‘O que eu mais quero é paz no mundo e, sobretudo, paz na Ucrânia’

Afirmou a cantora ucraniana Nataliya, integrante do coro da Catedral de Kiev, que veio ao Brasil como refugiada da guerra e, atualmente, integra o coro da Catedral Metropolitana de São Paulo.

‘O que eu mais quero é paz no mundo e, sobretudo, paz na Ucrânia’, Jornal O São Paulo
Luciney Martins/O SÃO PAULO

Há quase dois meses, o mundo acompanha as notícias sobre a invasão da Rússia à Ucrânia – uma guerra que vem causando uma série de destruições, mortes e, sobretudo, uma avalanche de refugiados.

Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), aproximadamente 5 milhões de pessoas já fugiram da Ucrânia, e esse número continua aumentando com os constantes ataques russos às cidades ucranianas. Essa já é considerada uma das maiores migrações forçadas da história.

A cantora ucraniana Nataliya, que prefere não ter seu sobrenome identificado, faz parte desse crescente número de deslocamentos forçados. Ela chegou ao Brasil no início de março em busca de segurança e na esperança de prosseguir fazendo o que mais ama: cantar.

DEIXAR TUDO

Nataliya é natural de Zaporizhzhya, na Ucrânia, e há dez anos se mudou para a capital daquele país, Kiev. Lá, atuou profissionalmente como treinadora esportiva e solista no coro da Catedral de Santa Sofia.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Nataliya contou que, antes mesmo do início dos ataques, milhares de ucranianos começaram a deixar o país ou pelo menos garantir os suprimentos necessários para se abrigar em algum lugar mais seguro.

“É triste ver tudo à sua volta destruído, o barulho das explosões dos mísseis, das sirenes tocando para a população se proteger, são inesquecíveis e dolorosos”, afirmou, mostrando-se ainda impactada pelo que viu e ouviu em sua pátria.

Em meio ao cenário de bombardeios e a saída em massa da população, a jovem decidiu deixar tudo em Kiev, em busca de segurança e proteção. “As vias de acesso – ônibus, trens e rotas de fuga – ficaram intransitáveis”, disse. “Não pensei para qual país ou lugar fugir, somente queria sair da zona de conflito em busca de segurança.”

A Polônia é um dos principais polos de acolhida dos ucranianos neste momento de guerra. “Consegui pegar um trem de evacuação superlotado com destino a Varsóvia, na Polônia. Foi uma viagem embalada pelo desespero, pela tristeza, pela fome e pela sede”, explicou, afirmando que permaneceu em solo polonês por duas semanas.

“A generosidade e solidariedade dos poloneses é impressionante. Nos dias que passei lá, os voluntários garantiram hospedagem, alimentação, água, itens de higiene e, o mais importante, a acolhida e a fraternidade humana”, disse, destacando que os brasileiros, também, são um povo hospitaleiro e alegre.

VINDA AO BRASIL

Da Polônia, a convite de amigos brasileiros que a música lhe apresentou, decidiu partir para o Brasil, aqui chegando no início de março. “Tudo é novo – o idioma, a cultura, a comida. Estou estudando português”, contou feliz, ressaltando que há poucos dias conseguiu o visto de residência humanitária para a permanência no Brasil.

Uma portaria conjunta entre o Ministério da Justiça e o Ministério das Relações Exteriores, publicada em 3 de março e que vigorará até 31 de agosto, favorece o visto temporário para acolhida humanitária com prazo de validade de 180 dias e pode ser solicitado antes de o migrante de guerra chegar ao Brasil. Para isso, basta que ele entre em contato com uma embaixada brasileira no exterior.

Nataliya contou que seu pai e seus irmãos ainda permanecem na Ucrânia. Homens ucranianos de 18 a 60 anos foram obrigados a ficar no país e ajudar na resistência. “Eles não estão lutando na linha de frente, mas podem ser convocados a qualquer momento se for necessário. Todos os dias nos comunicamos. Tenho a esperança de que, em breve, nos reencontraremos todos”, completou.

ACOLHIDA E ESPERANÇA

Em solo brasileiro, Nataliya participou no dia 25 de março, na Catedral da Sé, do ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, pedido do Papa Francisco, para o mundo se unir em oração pela paz.

Na ocasião, o coral São Paulo Schola Cantorum apresentou duas peças da Liturgia Bizantina em ucraniano. Nataliya participou do ato religioso juntamente com representantes diplomáticos do Consulado Ucraniano no Brasil e se sentiu acolhida e representada na celebração com esse gesto. “Foi um momento de emoção e fé. Senti que somos irmãos, independentemente da nacionalidade”, enfatizou.

A solista mencionou a felicidade com o convite em participar do coral nas celebrações da Semana Santa e do Tríduo Pascal na Sé. “No Domingo de Ramos, o Cardeal Scherer, em gesto de acolhida, entregou-me um pequeno círio pascal, como sinal de esperança da ressurreição e da paz para o meu povo. Foi emocionante”, afirmou.

Delphim Rezende Porto, maestro do São Paulo Schola Cantorum, falou sobre a presença da Nataliya como membro do coral. “A música nos une. Acolher é nossa missão como cristãos. Que alegria poder acolher e aprender com as novas culturas”, disse, recordando sua experiência como estrangeira no período do doutorado nos Estados Unidos e a passagem bíblica (Mt 25,36-46), em que Jesus se fez estrangeiro.

TRAJETÓRIA NA MÚSICA

Quando perguntada sobre a paixão pela música, Nataliya contou que essa vem da influência musical familiar. “Minha bisavó e avó cantavam no coro da igreja. Meu avô tocava piano, meu pai tocava guitarra e piano e, ainda, na infância despertei para a música e pelo som dos instrumentos”, disse.

Em 2013, começou a cantar como solista na Catedral de Santa Sofia, em Kiev. “No coral ucraniano, fazia a voz contralto e soprano. Cantar me aproxima de Deus”, disse, afirmando que gosta de cantar músicas clássicas e eruditas e revelou que no Brasil se encantou com a Música Popular Brasileira e com a música sertaneja.

PLANOS FUTUROS

A cantora revelou à reportagem que nunca imaginou ter que deixar seu país por causa de uma guerra, mas que busca reunir forças para prosseguir com fé e coragem, mesmo distante de sua família. “Amo a Ucrânia, meu país, com todas as carências e valores. Que povo batalhador e corajoso”, frisou.

Seu maior sonho, interrompido pela guerra, é continuar estudando Música. “Quero, muito em breve, no Brasil ou já de volta ao meu país, estudar canto e aprimorar o piano”, continuou, afirmando que deseja cantar profissionalmente e constituir uma família.

“Neste momento, o que eu mais quero é paz no mundo e, sobretudo, paz na Ucrânia”, finalizou.

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