O Papa às famílias: criar redes para combater as chagas da pornografia e da barriga de aluguel

Francisco recebeu em audiência a Federação das Associações de Famílias Católicas na Europa que celebra seus 25 anos de fundação e agradece pelo acolhimento dos refugiados ucranianos: “Trabalhar pela paz, focar no que une e não no que divide”. Em seguida, ele adverte: “Ter filhos nunca deve ser considerado uma falta de responsabilidade para com a criação”.

Vatican media

O Papa Francisco recebeu em audiência, na Sala Clementina, no Vaticano, nesta sexta-feira (10/06), os membros da Federação das Associações de Famílias Católicas na Europa, por ocasião de seus 25 anos de fundação.

Segundo o Pontífice, a Europa e as famílias na Europa, “vivem um momento que para muitos é trágico e para todos é dramático por causa da guerra na Ucrânia”. “Mães e pais, independentemente de sua nacionalidade, não querem guerra. A família é a escola da paz”, disse o Papa, citando um trecho da declaração do organismo. “Famílias e redes de famílias estiveram e estão na vanguarda do acolhimento de refugiados, especialmente na Lituânia, Polônia e Hungria”, lembrou Francisco.

Em seu compromisso cotidiano com as famílias, vocês realizam um serviço duplo: vocês levam sua voz para as instituições europeias e trabalham para formar redes de famílias em toda a Europa. Esta missão está em total consonância com o caminho sinodal que estamos vivendo, a fim de que a Igreja se torne mais família de famílias.

O Papa agradeceu pelo seminário organizado em colaboração com o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, “focado em testemunhar a beleza da família”, que antecipando de alguns dias o Encontro Mundial de Famílias, “chama a atenção para a escassez de nascimentos na Europa e especialmente na Itália”.

Francisco encorajou os membros da Federação das Associações de Famílias Católicas na Europa “a continuarem seu trabalho em prol do nascimento e da consolidação das redes de famílias. É um serviço precioso, pois há necessidade de lugares, encontros, comunidades em que casais e famílias se sintam acolhidos, acompanhados, nunca sozinhos. É urgente que as Igrejas locais, na Europa e fora dela, se abram para a ação dos leigos e das famílias que acompanham as famílias”.

Segundo o Papa, “hoje vivemos não só uma época de mudanças, mas uma mudança de época. O seu trabalho se realiza nesta mudança, que às vezes pode provocar o risco de desânimo. Mas, com a graça de Deus, somos chamados a trabalhar com esperança e confiança, em comunhão com a Igreja”.

Os desafios são grandes e todos estão interligados. Por exemplo, “não podemos falar de desenvolvimento sustentável sem solidariedade entre as gerações”, e essa solidariedade pressupõe um equilíbrio; mas falta hoje esse equilíbrio na nossa Europa. Uma Europa envelhecia que não é generativa é uma Europa que não pode falar de sustentabilidade e encontra cada vez mais dificuldade em ser solidária. Por isso, vocês muitas vezes enfatizaram que as políticas familiares não devem ser consideradas como instrumentos do poder dos Estados, mas são fundadas no interesse das próprias famílias. Os Estados têm a tarefa de eliminar obstáculos à generatividade das famílias e reconhecer que a família é um bem comum a ser recompensado, com consequências naturais positivas para todos.

O Papa recorda que «ter filhos não deve ser considerado uma falta de responsabilidade para com a criação ou seus recursos naturais. O conceito de “impressão ecológica” não pode ser aplicado às crianças, pois elas são um recurso indispensável para o futuro. Em vez disso, o consumismo e o individualismo devem ser abordados, olhando as famílias como o melhor exemplo de otimização de recursos».  

A propósito da chaga da pornografia, difundido na internet, Francisco disse “que deve ser denunciado como um ataque permanente à dignidade do homem e da mulher”.

Não se trata apenas de proteger as crianças – uma tarefa urgente das autoridades e de todos nós – mas também de declarar a pornografia como uma ameaça à saúde pública. “Seria uma grande ilusão pensar que numa sociedade em que o consumo anormal de sexo na rede é desenfreado entre adultos seja capaz de proteger efetivamente os menores”. As redes de famílias, em cooperação com escolas e comunidades locais, são essenciais para prevenir e combater essa chaga, curando as feridas de quem está no vórtice do vício.

“A dignidade do homem e da mulher também está ameaçada pela prática desumana e cada vez mais difundida da “barriga de aluguel”, em que as mulheres, quase sempre pobres, são exploradas, e as crianças são tratadas como mercadorias”, disse ainda o Pontífice.

Segundo o Papa, a Federação das Associações de Famílias Católicas na Europa tem “a responsabilidade de testemunhar a unidade e trabalhar pela paz, neste momento histórico em que, infelizmente, há muitas ameaças e é necessário focar no que une e não no que divide”. A este respeito, Francisco agradeceu aos membros do organismo, “pois nos últimos cinco anos a Federação acolheu dez novas organizações familiares e quatro novos países europeus, incluindo a Ucrânia”.

Por fim, o Papa ressaltou que “a pandemia destacou outra pandemia mais oculta, da qual pouco se fala: a pandemia da solidão”.

Se muitas famílias se redescobriram como Igrejas domésticas, também é verdade que muitas famílias experimentaram a solidão, e sua relação com os Sacramentos muitas vezes se tornou puramente virtual. As redes de famílias são um antídoto contra a solidão. Na verdade, por sua natureza, elas são chamadas a não deixar ninguém para trás, em comunhão com os pastores e as Igrejas locais.

“A família fundada no matrimônio está no centro. É a primeira célula de nossas comunidades e deve ser reconhecida como tal, em sua função generativa, única e indispensável. Não porque seja uma entidade ideal e perfeita, não porque seja um modelo ideológico, mas porque representa o lugar natural das primeiras relações e da geração: «Quando a família acolhe e vai ao encontro dos outros, especialmente dos pobres e abandonados, é símbolo, testemunha e participação na maternidade da Igreja»”, concluiu o Papa.

Mariangela Jaguraba – Vatican News

Deixe um comentário