‘O jornalismo deve olhar para a vida real’, diz Dom Odilo em live da Pastoral da Comunicação

No encontro virtual, o Cardeal trouxe reflexões sobre a mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais e respondeu a dúvidas relacionadas à atuação da Pascom

Cardeal Scherer durante live pelo Dia Mundial das Comunicações Sociais

Na tarde de sábado, 15, o Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, se encontrou virtualmente com padres e leigos representantes da Pastoral da Comunicação (Pascom) das seis regiões episcopais da Arquidiocese de São Paulo.

A live, que ocorreu na véspera do domingo da Ascensão do Senhor, foi transmitida pelo YouTube e Facebook da Arquidiocese e teve como foco a mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais, neste ano celebrado em 16 de maio.

Com o tema “Vem e verás”, extraído do Evangelho de João (Jo 1,46), a mensagem do Pontífice reflete sobre alguns princípios do jornalismo e tem por lema “Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são”.

LEIA A ÍNTEGRA DA MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 55° DIA DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

O encontro virtual, mediado pelo Assessor Eclesiástico da Pascom Arquidiocesana, Padre Luiz Claudio Braga, foi prestigiado pelo Coordenador da Pascom do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Padre Tiago Barbosa.

Padre Luiz Claudio, Assessor Eclesiástico Arquidiocesano da Pastoral da Comunicação

Oração para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Dom Odilo abriu o encontro convidando a todos para rezar a oração que consta no término da mensagem do Santo Papa para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que diz o seguinte:

“Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos, e partir à procura da verdade. Ensinai-nos a ir e ver, ensinai-nos a ouvir, a não cultivar preconceitos, a não tirar conclusões precipitadas. Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém, a reservar tempo para compreender, a prestar atenção ao essencial, a não nos distrairmos com o supérfluo, a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade. Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo e a honestidade de contar o que vimos.”

Meios de comunicação no anúncio do Evangelho

O Cardeal iniciou a partilha de suas reflexões lembrando que Jesus, ao dizer aos discípulos para ir e proclamar o Evangelho, não usou nenhum meio de comunicação disponível naquele tempo – o discurso, a poesia ou o teatro. Ele, por sua própria pessoa, fez isso diretamente.

No entanto, Dom Odilo também frisou que Jesus não exclui o uso de nenhum meio de comunicação para anunciar e proclamar a Boa-Nova do Reino de Deus.

“Os ambientes de comunicação hoje são tantos e tão variados que temos possibilidades enormes de realizar o que Jesus pediu”, disse o Cardeal. “Esse Dia Mundial das Comunicações existe justamente para estimular a Igreja a fazer melhor uso da comunicação em função de sua missão, o anúncio do Evangelho.”

Ir ao encontro dos fatos

Passando para o tema da mensagem do Papa, “Vem e verás”, o Arcebispo explicou que esse texto de Jesus aplicado ao mundo da comunicação é “um convite aos comunicadores para se aproximarem dos fatos e das pessoas, fazendo, assim, comunicação com base na verdade e na realidade vista, testemunhada e acompanhada de perto”.  

Dom Odilo continuou e mencionou a crítica feita pelo Pontífice à “imprensa fotocópia”, presente nos dias de hoje e que não parte mais dos fatos. “Praticamente, se você ler um jornal, leu tudo. Porque um vai repetindo o que o outro já disse. Fica-se na superfície e se perde a oportunidade de entrar em contato com os acontecimentos e de experimentar, em primeira pessoa, o que se quer noticiar.”

O Cardeal alertou que, nessa realidade, à qual o próprio Papa intitula em sua mensagem como “autorreferencial”, há a criação de narrativas fantasiosas e que são espalhadas, sobretudo, nas mídias sociais. “Em cima de um fato é possível criar narrativas descoladas da realidade. Narrativas que propositadamente criam factoides e que são passadas para frente, reafirmando mentiras”, enfatizou o Arcebispo.

“Por isso, o Papa convida na mensagem o comunicador a gastar as solas dos sapatos e ser testemunha dos fatos. Para não ser simplesmente o repassador de notícias ouvidas”, reforçou Dom Odilo.

Ainda sobre esse ponto, o Arcebispo advertiu que embora, hoje, exista no jornalismo uma dependência das agências de notícias, é preciso lembrar que elas são orientadas por um filtro que atende aos interesses dos proprietários e que, portanto, “passam as coisas de acordo com um olhar, que nem sempre é o da objetividade”.

Dom Odilo afirmou que essa realidade potencializa a importância de o jornalista ir a campo checar “as coisas como elas são e como não são”, assim como fez Natanael, na passagem do Evangelho, ao aceitar o convite de Filipe para conhecer Jesus, que o deixou impactado.

Missão da Pascom

Salientando a função evangelizadora da Pascom, Dom Odilo destacou que seu papel pastoral é “estimular e ajudar as pessoas a se interessar, a dar um passo a mais, a conhecer o fato pessoalmente, a fazer uma experiência”, assim como Filipe fez com Natanael.

“Neste momento, temos [na Arquidiocese] a campanha de combate à fome. Assim, a Pastoral da Comunicação, ao tratar disso, precisa impactar de maneira a ajudar as pessoas a pensar: ‘Eu preciso e posso fazer minha parte também’”, exemplificou o Cardeal.

Ao falar sobre o agradecimento do Papa aos comunicadores que se esforçam para testemunhar e noticiar a realidade de minorias perseguidas em várias partes do mundo, o Arcebispo fez uma provocação a todos os que acompanhavam a live perguntando quem, ao longo do dia, havia lido alguma notícia sobre a África ou quem sabia como estava a vacinação contra a COVID-19 no continente africano.

