O que fazer para uma formação básica mais eficaz?

O que fazer para uma formação básica mais eficaz?, Jornal O São Paulo
Daniel Guimarães /Educação SP

O papel indispensável da escola para a educação formal e a capacitação para a cidadania, o trabalho e as complexas relações sociais, bem como a necessidade de que toda a sociedade discuta e avalie os planos da Educação e que cada ente governamental cumpra suas responsabilidades estão entre os apontamentos do texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano (cf. CF 2022, nºs 69 e 270).

Esse olhar integral para a educação básica ajudará a lidar com as diferentes problemáticas do ensino no Brasil, tais como as precariedades de infraestrutura das escolas, os déficits na alfabetização, o nível de aprendizado insuficiente dos estudantes e a evasão escolar.

No documento “Educação Já 2022: uma proposta de agenda estratégica para a educação básica brasileira”, elaborado pela organização Todos pela Educação, especialistas e entidades de diferentes áreas fazem apontamentos para melhorar a qualidade da educação básica no País.

A agenda, sintetizada em uma proposta estratégica sistêmica com dez pontos (leia abaixo), tem como primícias que a Educação de qualidade deve ser acessível a todos os estudantes, que são necessárias múltiplas frentes de ação, incluindo a interação com diferentes áreas governamentais, bem como medidas voltadas à valorização e à profissionalização dos recursos humanos da Educação, além da partilha de boas experiências em políticas educacionais que já ocorrem.

PARA REVER AS PERDAS DA PANDEMIA

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Gabriel Corrêa, líder de políticas educacionais da Todos pela Educação, destaca que a primeira preocupação é a de garantir a volta dos estudantes para a escola: “Também é importante que recebam um acolhimento que restabeleça o vínculo deles com a escola. Após um período tão prolongado de fechamento, as crianças precisam ser acolhidas emocionalmente, receber afeto neste retorno”.

Côrrea lembra que identificar as lacunas no aprendizado é outro passo funda- mental. “Deve-se verificar quais crianças ainda não aprenderam a ler e a escrever, a fim de que tenhamos programas específicos de recuperação desta aprendizagem, tendo professores preparados, muito bem apoiados, para que a alfabetização aconteça”, comenta, apontando, ainda, que uma atenção especial deve ser dada aos alunos do 3o e 4º anos do ensino fundamental, pois podem não ter sido devidamente alfabetizados nos dois primeiros anos em razão da pandemia e do fechamento das escolas.

PARTICIPAÇÃO DOS PAIS

A presença efetiva dos pais no processo educativo também é indispensável: “É muito importante que as famílias incentivem as suas crianças e jovens a estudarem, que participem, que busquem entender o que está acontecendo na escola, que propiciem momentos para o estudo e para as lições durante a convivência familiar”, aponta Corrêa.

Também a esse respeito, o texto-base da CF 2022 indica que as instituições es- colares “são chamadas a respeitar a família como a primeira sociedade natural e a pôr-se ao seu lado, em uma reta concepção de subsidiariedade” (CF 2022, nº 225), e que estas devem ser incentivadas a participar de forma construtiva e respeitosa no dia a dia das escolas que atendem às comunidades (cf. no 267).

DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DOS ESTUDANTES

Corrêa ressalta que não haverá melhoria da educação básica enquanto forem mantidos currículos que se pautem apenas na valorização dos saberes instrumentais e não no desenvolvimento integral dos estudantes.

“A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) inovou ao trazer competências gerais que dizem respeito a este desenvolvimento integral. Há um imenso desafio em implementá-la, mas este é o caminho a ser seguido em cada município e estado, pois não adianta promovermos uma Educação na qual as escolas não são interessantes aos estudantes, em que a ida à escola é simplesmente uma obrigação para eles e que se mantenha a obsessão em aprender alguns conteúdos específicos e disciplinas que pouco fazem sentido para a vida deles”, conclui.

CONHEÇA OS 10 PONTOS DA AGENDA EDUCAÇÃO JÁ 2022
 
Veja alguns dos apontamentos da proposta estratégica sistêmica da agenda Educação Já 2022.
 
1) Fortalecimento da governança nacional da educação básica: O Governo federal, estados e municípios devem trabalhar juntos e de forma organizada; Reforçar o papel de coordenação do Ministério da Educação (MEC) e que os estados apoiem e se articulem com os munícipios.
 
2) Modernização da gestão dos órgãos da administração pública educacional: o MEC e as secretarias da Educação devem apoiar a escola. Para tal, seus membros precisam de competências técnicas e políticas para os cargos que ocupam.
 
3) Financiamento mais distributivo e indutor de qualidade: ampliar os investimentos por aluno e distribuir melhor os recursos. Espera-se que o novo Fundeb leve à redução do subfinanciamento educacional critico.
 
4) Fortalecimento da profissão docente: que os professores estejam bem preparados, motivados e com condições adequadas de trabalho; atrair estudantes de alto potencial para os cursos de formação inicial docente; que os cursos de Pedagogia e Licenciatura bem prepararem os futuros professores; que as secretarias aprimorem os processos de seleção dos profissionais e implementem programas de formação e apoio aos professores.
 
5) Profissionalização da gestão escolar: os gestores não devem ser vistos como gerentes administrativos, “mas como lideranças capazes de tornar as escolas ambientes realmente propícios para o desenvolvimento integral dos estudantes”.
 
6) Gestão pedagógica: que seja coerente e capaz de apoiar o trabalho dos professores e que haja currículos alinhados à Base Nacional Comum Curricular, uma vez que a BNCC reforça a necessidade da definição de metas claras de aprendizagem e de um alinhamento entre os diferentes elementos da gestão pedagógica, a partir dos currículos que vêm sendo (re)estruturados; adoção de metodologias de ensino mais modernas, com maior uso de tecnologias a favor da aprendizagem.
 
7) Educação Infantil de qualidade, articulada a um atendimento integral na Primeira Infância: que todas as crianças tenham amplas oportunidades de desenvolvimento. Para isso, são essenciais políticas de atendimento integral e integrado de qualidade, por meio de ações intersetoriais entre diferentes áreas (como a Educação, a Saúde e a Assistência Social).
 
8) Alfabetização: Que as crianças sejam alfabetizadas nos dois primeiros anos do ensino fundamental. Deve haver um conjunto sistêmico e integrado de ações de apoio e políticas de incentivo dos governos estaduais às prefeituras; na esfera federal, que as ações do MEC – no âmbito da Política Nacional de Alfabetização – dialoguem com os currículos alinhados à BNCC e com as políticas já estruturadas nas redes de ensino.
 
9) Uma nova proposta de escola para os anos finais do ensino fundamental: Que as escolas sejam atrativas para os adolescentes, preparando-os academicamente e para a vida no mundo contemporâneo. Elas precisam estar conectadas às necessidades, interesses e desejos dos estudantes.
 
10) Implantação de mudanças profundas no ensino médio: A escolas devem preparar o jovem enquanto indivíduo, cidadão e profissional. Devem ser efetivadas as mudanças trazidas pela Lei no 13.415/2017, como a expansão da carga horária (de 800 para 1.400 horas por ano) e a adoção de um currículo diversificado e flexível, com a oferta de possibilidades aos estudantes, por meio dos itinerários formativos.

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