O que as crianças podem ensinar sobre Jesus e o Reino de Deus?

Luciney Martins/O SÃO PAULO

No dia 12, comemora-se o Dia da Criança, data que, muito mais que o acento comercial dos presentes, é ocasião para refletir sobre o valor da infância, seus direitos, proteção e cuidado.

As crianças são apresentadas por Jesus Cristo como modelo a ser imitado na busca pela vida eterna, quando afirma: “Digo-lhes a verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança nunca entrará nele” (Lc 18,17).

Essa afirmação de Jesus foi uma das motivações que levaram Jair Militão da Silva a escrever o livro “Sobre Jesus e o Reino de Deus: O que podemos aprender com as crianças”, publicado pela Companhia Ilimitada, em 2017.

Pedagogo, mestre em Filosofia, doutor e livre-docente em Educação, além de avô de quatro netos, Silva, que é católico, teve muito contato e diálogo com estudiosos do desenvolvimento infantil em ambientes acadêmicos, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Academia Paulista de Educação (APE).

No entanto, ele sentia a motivação de encontrar uma forma de “anunciar a Boa-Notícia da vida eterna” para esses intelectuais a partir do objeto de estudo e reflexão próprio de sua área.

Então, o pedagogo buscou identificar nas crianças elementos que ajudam a compreender o convite feito por Cristo e enumerou algumas características.

Aberta a apreender

A primeira constatação do autor é que a criança depende totalmente dos adultos para sobreviver, e está aberta para deles aprender. “Nós não nos damos conta do quanto dependemos de Deus. Nós não nos damos a própria vida, o ar que respiramos… Penso que Jesus quis nos dizer que também temos um Pai provedor, previdente, que cuida de nós. Somos filhos de Deus. Com essa identidade, muda muito a visão que podemos ter da realidade: não ter medo, mas esperança e certeza de que Alguém cuida de nós.”

Outra característica marcante das crianças é que elas sempre confiam em quem lhes ensina e comparam o que lhes ensina com a sua experiência pessoal. “É muito conhecido por pais e mães o diálogo a seguir reproduzido de situações concretas: ‘Filho, põe a blusa, pois está frio!’. ‘Mas mãe, eu não estou com frio!’, ou ainda, ‘Come um pouco mais para não ficar com fome mais tarde!’. ‘Não, obrigado, pois já estou satisfeito!’”, exemplificou o autor, destacando que o bom educador convida, sempre que isso for possível, o educando a avaliar, com base em sua própria experiência, aquilo que lhe propõe. “Assim, o educando é também sujeito de sua própria educação”, completou.

Sinceridade

Os adultos também podem aprender que as crianças sempre se expressam com sinceridade, que, em muitos ambientes adultos, pode ser considerada inadequada. Contudo, devem ser vistas como uma qualidade.

“Os manuais de lógica dizem que ‘verdade moral é a compatibilidade do que se diz com o que se pensa’. Diante disso, Jesus disse: ‘Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do maligno’ (Mt 5,37)”, observou.

O pedagogo também destacou que a criança, quando sofre, não esconde seu sofrimento e pede ajuda, se fazendo notar o mais possível. “Muitas vezes, os adultos não se dão conta de que realmente a criança sofre e não a atendem. Todavia, sempre se deve levar em conta o pedido de atenção da criança”, disse.

Persistência

De igual modo, as crianças persistem em seus objetivos. Sobre isso, Silva sublinhou que essa persistência não é motivada pela própria força, mas confia no convencimento de que o adulto pode atendê-las. Essa pode ser uma boa referência para a maneira como se dirigir a Deus Pai em oração. “Aqui, mais uma vez, torna-se interessante ouvir o que diz Jesus: ‘Até agora, nada pedistes em meu nome, pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa’” (Jo 16,24), comentou Silva.

As crianças também ensinam quando, por exemplo, pedem sempre para ver de novo o mesmo filme ou para repetir a brincadeira de que mais gostam. De acordo com o autor, isso mostra que elas parecem estar mais voltadas para a contem plação, para o usufruir da beleza que lhes apresenta o filme ou a brincadeira. “Aprender a admirar, contemplar, poderá levar a nós, adultos, a um novo olhar sobre a realidade, acalmando nosso ser e recuperando nossas energias”, observou.

Fé, esperança e caridade

O livro mostra, ainda, que, ao observar os pequenos, é possível também aprender muito sobre as virtude da fé, esperança e caridade. “A criança vive com fé no adulto, com esperança de que será atendida e responde com gestos de caridade quando se sente amada… É aberta para um presente vivido na ação e na contemplação e para um futuro possível”, afirmou Silva.

A última característica que o autor recordou é que a criança não é perfeita, mas sempre boa. “Como ser humano, está disponível para manifestar comportamentos solidários ou egoístas. Todavia, é sempre aberta à bondade”.

Por fim, Silva ressaltou que manter uma identidade de criança, no sentido explicitado por Jesus, pede a existência de um ambiente humano que possa ser frequentado pela pessoa de modo a garantir e manter uma identidade capaz de se contrapor aos exageros das organizações burocráticas.

O autor conclui sua reflexão com uma frase do escritor indiano Rabindranath Tagore (1861- 1941): “Cada criança que nasce é uma prova de que Deus ainda não perdeu as esperanças em relação à humanidade”.

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