Irmã Maria Nilza: ‘O nosso trabalho na comunicação deve ser movido pelo encontro pessoal com Cristo’

 Consagrada há 38 anos no Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt, Irmã Maria Nilza Pereira da Silva, 60, foi uma das palestrantes do evento Pascom em Ação, realizado no sábado, 26, na Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus.  

Irmã Maria Nilza: ‘O nosso trabalho na comunicação deve ser movido pelo encontro pessoal com Cristo’, Jornal O São Paulo

Jornalista e mestre em Filosofia da Linguagem, atualmente, ela é Coordenadora Nacional da Comunicação do Movimento Apostólico de Schoenstatt no Brasil, Consultora da Comunicação Internacional e Coordenadora da Equipe Internacional de Comunicação de seu Instituto.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, ela contou como iniciou seu trabalho com a comunicação, o que ela considera uma vocação a serviço da evangelização. Confira. 

O SÃO PAULO Como a senhora começou a trabalhar no campo da comunicação?

Irmã Maria Nilza Pereira da Silva – Eu sempre trabalhei com comunicação no Instituto, embora ainda não tivesse formação na área ou manifestado interesse por esse serviço. Porém, desde o início, me colocaram para colaborar na produção de publicações impressas do instituto. Até que comecei a coordenar o Secretariado da Campanha da Mãe Peregrina, que abrange 14 estados do Brasil e era também responsável pela publicação desse secretariado desde a editoração até o envio para as famílias. Como a tiragem dessa publicação era muito grande, 2 milhões, a legislação exigia na época que, a partir de uma determinada tiragem, era necessária a assinatura de um jornalista profissional. Então o Instituto me propôs estudar Jornalismo. Num primeiro momento me assustei, pois me perguntava se levava jeito para isso. Quando comecei a estudar, contudo, eu me dei conta que eu estava me profissionalizando em algo que sempre havia feito e me identifiquei com a comunicação. Portanto, foi por uma necessidade do Instituto que eu me tornei jornalista. Eu fiz Jornalismo quando a internet estava se popularizando. Eu sou da turma do ano 2000. 

A partir daí, nunca mais deixou a comunicação?

Nunca mais. Já durante o curso de Jornalismo eu percebi a necessidade de ter um site oficial da obra Schoenstatt. Eu sou da turma do ano 2000, quando a internet estava se popularizando e nós ainda não tínhamos nada na internet. Os assessores e superiores da obra ainda não percebiam a necessidade da presença on-line. Então, em 2003, eu montei site do movimento, que ainda não era oficial, mas tinha o apoio dos superiores da minha comunidade. Era um site da Mãe Peregrina, porém, já tinha a ideia de promover a comunhão da obra de Schoenstatt no Brasil. Isso foi crescendo e se tornando, de fato, uma referência internacional do movimento, mesmo sem ser oficial, até que os diretores da obra oficializaram. 

Em todos esses anos de experiência, a senhora consegue identificar o diferencial do fazer comunicação na Igreja? 

Em primeiro lugar, a comunicação católica, da Igreja, vem de um chamado de Deus. Portanto, nós a entendemos como uma vocação profissional a serviço da evangelização. Em segundo lugar, como comunicadora da Igreja, aquilo que comunico faz parte dos valores mais essenciais da minha própria vida, enquanto um comunicador de outra organização pode fazer comunicação institucional e não ser comprometido com os valores dessa instituição. Para nós, esse testemunho deveria ser muito natural, porque anunciamos algo que dá sentido para a nossa vida e que temos a certeza de que pode dar sentido para tantas outras vidas. Aquilo que nós comunicamos não se trata de uma informação apenas para a razão, para a venda de um produto, mas, sim, respostas para a busca do sentido da vida. Por isso, precisamos muito do Espírito Santo. 

Nesse sentido, o que o agente da comunicação católica deve cultivar em sua vida?  

O nosso trabalho na comunicação deve ser movido pelo encontro pessoal com Cristo, de onde tudo deve partir. Esse é o ideal, pois “a boca fala daquilo que o coração está cheio”. Para ser, de fato, um comunicador católico, é preciso dar espaço e tempo para si mesmo. Esse encontro pessoal com Cristo se dá na vida de oração, no conhecimento dos fundamentos da fé, pela Sagrada Escritura, os documentos da Igreja, a sua tradição e hierarquia, estando, portanto, em comunhão com a Igreja. Além disso, irradiamos tudo isso com muita qualidade. Daí vem o compromisso da missão em diálogo com o mundo, o que a escuta. Porque, se aquilo que vamos transbordar dará sentido à vida das pessoas, é preciso saber quem são essas pessoas e o mundo em que elas vivem, a mídia que consomem, as plataformas com que se comunicam. Não posso querer ajudar a responder aos anseios da pessoa, porém, usando métodos antiquados. É preciso fazer tudo isso também em diálogo com a tecnologia. 

Partindo da relação entre comunicação e comunhão, como a senhora vê o desafio de promover a comunhão e da unidade no campo das mídias? 

Diversidade de pensamentos e interpretações não é só do nosso tempo. Sempre existiu. Quando lemos sobre a vida de Jesus, vemos que ele entra em choque com fariseus, com outras linguagens judaicas da época. Então, haver diferenças não é negativo, é natural e positivo. Porque quando outra pessoa pensa diferente, isso enriquece o meu pensamento. Porém, é preciso que essas diferenças não sejam adversárias, mas, sim, complementares. Surpreende-me que justamente a internet permite que todos tenham voz, que todas as diferenças sejam contempladas, o que deveria gerar unidade, porém, isso forma bolhas fechadas que acabam lutando umas contra as outras. Na Igreja, isso é um contratestemunho. Na Igreja, a unidade deve ser, em primeiro lugar, com o Papa. Nós cremos que o Espírito Santo conduz a Igreja por meio do Santo Padre. Posso ter um pensamento ou opinião diferente da hierarquia… Porém, esse pensar diferente não pode colocar em postura de adversário. No lugar certo, com respeito e de modo certo, posso expor a minha opinião. Porém, o que vai prevalecer é a unidade com a legítima autoridade da Igreja.  

Como os comunicadores podem ser ‘artesãos de comunhão’ na Igreja?  

É nossa tarefa dialogar para conhecer, como diz o Papa, “ouvir com o coração” o que está por trás de uma crítica e procurar auxiliar quem a faz a encontrar respostas, porque, muitas vezes, aquilo que as pessoas criticam ou se opõem é por falta de conhecimento ou por uma interpretação diferente da realidade. Para isso, nem sempre é preciso publicar um longo artigo com grandes fundamentos em documentos. Às vezes, ajudamos as pessoas a encontrar respostas por meio de uma publicação que conte a história de vida de outra pessoa. 

Que mensagem a senhora deixa para os agentes da comunicação na Igreja? 

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a cada um. A comunicação na nossa Igreja é carregada por voluntários que se doam pela missão da Igreja. Que procurem atuar em comunhão com a Igreja. Nunca deixem em segundo plano a sua vida pessoal de oração e o vínculo com a sua família. Porque são essas relações com a oração e as pessoas mais próximas que nos fortalecem e formam o nosso testemunho. E, junto à vida de oração, comunhão sacramental e eclesial, aproximem-se de Maria. Ela é onde a Palavra divina se torna carne, deixa de ser teoria e se torna pessoa, encontro. Quanto cultivamos o amor a Nossa Senhora, ela nos humaniza. Maria coloca os nossos pés no chão e passa para nós a ternura. Por isso, ela é um meio para que a nossa comunicação nunca deixe de ser humana e não seja apenas técnica.  

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