentimentos e emoções, leva ao devocionismo, por isso é arte religiosa, ou seja, retrata um tema religioso, mas não é arte litúrgica. No primeiro milênio, tivemos a arte paleocristã, a bizantina, a românica, que eram simbólicas”, concluiu.

Segundo Wilma, a arte litúrgica contemporânea se inspira na do primeiro milênio, época em que, nos mosaicos e afrescos, eram retratadas as Sagradas Escrituras em formas e cores, como é o caso do Santuário Nacional de Aparecida, projetado pelo artista Claudio Pastro, falecido em 2016, considerado o principal artista sacro brasileiro de seu tempo. “Essa é a melhor forma de catequese”, concluiu a professora.

JUBILEU DE 50 ANOS

Há 50 anos, Museu de Arte Sacra de São Paulo preserva o sagrado
Arquivo MAS/SP

 O museu está temporariamente fechado devido à pandemia do novo coronavírus. No entanto, segundo José Carlos Marçal de Barros, diretor-executivo do MAS/SP, toda a programação comemorativa do jubileu não será cancelada, mas adiada para 2021.

“Nós havíamos programado uma exposição que iria reunir o que temos de melhor no acervo, principalmente da arte barroca. Também dezenas de colecionadores particulares se dispuseram a emprestar peças das suas coleções pessoais. Nenhum espaço seria poupado nessa exposição”, disse Marçal à reportagem.

Por ocasião do jubileu de ouro, o museu lançou seu perfil na plataforma Google Arts & Culture, sendo a primeira e maior coleção de arte sacra das Américas no ambiente virtual.

PROJETOS FUTUROS

Marçal destacou, também, projetos que foram interrompidos devido à pandemia, como a iniciativa “Arte Sacra para Ver e Sentir”. Como os visitantes não podem tocar nas peças originais, o museu pensou em uma forma de as pessoas sentirem as obras de arte, principalmente os deficientes visuais.

“Nós fizemos réplicas de 100 peças do museu que, juntas, representam uma parte do acervo muito expressivo. Elas são feitas em 3D, da melhor tecnologia atual, e foram policromadas exatamente como as originais”, concluiu.

A exposição iniciou sua passagem pelo interior paulista e pretende continuar após a pandemia. Segundo o diretor, outra expectativa é expandir a parceria com o Metrô de São Paulo, para levar o projeto “Arte Sacra para Ver e Sentir” nas estações. O MAS/SP já possui uma sala na estação Tiradentes, onde ocorrem exposições temporárias.

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