Lavar os pés: atitude de verdadeira fraternidade, solicitude, cuidado uns dos outros

Arcebispo de São Paulo recordou o gesto de Jesus na última ceia, na missa que abre o Tríduo Pascal

Lavar os pés: atitude de verdadeira fraternidade, solicitude, cuidado uns dos outros
Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Durante a Missa da Ceia do Senhor, celebração que abre o Tríduo Pascal, na noite da quinta-feira, 14, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, repetiu o gesto de Jesus na última ceia, que levou os pés dos discípulos.

Este ano, na Catedral da Sé, o rito do lava-pés, que não aconteceu durante os últimos dois anos, devido às restrições da pandemia, destacou pessoas vinculadas ao mundo da educação – tema da Campanha da Fraternidade de 2022 –, representantes de outras pastorais e organizações eclesiais, além de agentes de profissionais da área da saúde, que se dedicaram no enfrentamento da pandemia da COVID-19.

Foram lavados os pés da educadora social Andreia Alves; o professor universitário João Clemente; da comunicadora Cidinha Fernandes; do casal Leniluce e Nilton Gomes; dos catequistas Nelson  Alayete e Priscila Ferreira; de Alice Souza, agente da Pastoral da Pessoa com Deficiência; do jovem Peterson Prates, membro das Comunidades Eclesiais de Base; de Andreia Sales, agente da Pastoral da Saúde; e do médico infectologista Jamal Suleiman. Além desses, o Cardeal Scherer lavou os pés de Walter Piekny, filho de ucranianos que representou todos os que sofrem com a atual guerra na Ucrânia.

“Lavar os pés era um gesto simbólico neste momento. Significava a atitude de colocar-se a serviço uns dos outros, atitude de verdadeira fraternidade, solicitude, cuidado uns dos outros, de ninguém pretender estar acima dos outros, mas de todos estarem uns pelos outros, como irmãos”, disse Dom Odilo, na homilia, lembrando, ainda que nesta atitude está o ensinamento de que aquele que quer ser o primeiro deve se colocar sempre a serviço, pois o próprio Cristo não veio para ser servido, mas para servir.

Educadores

Para Andreia Alves, Coordenadora do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, afirmou que trazia consigo “os educadores que, com a fé que possuem, nos espaços que ocupam, alimentam a esperança de uma vida melhor para os meninos e meninas”.

João Clemente refletiu sobre o fato de o lava-pés tem acontecido no contexto da instituição da Eucaristia. “Vivemos em uma sociedade que tem sede de Deus e, na Eucaristia vencíamos o máximo da experiência trinitária, na qual aprofundamos a fé, a busca da justiça e saciar a fome e sede que as pessoas têm. Diante de tanto sofrimento vivido pela sociedade, celebrar a Eucaristia é essencial. Não existe educação sem fraternidade, justiça e liberdade. Esse tripé brota da Eucaristia”, afirmou o professor universitário.

Peterson Prates representou as comunidades que cresceram e se multiplicaram na perspectiva da educação popular que, como o jovem ressaltou, brota da base das realidades da população e valoriza o desenvolvimento humano integral.

Comunicadora da rádio 9 de Julho, Cidinha Fernandes ressaltou a relação da comunicação com a educação. “A nossa missão, de certa forma, é também ensinar por meio do nosso trabalho de comunicadores. Temos a missão de levar a palavra de Cristo e as situações do dia a dia de forma mais serena, nunca se omitindo da realidade, sempre comprometidos com a verdade, mesmo que seja difícil”.

Catequistas

Nelson Alayete recordou que, recentemente, o Papa Francisco instituiu o serviço dos catequistas como um ministério da Igreja. Nesse sentido, para ele, participar do rito do lava-pés como representante desses ministros é um sinal da valorização dessa missão de “educar as crianças para o amor de Cristo”.

Já Priscila Camargo Nunes Ferreira vive sua primeira experiência como catequista de Crisma para adolescentes. “É um desafio grande levar a palavra de Deus para essa nova geração de adolescentes. Ao mesmo tempo, vemos que são pessoas que sentem o desejo de conhecer a Deus e a profundar a fé”, destacou.

Lavar os pés: atitude de verdadeira fraternidade, solicitude, cuidado uns dos outros
Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na linha de frente

Jamal Suleiman, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, estava bastante emocionado com o convite para participar do rito do lava-pés. “Meu coração está em festa com isso. Nunca imaginei participar da cerimônia dessa forma”, disse o infectologista, que se sentiu representando “algo transformador em um momento tão difícil da humanidade”.

O profissional da saúde acrescentou que o sentido de renovação próprio das celebrações pascais ajuda a compreender processo pelo qual a humanidade passou, após o sofrimento que ceifou muitas vidas, a esperança de que ninguém mais mossa por causa da COVID-19, graças ao desenvolvimento das vacinas que, embora tenham sido desenvolvidas por homens, é Deus quem age por meio dessas pessoas.  

Andreia Sales afirmou à reportagem que representava no lava-pés não apenas os agentes da pastoral da saúde, mas todas as famílias que perderam alguém para a COVID-19 e que foram atendidos por ela. “Durante a pandemia, eu fiz parte do acolhimento aos familiares enlutados e na equipe de cuidados paliativos. Portanto, para mim, é uma responsabilidade muito grande estar em nome de todas essas pessoas e agentes”, disse a agente de pastoral, salientando que, em certa medida, também se sentiu “lavando os pés” de muitas pessoas durante a pandemia.

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