Na terra do descarte e da morte

(Foto: Vatican Media)

São João Paulo II, na encíclica Evangelium vitae (EV, 21), mostrou que o problema do aborto residia não apenas num ato isolado, realizado num momento de desespero, mas numa visão de mundo que abarcava todas as relações sociais: a cultura da morte.

Em nossa sociedade, analisava o Papa, quando o sentido de Deus foi perdido, também a percepção da dignidade da pessoa humana se viu obliterada. Em tese, nunca se valorizou tanto a dignidade e a universalidade da pessoa como em nossos tempos, mas a compreensão do que é ser pessoa foi reduzida. Só os que têm força para produzir, defender-se ou gozar a vida têm sua dignidade reconhecida. A criança ainda não nascida, o ancião no fim da vida, o paciente terminal, destituídos dessas capacidades, não têm a dignidade reconhecida.

Com os avanços da biologia, não pode haver objeção ao fato de que, na concepção, quando os gametas masculino e feminino se unem, forma-se um novo ser humano, uma nova vida, inclusive com um código genético diferente daquele de seus pais.

O verdadeiro debate é sobre a dignidaquele ser humano recém-formado. Os defensores “da vida” reconhecem já ali uma pessoa humana com plenos direitos. Os defensores “do direito de escolha” querem que aquele ser humano seja entendido apenas como um amontoado de novas células humanas, sem dignidade ou direitos, sujeito à escolha de outros.

A cultura da morte é uma negação do princípio da dignidade universal e inviolável da pessoa humana. Só aqueles que são produtivos ou desejados têm sua dignidade reconhecida. Os frágeis e indesejados podem, segundo essa lógica, ser eliminados.

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Longe de qualquer discussão confessional, a constatação da universalidade dos direitos humanos exige que se reconheça que aquele nascituro já tem direito à vida.

Uma plena compreensão do amor se torna impossível na cultura da morte. O amor atinge sua plenitude na doação gratuita de si a outro, algo que nunca poderá ser alcançado numa relação na qual se sujeita a vida do outro à sua vontade. Assim, a cultura da morte vai determinando um modo de se relacionar com toda a realidade.

Mesmo que usando uma palavra aparentemente menos forte, Francisco amplia nossa percepção da cultura da morte ao chamá-la de cultura do descarte, acenada na exortação apostólica Evangelli gaudium (EG, 53 e 195), explicadas nas encíclicas Laudato si’ (LS, 20-22 e 123) e Fratelli tutti (FT, 18-24). Numa época em que a sociedade se preocupa com o meio ambiente, quer evitar o desperdício e a geração de resíduos, o próprio ser humano passa a ser visto como um produto descartável, condenado ao esquecimento, à exclusão e à morte quando não interessa (LS, 120).

Francisco mostra como a cultura da morte se torna mentalidade cotidiana, atitude frente a coisas e pessoas. Sem o reconhecimento da dignidade original à qual todo ser humano tem direito, não há limite claro entre o lícito e o ilícito. Nosso voluntarismo passa a ser o critério último para todas as coisas. A mesma sociedade que defende o meio ambiente é aquela que mais polui. A mesma sociedade que exalta os direitos humanos é aquela que deixa refugiados morrerem, crianças famintas, velhos solitários à mingua.

Como enfrentar tal situação? Denunciar o erro e defender uma legislação que proteja a vida são passos irrenunciáveis nesse enfrentamento (EV, 68). Contudo, é necessário mais. Já na Evangelium vitae (EV, 88-90), São João Paulo II exorta-nos a realizar obras de acolhida a grávidas em dificuldades, casais que necessitam de orientação, idosos etc.

Bento XVI falava em superar o medo, com o reconhecimento da beleza da vida e a força da esperança.

Francisco exorta a “cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas [… com] força e ternura, luta e fecundidade, no meio de um modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à cultura do descarte” (FT, 188). Lembra, ainda, que “para muitos cristãos, este caminho de fraternidade tem também uma Mãe, chamada Maria. Ela recebeu junto à Cruz esta maternidade universal (cf. Jo 19,26) e cuida não só de Jesus, mas também do resto da sua descendência (cf. Ap 12,17). Com o poder do Ressuscitado, Ela quer dar à luz um mundo novo, onde todos sejamos irmãos, onde haja lugar para cada descartado das nossas sociedades, onde resplandeçam a justiça e a paz” (FT, 278).

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