Na estação do metrô, uma viagem pelas reflexões de pessoas em situação de rua sobre a pandemia

Textos que compõem o livro ‘Os desafios de uma pandemia: história que ninguém conta’ estão em exposição na estação São Paulo-Morumbi e foram escritos por acolhidos do Arsenal da Esperança

Mônica Zanon

Até 31 de outubro, quem passar pela Estação São Paulo- -Morumbi da Linha 4 – Amarela do Metrô pode prestigiar a exposição sobre o livro “Os desafios de uma pandemia: história que ninguém conta”, obra que reúne cartas, versos, prosas, contos, poemas e relatos de pessoas em situação de rua acolhidas pelo Arsenal da Esperança.

Os quase 70 textos que compõem o livro foram produzidos neste ano no âmbito do concurso literário que é promovido pelo Arsenal desde 2007.

“O concurso dá a possibilidade de essas pessoas [em acolhimento] se manifestarem e se comunicarem por meio de textos escritos, sejam poesias, sejam crônicas, entre outros”, resume o Padre Simone Bernardi, um dos responsáveis pela instituição.

A cada ano, um tema é escolhido para nortear as redações. Na recente edição, o assunto proposto foi sobre os desafios da pandemia do coronavírus.

Em 2020, o concurso não aconteceu justamente em razão da pandemia. Neste ano, foi resgatado com o apoio da jornalista Desirée Suslick, da fotógrafa Mônica Zanon e da psicanalista e empreendedora social Patrícia Strebinger. Elas participam de um projeto da comunidade judaica intitulado Mitzvah Day, que tem por objetivo fazer ações que beneficiem a sociedade, independentemente da religião.

“No Arsenal da Esperança, percebemos que havia uma possibilidade de fazer algo concreto que realmente atendesse à demanda da instituição, da população e a nossa também”, diz Desirée.

O trio ajudou a organizar e realizar o concurso, participando, inclusive, do júri da premiação.

Padre Simone afirmou que a condição de vida das pessoas em situação de rua não é algo que deva preocupar apenas aqueles na Igreja que atuam diretamente com elas, mas, sim, toda a sociedade: “Onde se cria um tecido de gente que colabora, é muito mais provável que se consiga ajudar alguém”. Para ele, a iniciativa “é uma força a mais para atender esse pessoal. Ganhamos isso. Além de uma possível amizade. Quando algo assim acontece, a palavra diálogo se torna concreta”, completou.

O Arsenal

Localizado nas instalações da antiga Hospedaria de Imigrantes, na região da Mooca, na zona Leste, o Arsenal da Esperança é uma casa que acolhe homens jovens e adultos em situação de vulnerabilidade.

A instituição, fundada em 1996 por iniciativa de Ernesto Olivero e Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, está aos cuidados da Fraternidade da Esperança – Sermig (Serviço Missionário da Juventude) e consegue acolher todos os dias até 1,2 mil pessoas. Os acolhidos encontram na casa um lugar para descansar, tomar banho e se alimentar. Entre outros serviços, podem ainda frequentar cursos profissionalizantes e a biblioteca criada e mantida por doações.

Do livro à exposição

Desirée conta que a ideia de transformar os textos em livro, inicialmente em um e-book, surgiu ao longo do concurso e é uma iniciativa das três amigas, independente do projeto Mitzvah Day. “Vimos o volume e a qualidade da construção das redações. Percebemos que não poderia ficar restrito a essa comunidade. Teria que ser levado para além das paredes do Arsenal, ainda mais neste momento em que a problemática das pessoas em situação de rua está mais escancarada”, comenta a jornalista.

Mônica Zanon

“Acreditamos que, por meio de um e-book e de uma exposição, podemos dar a oportunidade às pessoas de ouvirem a voz de quem faz parte dessa realidade e que passa a ter um rosto [por meio dos textos]”, acrescenta Desirée.

“Tenho certeza de que quem for ver a exposição ou quem ler o livro mudará o olhar quando enxergar pessoas em situação de rua. Passará a se preocupar com a história que está por trás, afinal, essas pessoas [em situação de rua] também têm sonhos, projetos e identidade”, enfatiza.

Além dos textos, a exposição conta com imagens captadas por Mônica. São registros de detalhes das expressões e corpos dos acolhidos. “Viemos com essa questão do detalhe porque queríamos dizer: essa pessoa tem esse olhar forte, essas mãos fortes, poderia ser qualquer um de nós”, diz Mônica. “O objetivo é que elas sejam vistas e escutadas. Que todos percebam que têm vida e voz”, complementa.

A fotógrafa destaca que, embora as fotos tenham sido feitas com acolhidos do Arsenal, não necessariamente correspondem ao autor do texto que ilustram. Por fim, ela lembra que cada acolhido tem muito a compartilhar: “Às vezes, essa pessoa só precisa ser escutada”.

Concurso

“Foi a oportunidade de colocar no papel, aquilo que eu estava sentindo”, conta Milton P., que ficou em segundo lugar na premiação.

Milton é acolhido no Arsenal há cerca de quatro meses e afirma que se sentiu aliviado quando entregou a redação. “Foi um desabafo que fiz. Não tinha interesse em ganhar prêmio. Meu desejo era falar aquilo que eu não via em reportagem televisiva.”

Quando questionado como se sente ao escrever, Milton foi direto. “Me sinto gente.”

“Espero que [as pessoas] tenham satisfação em ler [meu texto]. Porque, muitas vezes, você pega algo para ler e está escrito aquilo que gostaria de dizer. É isso que eu quero. Que ao ler meu texto as pessoas digam: ‘Esse cara adivinhou o que eu estava pensando’”, expõe.

Padre Simone avalia que retomar as atividades com uma iniciativa cultural, após um período que foi preciso interromper muitas ações para conseguir manter o básico, foi como “colocar um balde de água no meio do deserto”.

“Eles têm fome e sede disso também. Sentar lá, escrever um texto, participar de uma cerimônia de premiação e receber um certificado. Tudo isso dá ânimo”, frisa o Sacerdote. “Se as pessoas que ficaram dentro de um apartamento se deprimiram, imagina uma pessoa que está sem nada e vê que até aquele pouco que tinha começou a desaparecer. Retomar foi como levantar uma bandeira de ‘estamos vivos’.”

Lançamento do livro

O lançamento do livro ocorrerá em novembro, em data a ser anunciada. No entanto, a pré-venda começou de modo on-line, nas versões e-book e impressa. Pedidos podem ser feitos por este link: https://cutt.ly/FRk1gKG.

Todo valor arrecadado será revertido para as atividades do Arsenal e para a construção de trailers de banho itinerantes, do projeto Banho da Esperança.

A exposição passará por outras estações do Metrô: em dezembro, na Paulista (da Linha 4 – Amarela); em janeiro, na Santa Cruz (Linha 1 – Azul), e em fevereiro, na Largo Treze (Linha 5 – Lilás).

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