“Os holofotes das notícias estão sobre alguns conflitos e áreas de interesse da finança”, ilustrou Dom Odilo evidenciando que a África tem muitos dramas esquecidos.

O Cardeal continuou explanando sobre esse cenário de exclusão no qual os povos não são lembrados pelas notícias e orientou que “o jornalismo no sentido pastoral, embora possa contar alegrias, também deve olhar para a vida real que acontece ao redor e que ninguém dá atenção”.

Dom Odilo expôs ainda que, por meio da notícia, é possível promover a atenção e solidariedade aos oprimidos, ainda mais neste tempo de pandemia. “Dar voz a quem já está no palco brilhando é fácil. Dar atenção e importância aos que não têm voz, aos esquecidos que estão lutando e sofrendo sozinhos é nossa missão”, pontuou.

Comunicação nos dias de hoje

Dando sequência às suas reflexões, Dom Odilo discorreu sobre o grande volume de comunicação dos tempos atuais em decorrência dos diversos meios tecnológicos que, embora sejam “maravilhosos, podem colocar todos diante de uma série de riscos” e, até mesmo, “podem ser usados contra a paz e a boa convivência entre as pessoas”.

Como exemplo, o Cardeal citou o risco de manipulação das mídias sociais, destacando o acesso à tecnologia que facilita com que todos possam se tornar comunicadores. Lembrou ainda do “banal narcisismo” mencionado pelo Pontífice em sua mensagem, e do perigo de as pessoas se fecharem em grupos de iguais nos quais escutam o que querem.

“Nesses grupos, as pessoas se sentem confortáveis. Neles não se confronta e nem se aprofunda uma reflexão que conduza ao senso crítico diante das coisas”, refletiu Dom Odilo.

Retomando as orientações contidas na mensagem do Papa, o Arcebispo elucidou porque nada substitui o ver pessoalmente. “O ‘Vem e verás’ deve se transformar, justamente, na experiência pessoal de testemunha dos fatos. Porque testemunha é quem esteve presente e pode, então, comunicar as coisas a partir de uma verdade percebida pessoalmente”, assinalou o Cardeal.

Dom Odilo falou ainda sobre o cuidado para não se produzir um discurso vazio, que nada comunica. “O Papa nos previne que devemos sempre publicar a verdade com amor e para a edificação. Nunca como arma de agressão. A verdade, se for preciso, para correção, mas não para a destruição.”

Usando o mesmo exemplo do Pontífice, o Cardeal relembrou que São Paulo foi um “comunicador fantástico” que, se estivesse vivo hoje, certamente usaria todas as mídias conhecidas. No entanto, mais do que sua capacidade de falar, o que realmente impactou em sua comunicação não foi o meio utilizado, mas sim “sua fé, o seu testemunho pessoal de adesão a Jesus Cristo e seu amor ao Evangelho”.

Participante do encontro realiza pergunta ao Cardeal Scherer

Sanando dúvidas

Na segunda parte da live, o Arcebispo se dedicou a responder às perguntas feitas pelos representantes das regiões episcopais.

Ao responder o representante da Região Belém, Fernando Arthur, da Paróquia São José do Belém, sobre a importância da transmissão das celebrações neste momento de pandemia, Dom Odilo enfatizou que a COVID-19 exigiu uma reformatação de todo o trabalho pastoral e que, por isso as transmissões “estão servindo de alguma forma como socorro a uma situação. Porém, descobrimos que, além disso, é também uma forma de fazer [a evangelização] e que vai continuar”, assegurou o Cardeal.

Sobre como a Pascom pode auxiliar no retorno presencial gradativo das missas e demais momentos de oração das comunidades, dúvida também vinda da Região Belém, o Arcebispo esclareceu que “depois da pandemia, haverá um grande trabalho da Pascom para ajustar as coisas, de maneira que o presencial e o virtual caminhem juntos, pois um não substitui o outro”, alegou Dom Odilo, enfatizando que é preciso  trabalhar nisso  para  “manter viva a consciência de que a fé católica não dispensa a expressão presencial”.

Questionado pela Região Lapa, representada por Mariana, da Paróquia São José Operário do Rio Pequeno, sobre como as ações caritativas das paróquias da Arquidiocese podem se tornar testemunhas reais do “Vem e verás”, Dom Odilo destacou a importância do papel da Pastoral da Comunicação.

 “Nem todo mundo tem consciência da situação de pobreza e de fome que existe por aí. Ainda mais neste tempo de distanciamento social. É preciso mostrar essa realidade. Vem e verás”, salientou o Cardeal, acrescentando que, estando esses relatos na mídia, as pessoas perceberão mais facilmente os dramas do próximo.

Partindo dessa realidade, o Arcebispo encorajou os comunicadores da Pascom a conversarem com pessoas nas filas onde se distribui cestas básicas, nas obras sociais e caritativas e, também, para que ouçam familiares dos doentes. Para que, assim, passem a contar essas histórias. “Sua comunicação da realidade será um convite para outros. Isso é uma forma de ajudar as pessoas. O povo é muito generoso e aberto a ajudar o próximo. Os apelos bem fundamentados são correspondidos”, compartilhou o Cardeal.

O Arcebispo concluiu sua resposta aconselhando que os comunicadores mostrem a realidade com simplicidade, verdade e empatia. “Para que as pessoas tenham a possibilidade de se sentir convidadas a também fazer a sua parte, a ir ao encontro dos necessitados, doentes, enlutados e das pessoas que sofrem.”

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